Misericórdia da Feira investe dois milhões para recuperar património e atrair turismo

A Misericórdia de Santa Maria da Feira lança, na sexta-feira, o projeto MISERERE, que prevê dois milhões de euros para a recuperação do seu edificado religioso e espólio sacro, propondo-se também valorizá-lo com um circuito museológico aberto a turistas.

A intervenção é financiada em 85% pelo programa Norte2020 e visa sobretudo reabilitar a Igreja da Misericórdia, que, embora tendo no seu átrio exterior um palco frequente para eventos culturais como o festival de artes de rua Imaginarius, se encontra bastante degradada e, por isso mesmo, já há muitos anos não acolhe missa dominical e em maio ficou definitivamente encerrada ao restante culto religioso.

"Tínhamos mesmo de recuperar este património, porque a igreja começou a ser construída no século XVII e é muito bonita, mas está em muito mau estado, seja no interior, seja no exterior, como se percebe não só pela fachada, mas também pela escadaria e pelo chafariz", declarou à Lusa a responsável pela gestão do edificado da Misericórdia da Feira, Conceição Alvim.

O elemento de maior valor nesse pequeno templo católico será o seu "retábulo maravilhoso em talha dourada verdadeira" e cuja situação se vem agravando continuamente desde as obras na sequência imediata do terramoto de 1755: "Está todo a soltar-se e a tombar para a direita, o que significa que vai ter de ser integralmente refeito, limpo e reestruturado para recuperar de modo fiel a sua forma original".

Outras tarefas em destaque na empreitada serão a renovação das janelas com os vitrais que vêm aguardando colocação "desde os tempos do Marquês de Pombal" e a instalação de um sistema de vídeo que, após um estudo aos vestígios de cor detetados na abóbada da capela-mor, permitirá projetar nos seus caixotões as imagens que os decoravam originalmente e que "já não são recuperáveis".

Às intervenções programadas desde o início do projeto, no que se refere a imóvel, mobiliário, arte sacra e estatuária religiosa, o MISERERE teve, entretanto, de acrescentar medidas destinadas a recuperar relíquias apenas descobertas durante os primeiros trabalhos de adaptação da igreja ao arranque da empreitada.

É o caso de pinturas antigas identificadas nas paredes sob camadas de tinta mais recentes que serão agora removidas para permitir avaliar o mérito artístico das obras subjacentes e é também o que acontece com uma série de paramentos e outros têxteis antigos encontrados durante as referidas arrumações.

"São trajes fabulosos, que têm mesmo fio de ouro e prata, e estavam aguardados num espaço a que já ninguém acedia há séculos", revela Conceição Alvim. "Agora vão ser entregues às Monjas Carmelitas Descalças do Mosteiro de Bande para serem restaurados à mão, e depois serão expostos numa secção que vamos criar para o efeito na igreja, já para as pessoas poderem vir ver essas e as muitas outras peças fabulosas que aqui temos", antecipa.

Para adjudicação de todos os restauros e obras previstos no âmbito do projeto MISERERE, a Santa Casa da Feira realizou cerca de dez concursos públicos, alguns dos quais repetidos de forma a que permitissem encontrar "o justo equilíbrio entre preço e competência específica" para a intervenção em património religioso.

Essas dificuldades serão partilhadas com a comunidade local já esta sexta-feira, no primeiro de uma série de encontros mensais que a Misericórdia abre ao público para lhe revelar o seu património, com recurso a pequenos concertos e conversas em pleno estaleiro de obra - até "para as pessoas verem como a intervenção vai correndo e lhe darem mais valor".

A empreitada só deverá ficar concluída dentro de um ano, mas, entretanto, já se prepara a outra valência anunciada para a igreja classificada como Monumento de Interesse Público em 2012.

"Além de retomarmos a atividade religiosa normal, vamos criar aqui um circuito museológico aberto ao turismo e dinamizar ações culturais que reforcem a nossa proximidade às pessoas", revela Conceição Alvim, ao antecipar iniciativas como visitas guiadas, concertos, tertúlias e até oficinas de gastronomia conventual.

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