Quem são e como vivem os seguidores de Aga Khan?

São muçulmanos xiitas, mas rezam apenas três vezes por dia, seguem as orientações de um príncipe, mas não têm país. Quem são afinal os ismailis que, nos últimos dias, invadiram as ruas de Lisboa?

Os idiomas misturam-se num ruído animado, quase cantado. São as vozes dos ismailis que pintam, por estes dias, a paisagem sonora das ruas de Lisboa. Em poucos metros quadrados é possível ver calças de ganga a conviver pacificamente com saris e túnicas coloridas.

A roupa é, contudo, o que menos importa para estes muçulmanos xiitas que vêm a Lisboa celebrar o Jubileu de Diamante do seu imã. É num ambiente de festa que comemoram os 60 anos do príncipe Aga Khan à frente da liderança espiritual da comunidade, um guia que os inspira a encontrarem o equilíbrio entre o espírito e a matéria.

Nádia Silva é uma das 55 mil pessoas que vive intensamente esta semana de união. Tem um nome bem português, mas é resultado de uma mescla de culturas. A mãe é moçambicana - como grande parte da comunidade ismaili que vive em Portugal - mas a avó é natural da Índia. Já o pai, católico, é o resultado do amor entre um marinheiro portuense e uma cabo-verdiana.

Com os horizontes abertos e a possibilidade de escolher qualquer religião, a jovem de 30 anos seguiu os passos da mãe. "Acabei por me tornar ismaili assim que nasci, mas sempre houve uma abertura para eu conhecer outras realidades. Como o nosso próprio imã diz, nós temos que conhecer todas as culturas e respeitá-las."

Hoje, Nádia Silva faz da fé uma missão a tempo inteiro e trabalha em programas de educação religiosa e civilizacional no Centro Ismaili nas Laranjeiras. O compromisso com a espiritualidade não é um peso. "É uma felicidade ser ismaili", garante.

Mas o que é que significa ser ismaili? Para Karim Vissangy a resposta não podia ser mais clara: é viver segundo a ética do serviço e da fé. Tem 46 anos e chegou a Portugal, vindo de Moçambique, com cinco. Partilha o nome (Karim) com o príncipe Aga Khan e acredita que este é descendente direto do profeta Maomé por parte do seu genro Ali.

"Sua alteza, o Aga Khan, corporiza toda essa filosofia de uma liderança que assenta não apenas na liderança espiritual, mas também na liderança enquanto assuntos materiais, ou seja, em termos de como melhorar a qualidade de vida não só para a comunidade, mas para a humanidade como um todo", explica Karim.

A visão holística da vida e do ser humano que os ismailis defendem é uma figura com vários vértices. Para além de rezarem três vezes por dia - ao contrário de outras comunidades muçulmanas que rezam cinco - dedicam-se a cuidar do corpo, com a prática de exercício físico, da mente, com um foco muito importante na procura do conhecimento, e na entrega ao outro, com a prática do voluntariado desde tenra idade.

Quem olha para Alisha Madatali vê uma jovem como qualquer outra. Com 21 anos divide os dias entre as aulas da faculdade e o trabalho de guia voluntária do centro ismaili e, apesar de ter um nome e uma religião diferentes da maioria dos colegas, garante que nunca sofreu qualquer tipo de discriminação.

"Enquanto mulher, em Portugal, ser ismaili é muito fácil. Não só porque a sociedade portuguesa é muito aberta ao público e aceita todas as religiões e todas as comunidades, como a comunidade em si está muito bem integrada desde que se mudou de para cá", assegura.

Nos planos para o futuro Alisha vê-se, como qualquer bom ismaili, a dar a conhecer a comunidade ao mundo. O voluntariado continuará a fazer parte da vida da jovem que sublinha que nunca sentiu a fé como uma obrigação. "Acho que não era feliz se não tivesse isto tudo na minha vida", remata.

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