Arroz de perdizes e vinho de talha

Um arroz de perdizes, confecionado segundo a receita assinada por Fialho de Almeida, harmonizado com vinho de talha, é a proposta ​​​​​​​eno-gastronómica para saborear na vila alentejana de Cuba, onde o autor de "Os Gatos" viveu, faleceu e foi sepultado.

"O meu arroz já por diversas vezes mereceu as honras da imprensa, e não me admiro, porque ele é obra íntegra e cientificamente criada para lisonja dos mais subtis requintes gustativos", escreveu Fialho em carta a Carlos Malheiro Dias, diretor da revista Ilustração Portuguesa, tecendo loas ao cozinhado que ele próprio idealizara.

A famosa receita foi, em boa hora, recuperada pela Associação Cultural Fialho de Almeida (AFA), sedeada naquela vila, e que promove e divulga a obra do escritor contemporâneo de Eça, Camilo e Ramalho.

O passo seguinte foi dado em anos recentes com o desafio lançado à restauração local.

O repto foi completado com a produção de um cartaz alusivo, em que surge a receita que Fialho de Almeida descreveu com admiráveis pormenores em carta endereçada a Júlio Dantas, o autor de "A Ceia dos Cardeais".

Saborear o pitéu na Adega da Lua

Um dos restaurantes onde o arroz de perdizes figura com regularidade na ementa é a Adega da Lua, a dois passos do museu literário instalado na casa onde o escritor, conhecido pelo tom polémico da sua escrita e humor corrosivo, viveu em Cuba.

O restaurante, com uma sala acolhedora e confortável, onde a lareira é aconchego bem-vindo nos dias mais frios, apresenta mesas bem aparelhadas e uma decoração rústica, com prevalência da madeira.

A lista de petiscos é tão vasta quanto variada, reflete essência regional e faz crescer água na boca: tábua com queijo Serpa DOP e presunto pata negra; ovos com farinheira ou com silarcas, os apreciados cogumelos da região; pimentos assados.

O excelente pão local não podia faltar na mesa onde chega, em fumegante tacho, o saboroso arroz de perdizes, que veio a revelar-se uma delícia para o palato: tempero adequado, arroz bem aberto, cozedura no ponto e a saborosa carne da ave desfiada sem dificuldade de maior.

A tradição vínica

A carta de vinhos, com excelentes propostas, maioritariamente regionais e com destaque para alguns produtores locais - Herdade do Rocim; Joaquim Costa Vargas, entre outros -, foi, no entanto, colocada de lado, uma vez que a proposta do caloroso anfitrião Hugo David pesou na escolha: vinho de talha.

Aliás, Fialho de Almeida, que casou com uma abastada proprietária cubense, D. Emília Pego, também se aventurou pelo mundo da agricultura.

Na coletânea "Correspondência:1877-1911", recolhida e transcrita por Emília Salvado Borges, são algumas as referências feitas a negócios de vinho:

"Eu tenho na minha adega de Cuba, 1 000 almudes de vinho branco com muita cor e suficientes condições de força, paladar e transparência», dá conta Fialho em carta enviada em 1906 a um possível interessado, propondo a venda do néctar «quase todo de uva de Vila de Frades."

Em território onde o vinho de talha, produzido segundo técnicas ancestrais, que remontam aos tempos da ocupação romana, continua a ser produzido com entusiasmo, a sugestão foi acertada.

O vinho, pese embora o caráter rústico inerente ao processo de produção, harmonizou na perfeição e esteve à altura do desafio. Um tinto equilibrado, a fazer jus à escolha neste restaurante onde a cozinha regional, à base de boa matéria-prima, é bem tratada.

Açorda de bacalhau; cozido de grão; ensopado de borrego; migas com carne de porco alentejano e feijão com catacuzes são alguns dos pratos mais emblemáticos desta casa localizada na vila que Fialho retratou na "Vida Irónica":

«A Cuba, imensa, ... num formigueiro de carros e peões ... tão amiga de vinho e de bailar».

Hoje, a outro ritmo, a vila é considerada a "Catedral do Cante", um Património Cultural Imaterial da Humanidade que Michel Giacometti ajudou a consolidar, recolhendo de forma porfiada tantas modas.

Calcorreou as ruas da sede de concelho e das freguesias com um pesado gravador de bobinas, colocado a tiracolo, que punha a rodar nas típicas tabernas, as tradicionais vendas, algumas (felizmente) ainda de porta aberta, e onde o cante, expressão genuína da cultura do Baixo Alentejo, jorra, espontâneo, entre um petisco e um copo de vinho branco.

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