2021: o ano do regresso a um normal… que deixou de existir

Pandemia e vacinação, Biden no pós Trump com muito Xi e algum Putin, Portugal líder na Europa por seis meses no fim da era Merkel e no ano do regresso dos tabliban ao poder no Afeganistão.

É verdade que os EUA restauraram um pingo de decência do qual se ausentaram, ao nível do seu poder executivo federal, durante quatro anos. Restabeleceram as boas relações com a União Europeia, regressaram ao Acordo de Paris, deixaram de desprezar as Nações Unidas e o seu Secretário-Geral, acabaram com as cumplicidades de teor suspeito e servil com regimes pouco ou nada democráticos; ainda assim, mantendo-as com alguns outros, como também é apanágio do país que deixou de ser potência global única.

Mas se a chegada de Biden à Casa Branca como presidente foi um sinal de esperança no regresso a uma normalidade que a massificação da vacinação no mundo dos países ricos iria acentuar, a verdade é que o mundo, depois de quatro anos de desvario "trumpiano", com tudo o que provocou e desencadeou, mais a forma como líderes autocratas o souberam aproveitar, já é mundo muito diferente daquele que Biden conheceu quando era vice de Obama.

Portugal começou o ano à frente do Conselho da UE, testemunho recebido das mãos de Angela Merkel em final de ciclo na Alemanha. O país não se saiu mal, bem pelo contrário. Seis meses com mais altos que baixos, tendo como ponto alto a aprovação de uma lei europeia do clima, mas também o referido restabelecimento da cooperação transatlântica e o acordo com o Reino Unido para fixar o futuro das relações (a confusão persiste, mas isso fica para depois).

2021 continuou a ser ano da pandemia e ano da vacinação em massa nos países ricos e da vergonha da falta de vacinas no resto do mundo... afinal, por onde anda a solidariedade? António Guterres lamentava e respondia em três palavras: "Missing in Action". E acrescentava: "quando é mais necessária".

Vergonha, também disseram muitos, ao que aconteceu no Capitólio a 6 de janeiro. Trump ainda pode vir a ser acusado como o grande instigador do assalto ao Congresso. Mas não muda o discurso. O impensável fez soar os alarmes entre os antecessores: Obama, Bush, Clinton, três ex-presidentes uniram-se para unir a América, reconhecer os resultados das eleições de novembro de 2020 e desejar sucesso a Joe Biden e à primeira vice-presidente mulher, Kamala Harris. Duas semanas depois do vergonhoso assalto ao Capitólio pela turba ultraconservadora e selvagem instigada pelo então ainda presidente em funções, Donald Trump ("If you don"t fight like hell, you"re not gonna have a country anymore"; "we"re gonna walk down to the Capitol", diria, horas antes de - sem arrependimento - apelar à calma e à contenção dos seus ultras), Biden tomava posse e prometia salvar a América. Ainda não conseguiu mas nessa tarde de 20 de janeiro, deu a conhecer ao mundo a extraordinária Amanda Gorman, com The Hill We Climb.

Houve uma mudança de tom na Casa Branca mas nem por tanto de rumo. A América nunca deixou de manter o alvo geoestrategico apontado; o novo chefe da diplomacia, Anthony Blinken, denunciava aquilo que considera ser "uma China mais agressiva internamente e no estrangeiro".

2021 foi o ano em que o partido comunista chinês aprovou a Resolução histórica" que põe Xi Jinping ao nível de Mao Tse Tung e Deng Xiaoping:
"Para o grande rejuvenescimento da nação chinesa, o Partido Comunista da China uniu-se e levou o povo chinês avançar com determinação, criando grandes conquistas na reforma, abertura e modernização socialista".

Mas se este é o grande duelo político global da nossa geração e para as próximas décadas, ainda há rivalidades do tempo da primeira guerra fria: o ano teve o ocidente a queixar-se de Putin por causa da pressão que faz sobre a fronteira da Ucrânia e da que não fez (sobre Lukashenko) nas fronteiras da Bielorrússia. Com um discurso que parece o avesso do fato que americanos e europeus vestem, o presidente russo acusa o Ocidente de usar a crise de migrantes na fronteira bielorussa-polaca para provocar tensão numa região de fronteira da Rússia e pressionar o governo de Minsk. Para Biden, não é bem assim... nem sobre isto, nem sobre a pressão na fronteira com a Ucrânia, tendo avisado a Rússia de que pode sofrer consequências devastadoras. E repetiu, silabicamente, de-vas-ta-do-ras. Putin ouve sempre melhor do que parece. Apertaram as mãos em Genebra em meados de junho, a guerra híbrida está aí, é verdade, mas vão conversar em Genebra já no início do ano que vai começar. Não é mau.

Na Europa, continuaram as derivas populistas e ultraconservadoras a Leste, e ameaças disso a menos leste. O pós Brexit continua a set sinónimo de confusão. Ursula Von Der Leyen bem lembrou ao desnorteado Boris Johnson que os acordos que só valem quando passam do papel à prática.

Uma Europa com refugiados deixados à porta e a morrer no mar e nas florestas de fronteira enquanto a população europeia definha e o futuro se compromete. O Canal da Mancha foi cemitério de refugiados com dezenas de mortos. A 24 de novembro morreram pelo menos 27 pessoas, incluindo uma criança. O chefe do governo britânico culpou o negócio do tráfico de pessoas. Os franceses em Calais culpavam Boris Johnson pelo falhanço da política migratória. A Paris também interessa que o homem despenteado seja bombo da festa. Britânicos e franceses também separados pela política e estratégica; o AUKUS juntou ingleses a americanos e australianos, num acordo trilateral de segurança, que fez devolver à procedência a nota de encomenda de submarinos franceses por parte da Austrália. "Os Europeus devem deixar de ser naïves", disse Macron, com ar pesaroso.

Isto aconteceu dias depois de os Talibãs terem tomado o poder no Afeganistão após uma retirada americana - e ocidental - com pouca honra e nenhuma glória. 15 de Agosto fica para a história como o dia em que a popularidade de Joe Biden começou a cair e se adensaram, porventura de um modo irreversível, as dúvidas sobre o papel incontestado de liderança que os EUA ainda se outorgam. Voltou a falar-se das meninas e mulheres afegãs e os afegãos passaram a fugir do país em maior número. Portugal já acolheu (e muito bem) mais de setecentos.

Na América Latina, Lula regressa ao combate político e liderou sondagens no último ano de Bolsonaro presidente, o sandinista tornado ditadorzeco Ortega mandou prender opositores e ganhou tranquilamente as eleições na Nicarágua, houve protestos como nunca em Cuba, agora com um novo líder do partido único, o também presidente do país Miguel Diaz Canel. Há também um novo chefe de estado do Chile, viragem à esquerda com o jovem de 35 anos Gabriel Boric, que derrotou um apaniguado de Pinochet.

2021 foi ano de tumultos na África do Sul após a detenção para julgamento do ex-presidente Jacob Zuma, o retrocesso democrático em Myanmar (e em mais 72 países do mundo, incluindo Portugal, tendo o progresso democrático sido assinalado em apenas 28 nações, de acordo com o relatório da Freedom House) e a continuação da guerra de Israel em Gaza (e o país voltou a ter governo, o primeiro em muitos anos sem Bibi Netanyahu, agora é Naftali Bennett), a guerra civil no Iémen e na Etiópia, em particular no Tigray, caiu o governo de unidade no Sudão, tivemos o ano do início da resposta ao terrorismo em Moçambique, com uma missão militar europeia liderada pelo português Nuno Lemos Pires.

2021 foi o ano da COP 26, quando a emergência climática já é uma realidade e os mais pobres e vulneráveis vão pagar a fatura mais pesada (e há, tragicamente, muitos europeus sem perceber a importância da mudança que aí vem com os planos que a Comissão conseguiu fazer aprovar pelos 27), o ano de fenómenos climáticos extremos, como as cheias na Alemanha, mas também os incêndios na Califórnia, no Canadá e no Mediterrâneo, o ano da erupção do Cumbre Vieja em La palma, Canárias, e do menos dramático Fagradalsfjall na Islândia, o ano da crise no Canal do Suez com o gigante Ever Given, o ano em que Elon Musk e Richard Branson foram ao espaço, o ano do grito de revolta de atletas como Simone Biles, o ano do adeus a Desmond Tutu, Larry King e Max Stahl mas também a Colin Powell, ao príncipe Philippe e a Frederick De Klerk, a Christopher Plummer, Lee Evans, Lawrence Ferlinghetti, ao Rolling Stone Charlie Watts, Chick Corea e Lee Scratch Perry. 2021 ainda viu o lançamento do maior telescópio espacial de sempre, o James Webb, engenhoca importante com trabalho português (Catarina Alves de Oliveira).

O ano da consagração de Chloé Zhao nos Óscares e nos Globos de Ouro, o ano do Prémio Sakharov do Parlamento Europeu foi para um vivo mas preso, o russo Alexei Navalny. Este foi, por fim, o ano do Nobel da Paz para dois jornalistas, um deles também russo - Dmitri Muratov- e a filipina Maria Ressa, em nome de um valor, a liberdade de expressão, que é preciso defender todos os dias, todos os anos.

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