A Alemanha dividida: "Entre um militar e o diretor da escola, saí a pingar suor"

A TSF conversou com Jorg Stiehler, que contou como foi crescer numa Alemanha dividida.

Jorg Stiehler nasceu e cresceu numa Alemanha dividida, tinha 16 anos quando - com um visto de férias - conseguiu fugir, com a mãe, via Hungria e Áustria até chegar à República Federal. Atualmente tem 46 anos e trabalha como designer gráfico, em Hamburgo.

Conta que na infância vivia sempre com medo, com muitas dificuldades financeiras e que foi obrigado a frequentar uma educação militar. Este é um dos momentos que recorda como dos mais marcantes na RDA.

"Vivi situações muito peculiares, mas há uma que me marcou. Antigamente, na RDA os jovens quase eram obrigados a ir para a tropa, para um serviço de duração muito longa. No início do ano letivo éramos chamados, um a um, ao gabinete do diretor da escola. Um dia eu fui chamado, na sala estava de um lado o oficial do exército, do outro o diretor e eu fiquei no meio deles. Durante 15 minutos tentaram convencer-me com os mais diferentes argumentos, a entrar no serviço militar de longa duração. Eu na altura tinha apenas 15 anos e para mim foi uma experiência muito dura. Tanto que saí a pingar suor... obviamente recusei".

Jorg Stiehler diz que tinha 14 anos quando pensou pela primeira que tinha que fugir, "não conseguiria ter um futuro feliz na Alemanha de leste". O contexto em que viveu a infância e a adolescências definiram a pessoa que é hoje. "Sou muito crítico a nível político. Gosto de democracia, mas no sistema atual há muito a melhorar. Se antes vivíamos uma economia de escassez, agora é de exagero, compramos tudo".

Após a queda do Muro de Berlim, Jorg Stiehler regressou ao país onde nasceu e encontrou todo um mundo novo, diz que parecia que um vulcão tinha transformado a Alemanha.

"A primeira vez que voltei à Alemanha de Leste foi três semanas depois da queda do muro. Fiquei muito feliz, consegui ver os meus familiares. Mais tarde, em 1993, regressei e mudei-me definitivamente para Dresden. Achei muito interessante, tinha sido tudo pensado de uma forma nova, havia muitas possibilidades de uma vida nova. Tinham aberto várias empresas, muitos bares, a oferta a nível cultural tinha aumentado muito. Parecia que um vulcão tinha entrado em erupção!".

Jorg Stiehler lamenta que hoje os lideres de vários países falem sobre a construção de muros para dividir nações, diz que o mundo pareça já ter esquecido o que representa o Muro de Berlim. "É um desenvolvimento negativo, o que tem guiado o mundo ultimamente. Tem a ver com o problema das migrações, a União Europeia tem tomado algumas decisões erradas. No que diz respeito aos muros não acredito e não consigo conceber como é possível... o Muro de Berlim acabou de cair, foi apenas há 30 anos e pergunto-me: porquê? Não percebo..."

Jorg Stiehler está em Portugal a convite do Goethe Institut para participar em conferências e debates em escolas e universidades de Lisboa e do Porto, a propósito dos 30 anos da queda do Muro de Berlim.

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