Um gin no bar do mundo: aperitivo para visitar a Horta

Em tempos de pandemia, o "Peter Café Sport" regressou às origens: em tempos idos, era obrigatório "visto" médico para os tripulantes dos barcos irem a terra, uma norma que voltou a ser aplicada nos últimos meses.

Na ilha dos vulcões, coma forma de tartaruga, fica a cidade mais ocidental da Europa. Cosmopolita por natureza, a Horta reúne predicados que justificam uma visita sem pressa ao Faial, uma das nove ilhas do primeiro arquipélago do mundo com certificação turística sustentável.

Um destino seguro por natureza e com muito para descobrir. A começar por um ex-líbris da cidade.

Envolto por um translúcido manto de neblina, o cónico Pico parece envergonhado da sua dimensão e não se mostra ao olhar de quem o tenta divisar do outro lado do canal imortalizado por Vitorino Nemésio em obra sublime.

Deste lado, na Horta, porto de abrigo de velejadores destemidos que, ontem como hoje, desafiam os humores do Atlântico, o Café Sport, celebrizado por "Peter", é a sala de visitas da cidade mais ocidental da Europa.

Nas paredes do café-bar-restaurante decorado com bandeiras, flâmulas e objetos náuticos, contam-se estórias de vida, recordam-se proezas, avivam-se memórias, anotam-se oportunidades para seguir a bordo.

Ficamos em terra, saboreando o icónico gin que deu fama a este "bar do mundo", uma casa aberta em 1918 - vai na 4.ª geração, 5.ª no negócio iniciado por Ernesto Azevedo - e mantém imutáveis princípios: ser útil aos que demandam a ilha azul, um território seguro por natureza. Só desse modo é possível alargada convivência - dez pessoas - à mesa do café-bar, apreciando o Gin do Mar, com notas de maracujá. Um sucesso iniciado em 2000 e já exportado para Alemanha, Bélgica e Cabo Verde.

Nestes incertos tempos de pandemia, o "Peter Café Sport" regressou às origens: em tempos idos, era obrigatório "visto" médico para os tripulantes dos barcos irem a terra; uma norma que voltou a ser aplicada nos últimos meses, em que o desembarque foi interdito. Solução: ir a bordo, fazer eventuais reparações e levar tudo o que fosse necessário. Desde água a tabaco - até para evitar uma revolta a bordo - produtos de mercearia e até testes de gravidez!

«Estamos cá para ajudar a comunidade náutica e somos conhecidos pela amizade», sublinha João Azevedo, bisneto de Henrique Azevedo, o fundador da casa, que habitava no andar superior do café. Durante a noite, a luz exterior ficava sempre acesa, não fosse alguém necessitar de ajuda,

«Ajudamos e recebemos marinheiros, mas não somos gentes do mar», refere, dando o exemplo do avô José Azevedo cuja alcunha foi posta pelo oficial de um navio britânico onde trabalhava: Peter, nome do filho do referido comandante, era de fácil pronúncia e assim ficou para sempre.

«Foi nomeado membro honorário do Ocean Cruise Club, de acesso reservado a quem tivesse percorrido pelo menos mil milhas náuticas de uma só vez, sem ter navegado. A justificação dada: o "Peter" era a sede do clube!».

Ainda hoje, aquele farol de solidariedade brilha noite dentro no exterior do espaço que «é um exemplo de globalização», acrescenta João Azevedo, galgando as escadas de acesso ao espaço museológico dedicado ao "scrimshaw", a arte de trabalhar - gravura e escultura - os dentes e ossos de baleia - um dente pode pesar 2,6 quilogramas - e que requer muito tempo e rigor nos pormenores.

«O meu avô teve a perceção que a caça à baleia tinha os dias contados e tratou de ir guardando objetos», explica João Azevedo, que divide com os irmãos Matriana e Pedro a gestão dos negócios da família.

A influência dos Dabney

O Peter Café Sport, frente à marina, é um ponto de partida ideal para deambularmos pelas ruas da Horta, cidade com passado cosmopolita e em cuja história se destacou, no século XIX, a família Dabney.

Ao longo de três gerações, os norte-americanos Dabney, originários de França, marcaram a vida social e política do Faial.

O pai John, o filho Charles e o neto Samuel, durante quase um século, os, assumiram papel preponderante na vida faialense.

«Introduziram a melancia na ilha; fomentaram a fotografia; introduziram o ténis - o críquete não teve adesão -, construíram uma cisterna de águia potável no Capelo, a zona mais seca do faial e território onde caçavam; e davam-se a certas extravagâncias: descer a caldeira - 1040 metros de altitude - a cavalo e levando atrás de si bandas filarmónicas, cujos elementos efetuavam o percurso a pé», explica João Costa, coordenador da Casa-Museu Dabney, no sopé do Monte da Guia, sobranceiro à baía de Porto Pim.

A antiga adega da casa de veraneio da família foi recuperada e permite hoje um olhar sobre o século em que os Dabney exerceram forte influência na vida empresarial e cultural da ilha.

Os Dabney chegaram à ilha que tem a forma de tartaruga quando a irmã de John naufragou. Nascido em Boston, dias antes da independência dos EUA, John Bass Dabney deslocou-se à Horta e por lá ficou durante um ano.

Regressou aos Estados Unidos, mas por pouco tempo: em 1806, voltou aos Açores para ser o primeiro cônsul dos Estados Unidos em Portugal.

À vida diplomática juntou os negócios: «tornou-se exportador de laranjas - à época um fruto exótico nos Estados Unidos - e de vinhos, tendo criado a marca Faial Wine. Mas, o vinho era produzido no Pico», refere João Costa com humor.

A faceta de mecenas dos Dabney levou-os a disponibilizar o iate Esperança para investigação botânica, aproveitando a presença da 1.ª expedição britânica científica no Faial. Uma planta endógena foi mesmo "batizada" veronica dabneyi.

Quando o comércio das laranjas e do vinho entrou em declínio, a baleação compensou a perda de rendimentos. Os Dabney fomentaram, no Pico, a construção de barcos mais adequados à pesca do cachalote: as embarcações eram de menores dimensões em relação às norte-americanas e desse modo a pesca à baleia ganhou maior expressão.

A fábrica da baleia de Porto Pim

Nas imediações da casa-museu, a fábrica da baleia, comprada em 1855 por Charles W. Dabney e que conheceu posteriormente outra fase, é um testemunho desses tempos: ali, com recurso a maquinaria pesada, era processado o total aproveitamento dos cetáceos, nomeadamente os óleos, que atingiam elevado valor.

A instalação dos cabos submarinos no Faial e que deu à Horta uma áurea de cidade cosmopolita, coincidiu com a entrada em declínio da família, quando o governo dos Estados Unidos colocou Samuel Dabney perante um dilema: ou os negócios ou a carreira diplomática.

A regata de homenagem, organizada como tentativa de dissuasão, não surtiu efeito e os Dabney saíram dos Açores, deixando um vasto legado, inclusive patrimonial, e que pode ser apreciado através de um roteiro citadino que inclui Bagatelle, a primeira residência da família no Faial; Villa Italia, Ceddars, Fredonia, Armazéns Relva, entre outras edificações.

Um passeio a pé pelas calmas ruas da Horta permite apreciar muito para além do legado dos Dabney, pois a cidade possui edifícios com belas fachadas e igrejas, destacando-se a Matriz do Santíssimo Salvador, no antigo Colégio dos Jesuítas.

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