A dor de ouvir o riso de uma criança
Crónica

A dor de ouvir o riso de uma criança

As redes sociais são a conversa de café onde estranhos se sentam à volta da mesa invisível a que chamamos internet para discutir futebol, política ou a última polémica.

As redes sociais são muitas vezes fúteis. Fontes de entretenimento imediato e fugaz - vemos um vídeo, fazemos um 'gosto', partilhamos, esquecemos.

Poucas são as vezes em que um vídeo partilhado nas redes sociais choca tão brutalmente com a nossa realidade que abala todos os nossos alicerces. Estamos em casa, num sofá confortável, e de repente o chão escapa-nos dos pés.

Aconteceu-me ver um vídeo assim ontem à noite. Não é 'viral', não está a 'incendiar as redes sociais', mas só graças a essa rede invisível que une pessoas de realidades tão diferentes pôde chegar até mim.

O vídeo em que não consigo parar de pensar é sobre o riso de uma criança.

Uma menina de três anos, vestida de cor-de-rosa e com bochechas muito vermelhas, fixa a câmara de um telemóvel com olhar traquina.

O pai pergunta-lhe, num sussurro: "É uma bomba ou um avião?" A filha responde-lhe, expectante: "É uma bomba."

Tinha razão, é uma bomba. Ouve-se uma explosão e a menina síria ri-se. Ri-se muito e muito alto. Ri-se com vontade.

Para compreender este vídeo não podemos pensar neste momento, em que um pai e uma filha riem-se juntos.

Temos de pensar no passado, em quantas bombas já tiveram de explodir para que aquela menina tão pequenina tenha perdido o medo e parado de chorar para passar a rir-se ao ouvir uma bomba.

Temos de pensar no futuro, em quantas bombas ainda vão explodir ao lado desta e de milhares de crianças na Síria.

E, para apaziguar a alma, temos de pensar que o tempo e o espaço ficaram suspensos no final do vídeo. Temos de desejar que esta menina nunca venha a saber mesmo o que é uma bomba. E nunca pare de rir.

Abdullah Al-Mohammad ensinou a filha, Salwa, a ignorar o seu instinto natural. Conseguiu moldar o terror numa brincadeira. Não chega a durar um milissegundo o susto, quase pulinho de excitação, estampado no rosto da menina antes de esta irromper em gargalhadas.

A família fugiu de Saraqib, no noroeste da Síria, e refugiou-se em casa de um amigo, na cidade de Sarmada, mas continua cercada por bombardeamentos constantes.

Em entrevista à Sky News, o sírio contou que queria que a filha "sobrevivesse psicologicamente", por isso tentou que ela passasse a associar sons assustadores para qualquer criança a "uma fonte de felicidade".

O jogo é mais real para Salwa do que a guerra. Uma brincadeira com o pai, como a de Guido e Giosué, mas sem realização de Roberto Benigni.

Enquanto vemos vídeos sentados no sofá, provavelmente apenas uma criança síria ri no verdadeiro palco da guerra. Outras, milhares, não conhecem outra forma de viver que não em lágrimas.

Segundo a organização Save the Children, mais de 900 mil pessoas, incluindo 500 mil menores, tiveram de deixar as suas casas desde o início de dezembro de 2019, aquando a intensificação da ofensiva das forças governamentais no nordeste da Síria.

Só nos últimos dias, conta esta terça-feira a UNICEF, pelo menos 30 crianças morreram devido ao frio intenso e condições de vida desumanas nos campos de refugiados.

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