Uma cidade às escuras onde a única luz é a da lua cheia. Assim está a Beira

A TSF está em Moçambique e faz o retrato da cidade da Beira.

A aterragem deu logo uma ideia daquilo que nos esperava na cidade da Beira da Beira, fortemente afetada pelo ciclone Idai.

O avião aterrou às escuras, o que é normal nalgum tipo de aparelhos, e aterrou numa pista que, aparentemente, estava às escuras. Ou seja, quando as portas se abriram, os passageiros tiveram que sair às apalpadelas porque não havia luz na pista. Também não se percebia muito bem onde é que era a zona para onde teríamos que sair. Via-se uma sombra de um aglomerado de pessoas, que estavam à espera nas chegadas. Algumas tinham cartazes e usavam lanternas para iluminar esses cartazes, por isso é que as víamos em contraluz. Foi uma aterragem às escuras num aeroporto quase por completo às escuras.

A viagem até à cidade foi feita à luz da lua cheia, a única fonte de luminosidade presente nos céus moçambicanos por esta altura.

Deu para ter uma vaga ideia do grau de destruição porque esta tem sido uma noite de lua cheia. Na ausência de iluminação, permitia ver com algum grau de detalhe a situação dos armazéns, das barracas, dos edifícios quase todos destelhados, sem teto. É uma particularidade que abrangia todos os edifícios, desde as mais simples barraquinhas de beira de estrada às barracas onde vive grande parte da população dos arredores da Beira. São feitas com conglomerados e pedaços de lata. Mas também há edifícios como um grande supermercado que ficou completamente destelhado e que foi, em grande parte, saqueado. Dos edifícios mais modernos, de vidro e cimento, resistiu a parte de betão e cimento, mas tudo o que é vidros foi pelos ares com a força do vento, constatou a TSF no local.

Por esta altura, o clima na Beira é ameno e não chove. O céu está bastante limpo, está muito calor e muita humidade. Como é natural, com esta temperatura fica muita humidade, mas as previsões para esta quinta e sexta-feira já apontam para o regresso da chuva intensa.

Essa é a grande preocupação. Um dos grandes dramas é a falta de água potável. Como tem chovido muito, as pessoas também aproveitam a água das chuvas para algumas coisas essenciais, como tentar cozinhar ou ter alguma água para beber que seja apanhada diretamente e que não esteja contaminada.

No hotel onde a TSF vai pernoitar, os hóspedes tiveram de se refugiar nas casas de banho aquando do ciclone.

Ficou parcialmente destruído mas, segundo o que contou o gerente, este hotel pertence a uma construtora portuguesa que conseguiu, quase de imediato, fazer uma grande limpeza e criar uns taipais para proteger o telhado do edifício. Estão a trabalhar, embora com muitas dificuldades. Por exemplo, o hotel tem sete ou oito pisos e não há elevador, portanto quem vem com muitas malas terá que carregá-las. Só há eletricidade durante algumas horas, ao fim do dia, e com recurso a gerador. Para carregar um simples telemóvel é preciso uma grande ginástica para acertar no período em que há um gerador disponível, constatou a TSF, antes de ver o cenário no hotel no que diz respeito à água.

Este hotel é dos poucos que estão a funcionar porque tem um furo, tem água. Isso permite ter água canalizada, coisa que é muito rara nesta cidade. No entanto, é uma água que não se pode beber. Fomos muito veementemente aconselhados a não beber esta água. Basta abrir a torneira para ver que ela é avermelhada.

Apesar de estar a funcionar, neste hotel é também possível ver o estado dos edifícios da cidade. Os tacos colam-se à planta dos pés, aos chinelos, porque o quarto inundou. Todos os tacos incharam e saltaram e, à medida que são pisados, saltam ainda mais.

Para fazer esta chamada, houve que fazer a tal ginástica de forma a aproveitar as horas em que o gerador está disponível para carregar o telemóvel e um powerbank com lanterna que, à falta de outra luz, permite ver onde se está.

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