Shimon Peres, a lenda da história de Israel

O antigo presidente e primeiro-ministro de Israel tinha 93 anos e estava internado há duas semanas, depois de ter sofrido um AVC. Peres venceu o Prémio Nobel da Paz em 1994.

Polaco de nascimento, tinha 11 anos quando os pais o levaram para a Palestina, onde a família passou a viver. Foi educado na escola de Geula, em Telavive, e estudou na escola agrícola de Ben Shemen. As suas convicções sionistas e socialistas levaram-no a integrar-se, muito jovem, no partido trabalhista. Foi membro do Haganah, organização armada clandestina que lutou pela formação de um Estado Judeu. A sua vida política tornou-se na própria lenda da história de Israel.

Shimon Peres, de seu nome original Szymon Perski, nasceu em Wiszniewo, na Polónia, atual Vishneva, Bielorrússia, a 15 de agosto de 1923. Nascido no seio de uma família judia laica da classe média, o pai era empresário de madeiras, e a mãe era professora da língua russa, e bibliotecária voluntária. As permanentes e longas temporadas de ausência do pai, por motivos da sua atividade empresarial de madeireiro, tornaram Shimon um sobre-protegido da mãe.

A família fixou-se na Palestina em 1934, quando ele tinha apenas 11 anos. Frequentou a escola de Geula, em Telavive, mas foi na Escola Superior Agrária de Ben Shemen que tirou o seu curso. Do avô recebeu o vício da leitura, que a mãe, enquanto bibliotecária, lhe alimentou desde a infância, trazendo-lhe, da biblioteca pública da cidade onde nasceu, os livros dos clássicos da cultura universal que Shimon devorava como um leitor contumaz.

«O meu amor pelos livros é um amor pela sabedoria. (...) Adoro um livro, mais ainda do que o teatro, o cinema ou um disco de música. Quando começo a lê-lo, decido fazê-lo como meu próprio mestre, que não presta contas a ninguém. Liberto-me de qualquer tipo de submissão, incluindo a submissão àquilo que o próprio livro conta» - escreveu na sua obra "Esboço da Juventude", publicado no início dos anos oitenta, onde confidenciou que foi o avô - um homem culto que lia boa literatura e tocava violino - quem verdadeiramente o iniciou no mundo das leituras.

Um lutador pela independência e pela liberdade

Shimon Peres militou na juventude trabalhista, ainda na clandestinidade. Em 1947 aderiu ao Haganah, movimento armado clandestino liderado por David Ben-Gurion, e que precedeu as forças israelitas da defesa na luta pela criação de um Estado Judeu na Palestina. Em 1948, quando foi proclamado o Estado de Israel, cujos territórios eram então uma colónia britânica, Ben-Gurion tornou-se primeiro-ministro, e indicou Shimon Peres, então com apenas 25 anos, para chefiar a marinha.

Peres assumiu a missão com todo o afinco. Estudou aprofundadamente as questões da segurança, dedicando treze anos da sua vida, entre 1952 e 1965, ao Ministério da Defesa nos governos de Gurion e de Moshe Sharett. Foi durante esse período que iniciou os programas de pesquisas nucleares e de produção de armas, e estabeleceu várias alianças militares.

Em 1968 participou na fundação do Partido Trabalhista, que viria a liderar entre 1977 e 1992, e mais tarde em diferentes momentos. Desde 1959 Shimon Peres ocupou, de forma praticamente contínua, as mais diversas pastas, não apenas durante a governação de Ben-Gurion, mas também nos governos de Golda Meir e Itzhak Rabin. Depois da demissão de Rabin, em 1977, Peres ocupou interinamente a chefia do governo, até às eleições desse mesmo ano, que acabou por perder.

De 1977 a 1984 liderou o Partido Trabalhista, na oposição. Após as eleições de 1984 Shimon Peres voltou ao executivo, em coligação com o bloco Likud, presidido por Yitzhak Shamir, a quem substituiu como primeiro-ministro. Foi também ministro das relações exteriores entre 1986 e 1988, e das finanças entre 1988 e 1990.

Arquiteto da paz com Yasser Arafat

Em 1990 a coligação entre o Likud e os Trabalhista colapsou por divergências entre os dois partidos relativas às conversações de paz com os palestinos. Peres abandonou o governo, continuando a liderar os trabalhistas, até fevereiro de 1992. Neste ano, Isaac Rabin arrebatou-lhe a liderança do partido, após uma crise interna de liderança. Em junho desse mesmo ano, os trabalhistas voltaram ao poder, com Isaac Rabin a liderar o governo. Shimon Peres aceitou integrar este executivo, assumindo a pasta das relações exteriores.

Durante mais de um ano Shimon Peres trabalhou arduamente na diplomacia internacional, com o objetivo de conseguir um acordo de paz com a OLP de Yasser Arafat. Em setembro de 1993 foi finalmente conseguido um entendimento entre as partes beligerantes, entendimento que abriu o caminho para estabelecer um limitado autogoverno palestino nos territórios ocupados por Israel.

Em face deste acordo histórico, que também ficou conhecido pelo Acordo de Oslo, mas que viria a ser assinado na Casa Branca sob o patrocínio do governo americano, um ano mais tarde Isaac Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat foram conjuntamente agraciados com o Prémio Nobel da Paz.

Em 1995 Isaac Rabin foi assassinado, voltando Shimon Peres a liderar o governo trabalhista. Mas em maio de 1996 as eleições gerais deram de novo a vitória ao Likud, liderado por Benjamin Netanyahu, ainda que por uma curta margem de votos, afastando os trabalhistas do poder. No ano seguinte, Peres foi reeleito presidente do Partido Trabalhista, cargo que já vinha desempenhando depois da morte de Isaac Rabin.

A Presidência como corolário da carreira política

Apesar da sua avançada idade, não terminou aqui a longa carreira política de Shimon Peres. Em 2001, após novas eleições legislativas, Peres regressou uma vez mais ao governo, aceitando de novo a pasta das relações exteriores, num executivo de coligação liderado pelo falcão Ariel Sharon. Convulsões internas de diversa ordem levaram Shimon Peres a demitir-se oficialmente do Partido Trabalhista, em 2005. Logo de seguida aderiu ao Partido Kadima, que, dois anos depois, o lançou como seu candidato à presidência de Israel.

Em 13 de junho de 2007 foi feita a eleição no Knesset - congresso israelita. Na primeira votação Shimon Peres conseguiu 58 votos, número insuficiente para ser eleito à primeira volta, já que seriam necessários 61 votos, como número mínimo.

Os candidatos do Partido Likud e do Partido Trabalhista decidiram então retirar-se da corrida, recomendando aos seus deputados o voto em Shimon Peres. Na segunda volta Peres conseguiu 86 votos a favor, 23 contra e duas abstenções. A 15 de junho de 2007, com 84 anos de idade, Shimon Peres tornou-se Presidente de Israel, para um mandato de sete anos, com términos oficial no verão de 2014.

Peres cumpriu o mandato de sete anos, acabando por deixar a presidência de Israel em 2014. Nesse ano, Reuven Rivlin foi seu sucessor. Já em janeiro deste ano, Peres sofreu um ataque cardíaco, foi operado, mas rapidamente voltou ao trabalho. A 13 de setembro, há duas semanas, um AVC atirou-o para uma cama de hospital, onde permaneceu sedado, com danos cerebrais irreversíveis. Na madrugada desta terça-feira, Shimon Peres acabaria por morrer.

Além de ter sido o político israelita com a mais longa carreira, Shimon Peres foi sempre considerado um intelectual brilhante, uma figura controversa no seu país, herói para muitos e trágico para outros, mas, indiscutivelmente, um líder reconhecido.

Casou em maio de 1945 com Sonya Gelman, uma mulher discreta que serviu no exército britânico durante a II Guerra Mundial. Ela faleceu em 2011, aos 88 anos, de insuficiência cardíaca no apartamento do casal em Telavive. Shimon e Sonya tiveram três filhos e oito netos.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de