Galinha mourisca

A galinha mourisca é um prato que surge na vasta obra literária de Camilo Castelo Branco, muito ligada ao concelho de Vila Nova de Famalicão, onde o escritor passou grande parte da vida. O município daquela cidade minhota, empenhado em consolidar a Rota Camiliana, criada em 2017, através de pratos inspirados na vasta obra do escritor, pretende que tais pitéus figurem nas ementas dos restaurantes locais durante todo o ano.

"Faz-se torresmos; vai-se a gente ao pingo; deita-o numa tigela, onde já está a galinha entalida ou meio assada; ... por cima despeja-se um golpe de vinho branco, pouquito vinagre e água ... um quase nada; depois, louro, cravo, pimenta, gemas de ovo, fatias por baixo e rodelas de limão por cima.

É comer e gritar por mais!"

Um pitéu, esta galinha mourisca que estimulava as papilas gustativas de Camilo Castelo Branco e cuja receita deu à estampa em O Santo da Montanha.

Para Camilo, "a poesia do estômago não se dá nas cidades"; a cozinha rural, de essência minhota, essa sim, recebia as vénias do escritor, deliciado com os petiscos das locandas ao redor de Famalicão: iscas de fígado; lascas de pernil; rojões; salada de grão.

A errância gastronómica do autor de "Coração, cabeça e estômago" está bem expressa na vastíssima obra publicada.

Abundam as referências a pratos e receituário, que dariam um apetitoso refogado sensorial.

A receita da galinha mourisca - que bem podia ser um das muitas engordadas por Ana Plácido em S. Miguel de Seide - conheceu algumas metamorfoses ao longo dos tempos.

Nuno Oliveira, do restaurante Oprato, recuperou a receita deu-lhe um cunho mais tradicional.

Os chefs Lígia Santos e Renato Cunha - que já recriara uma ementa camiliana - aceitarem o desafio do município famalicense: colocar a galinha mourisca na mesa da Rota Camiliana.

Antes do trabalho, a quatro mãos, na cozinha, começaram por investigar, recorda Lígia Santos. Para tal, era necessário encontrar exemplar à altura. Com linhagem, à imagem de D. José de Noronha, personagem de O Santo da Montanha. Selecionar a raça do galináceo foi a tarefa seguinte.

Para o caldo ficar apurado, há um longo e paciente trabalho pela frente... Duas horas depois, o caldo está pronto, no ponto.

O resultado é perfeito após quatro horas de preparação: um prato equilibrado, rico em sabores.

Um manjar acompanhado com um vinho verde de truz, e não com o verdasco de Seide servido em algumas das novelas camilianas.

Prosas bem cozinhadas, com tempero satírico quanto baste. Às vezes, o caldo lá se entornava.

Mas, não o da galinha mourisca, um prato para reler Camilo e revisitar S. Miguel de Seide.

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