Economia

Metade das entidades gestoras de água têm mau desempenho na área da sustentabilidade

Cerca de metade das entidades gestoras dos sistemas de abastecimento público de água em alta no país têm um desempenho "não satisfatório" ao nível da sustentabilidade ambiental, concluiu um estudo da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC).

Cerca de metade das entidades (46%) dos sistemas de abastecimento público em alta têm um desempenho não satisfatório e apenas 13% a 20% das entidades (dependendo do modelo de avaliação aplicado) apresentam uma 'performance' positiva, refere o estudo do CeBER (Centre for Business and Economics Research) da FEUC, da autoria dos investigadores Sandra Tralhão, Rita Martins e João Paulo Costa.

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Com base em dados de 2014, a sustentabilidade ambiental de cada uma das entidades foi avaliada de acordo com três indicadores: perdas reais de água, cumprimento do licenciamento das captações e eficiência energética das instalações elevatórias.

As entidades que apresentavam maiores perdas reais de água são a EPAL (Empresa Portuguesa das Águas Livres - responsável pelo abastecimento de Lisboa e arredores), a antiga Águas do Mondego e Águas de Douro e Paiva.

De acordo com a autora principal do estudo, Sandra Tralhão, a análise dos dados sugere a existência de uma correlação positiva entre o indicador de perdas reais de água e a água não faturada e uma correlação negativa com reabilitação de condutas.

Na componente da reabilitação de condutas, nota-se que "apenas uma entidade gestora apresenta bom desempenho, outra um desempenho mediano e as restantes um desempenho insatisfatório", referiu a investigadora, em declarações à agência Lusa.

"Fazendo o mesmo exercício para o ano de 2017 [último ano com dados disponíveis], constatamos que o cenário não é muito diferente. Apenas uma entidade gestora apresenta bom desempenho", sublinha.

Segundo Sandra Tralhão, os investimentos neste setor, durante algumas décadas, "passaram essencialmente pela implantação de novas infraestruturas de modo a aumentar a taxa de cobertura do serviço", sendo que "boa parte destas infraestruturas já atingiu, ou está em vias de atingir, os seus limites de vida útil".

Por isso, defende a investigadora, "é importante tomar medidas no sentido de promover a sua reabilitação de modo a aumentar a sua eficiência".

"A falta de investimento a este nível tem conduzido as entidades gestoras a uma política de gestão reativa em detrimento de uma política preventiva, o que tem consequências na gestão eficiente e sustentável do recurso", frisa.

A situação ganha uma importância maior num momento em que o país e o mundo sofrem as consequências das alterações climáticas.

"A severidade dos impactos das alterações climáticas no setor da água impõe um novo paradigma de gestão dos recursos hídricos. A ocorrência de secas mais longas, cheias mais intensas e de fenómenos climáticos extremos de forma generalizada cada vez mais frequentes destacam a necessidade de políticas de gestão coordenadas e impõem uma gestão parcimoniosa do recurso que passa não só pela sensibilização para a redução do consumo, mas também pelo aumento da eficiência por parte dos operadores do setor", salienta Sandra Tralhão.

Nesse sentido, a investigadora propõe alterações ao atual modelo de avaliação, de modo a que o desempenho dos operadores seja baseado num indicador global de desempenho, ao invés da avaliação critério a critério seguida pelo regulador, permitindo, assim, acomodar os objetivos e prioridades do setor e as características diferenciadas das várias entidades, que apresentam realidades distintas.