Da Caldeira do Faial aos Capelinhos e a Porto Pim

A rota dos vulcões ilustra a natureza do Faial, umas das nove fascinantes ilhas dos Açores, um arquipélago para onde é seguro viajar e que deixa o visitante rendido.

Percorrer a ilha do Faial é seguir por «caminhos de sonho abertos para jardins encantados», tamanha é a beleza de uma natureza exuberante e única, que extasiou Raul Brandão em tempo de viagem pelas «Ilhas Desconhecidas».

O Parque Natural do Faial, criado em 2008, é o maior dos Açores, inclui uma área terrestre (30 km2) e quatro marítimas e reflete a preocupação na proteção do meio ambiente. A sustentabilidade, a par da segurança sanitária e da natureza, é um dos eixos que colocam o arquipélago como um dos destinos mais seguros para viajar nestes tempos de incerteza.

É meter pés ao caminho: há uma centena de quilómetros de trilhos para descobrir, entre eles o Trilho dos 10 Vulcões ou para os mais ousados, a Grande Rota Faial Costa a Costa, com final nos Capelinhos após 36,8 km de um trajeto que passa pela Caldeira.

A cratera do vulcão com meio milhão de anos abriu-se aos nossos olhos por benevolência da nebulosidade que, instável, abria e corria translúcida cortina aos 1 040 metros de altitude.

Em contrapartida, o vento ciclónico assumiu o papel de protetor daquele santuário natural e impediu a progressão em segurança na orla da cratera, obrigando a alguns prodígios de equilíbrio e a assisada renúncia à caminhada.

Lá em baixo, o sol banhava a formosa Horta, protegida a sul pelos montes da Guia e do Queimado, assim chamado pela cor escura da rocha, e a norte pelo morro conhecido por Espalamaca, nome "herdado" dos tempos do domínio exercido pelos holandeses, que se instalaram território que ganhou o nome de Vale dos Flamengos.

Desses tempos ficaram alguns moinhos tradicionais dos Países Baixos e que se destacam na paisagem dominada pelo minifúndio: pequenas parcelas de terreno protegidas por sebes bem aparadas dos ventos inclementes.

Tule bordado a palha: artesanato exclusivo faialense

A caminho dos Capelinhos, vale a pena descer ao Varadouro, onde as piscinas naturais são atração em tempo estival.

Mais à frente, uma antiga escola primária foi transformada em centro de artesanato, onde produtos certificados oferecem a garantia de origem e qualidade.

As rendas e bordados a palha de trigo sobre tule negro, característicos do Faial, e os trabalhos em massa branca de miolo de ramos de figueira, um incrível exercício de paciência e precisão cirúrgica que dá forma a moinhos, barcos à vela e flores, outros produtos de artesanato, são a expressão de arreigadas tradições que felizmente persistem nestas nove pérolas que formam o primeiro arquipélago do mundo com certificação turística sustentável.

Paisagem lunar

Na ilha formada há 800 mil anos e cujo nome teve origem na quantidade de faias existentes numa flora que prima pela diversidade e pinta de diferentes tonalidades de verde os 173 km2 de superfície, o sítio dos Capelinhos oferece uma visão lunar da vasta extensão que circunda o farol.

Em volta, uma dimensão esmagadora: tudo é árido, cinzento e arenoso.

No dia 27 de setembro de 1957, o primeiro vulcão submarino em erupção a ser estudado expeliu fogo a 4 000 metros de altitude. A lava, incandescente a 1200 graus Celsius, uma vez solidificada, acrescentou 2,4 km2 à área do Faial, mas a erosão já reduziu o ganho de terreno a um quarto.

No alto do promontório, o 3.º mais antigo farol dos Açores ficou soterrado até à primeira janela a cinco metros de altura.

As cinzas cobriram tudo ao redor, fazendo abater os telhados das casas, inviabilizando o cultivo dos campos e o pastoreio do gado vacum.

O êxodo da população foi inevitável e o programa Azorean Refugee Act possibilitou a concessão de milhar e meio de vistos de entrada nos Estados Unidos para famílias. Estima-se que cerca 12 mil habitantes, metade da população do Faial à época, tenha emigrado.

A visita ao Centro Interpretativo do Vulcão dos Capelinhos, o museu mais visitado dos Açores e um excelente exercício de arquitetura assinado por Nuno Lopes, permite uma outra visão do fenómeno que marcou, felizmente sem vítimas, a vida do Faial, uma ilha exposta aos caprichos climatéricos.

Aliás, ainda são visíveis sequelas da passagem, há ano e meio, do furacão Lorenzo, e que destruiu o aquário de Porto Pim, junto à Casa dos Dabney e à Fábrica da Baleia.

O velejador solitário que deu duas voltas ao mundo

No lado oposto da aconchegada baía, uma formosa concha defendida da pirataria de tempos idos pelo forte de S. Sebastião e protegida dos ventos agrestes pelos montes Queimado e da Guia, o restaurante Genuíno é local de boa mesa.

Ao leme da casa, aberta há sete anos, está o intrépido Genuíno Madruga: filho de eletricista, tornou-se homem do mar e fez da pesca o ganha-pão, O convívio com os navegadores que aportavam na Horta alimentou o sonho de fazer uma viagem de circum-navegação.

Reuniu o dinheiro suficiente e, como a primeira correu bem, deu outra volta ao mundo.

As proezas do velejador solitário são recordadas no restaurante em vitrinas e nas paredes preenchidas com recordações do navegador: mais de 150 t-shirts, fotografias, postais ilustrados, flâmulas e outras recordações dos locais onde aportou.

Genuíno Madruga fez-se ao mar a bordo do "Hemingway", nome dado ao veleiro de 11 metros como forma de homenagem ao autor de O Velho e o Mar. A primeira viagem, iniciada em 2000, «quando consegui reunir o dinheiro», relembra, demorou 19 meses a ser concluída e teve, pelo meio, uma data festiva:

«Fiz cinquenta anos em pleno oceano Atlântico, entre Cabo Verde e a América Central», recorda com um brilho nos olhos , quando o sol de fim de tarde entra pelas amplas vidraças da sala do andar superior.

O mar de Porto Pim está sereno, contrastando com a ferocidade da véspera, quando as vagas enraivecidas açoitavam o areal e a muralha mesmo sob a janelas do restaurante.

«Com mau tempo, não há meio-termo. Pensar que vai passar tudo é a melhor forma de encarar essas situações», refere o navegante que, «na primeira viagem, trouxe música de todas os sítios por onde passei. Por vezes, foi necessário fazer cópias das cassetes»,

Foi esse amor à música que o levou a visitar, em Hiva Oa, na Polinésia Francesa, a campa onde repousam os restos mortais de Jacques Brel, que conhecera no Faial. «Também era navegador e esteve na Horta, em 1974, com o seu veleiro», explica Genuíno Madruga.

«Ao lado de Jacques Brel está sepultado Paul Gauguin», acrescenta.

Único velejador português a concluir uma volta ao mundo em solitário, Genuíno Madruga foi o 10.º a nível mundial a dobrar o cabo Horn navegando do Atlântico para o Pacífico na rota de Magalhães. Uma proeza alcançada na 2.ª viagem, realizada entre 2007 e 2009, e que demorou mais tempo: 21 meses.

«Do calor dos trópicos passei para o oposto, com vários dias em que gelava tudo, muito vento e mau tempo», recorda.

No capítulo das melhores recordações está a receção em Timor, com honras presidenciais:

«A minha viagem não ficava completa sem ir a Timor», confessa. «Fui recebido no porto pelo presidente Ramos Horta, mas guardo na memória bons momentos vividos com as comunidades portuguesas».

Com uma pontinha de orgulho, Genuíno Madruga, que continua a ir à pesca e a ficar no mar dois ou três dias, não esconde que «levei os Açores ao mundo e trouxe o mundo aos Açores».

Um verdadeiro embaixador do arquipélago que é um destino turístico não massificado e seguro por natureza.

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