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Cabo Verde precisa de conhecer e proteger património subaquático - especialistas

Cabo Verde tem um imenso património subaquático que precisa conhecer, explorar e proteger, mas faltam legislação apropriada, fiscalização e recursos para valorizar o legado submerso nos mares do arquipélago, defendem especialistas.

O património subaquático de Cabo Verde é o tema de uma conferência internacional, que hoje e sexta-feira, reúne no Mindelo, na ilha cabo-verdiana de São Vicente, especialistas de Portugal, França, Brasil, Marrocos, Alemanha e Senegal.

Numa iniciativa da M_EIA - Escola Internacional de Arte do Mindelo, a conferência assinala o primeiro centenário do afundamento, na baía do Porto Grande, dos navios brasileiros Guahyba e Acary, durante a I Guerra Mundial.

"Existe um património subaquático imenso, que é preciso procurar e explorar. Em termos estatísticos não sabemos, mas temos mais ou menos uma ideia da quantidade e do potencial desse património", afirmou aos jornalistas, Jaylson Monteiro, técnico do Instituto do Património Cultural (IPC).

O responsável, que fez durante a conferência uma intervenção sobre o presente e o futuro do património subaquático em Cabo Verde, lembrou o importante papel de Cabo Verde como "percurso essencial na circulação do Atlântico", para dar a dimensão do legado existente nos mares cabo-verdianos.

"A preservação desse património não é fácil e exige muitos recursos", acrescentou, enaltecendo o trabalho de preservação e divulgação do espólio do Museu de Arqueologia da Praia.

O diretor do Instituto do Património Cultural de Cabo Verde (IPC), Jair Fernandes, assinalou, durante a sua intervenção na abertura do encontro, as dificuldades em proteger este património dos "caça tesouros", num país onde falta fiscalização e a legislação mais adequada.

Para Jair Fernandes, apesar de Cabo Verde ser signatário da convenção aprovada em 2001 pela UNESCO para proteger o património cultural subaquático, a "legislação nacional lança um olhar muito distante dos princípios emanados pela UNESCO".

"É muito omissa, sem ter uma clara preocupação em impor as bases para a sua efetivação, entendida desde o processo de identificação até a gestão desses achados", acrescentou.

A convenção da UNESCO prevê a obrigatoriedade da preservação do património cultural subaquático, proíbe a sua exploração comercial, promove a intervenção mínima sobre os vestígios submersos e defende o princípio de conservação no local e a cooperação internacional com vista à sua proteção.

O presidente do IPC sublinhou igualmente a "quase inexistência" de fiscalização efetiva das atividades subaquáticas num arquipélago com uma grande extensão marítima e falta de recursos financeiros e humanos.

Nesse sentido, o responsável do IPC espera que a conferência possa dar um impulso no sentido da inventariação do património subaquático, da elaboração de uma política de investigação em arqueologia submersa e na criação de centro de investigação marítima de referência no Atlântico.

A conferência prossegue sexta-feira, destacando-se do programa a ante-estreia do documentário "Cabo Verde - uma história imersa", do cabo-verdiano Emanuel Charles d'Oliveira e do francês Erwan Savin, sobre o património subaquático do país.