"A este ritmo, não teremos 75% da população mundial vacinada em dois anos"

As patentes das vacinas, o terrorismo em Cabo Delgado, as relações com a Rússia na entrevista de Josep Borrell, vice-presidente da Comissão Europeia e Alto Representante para a Política Externa, à TSF

Vice-presidente Josep Borrell, na sua opinião são muito importantes os compromissos que possam sair desta cimeira do Porto, são muito importantes para o futuro próximo da Europa?

O futuro da Europa dependerá muito da dimensão social que seja atribuída à União Europeia. Em teoria, as políticas sociais continuam a ser da responsabilidade dos Estados-Membros, basicamente, mas com o plano de recuperação contra a pandemia, haverá uma quantidade significativa de recursos financeiros para contrariar as consequências sociais da crise.

O entendimento entre os 27 aqui no Porto, de alguma maneira, ajuda a reforçar o papel da Europa como ator global?

Claro que sim. Veja o que está a acontecer. Por exemplo, nos Estados Unidos, eles consciencializaram-se de que, para ser uma potência global, e certamente os Estados Unidos são, têm que começar a cuidarem-se, a preocuparem-se muito com sua estrutura social, desigualdades, pobreza e falta de oportunidades para os jovens. Um país não pode ser forte no mundo se internamente não tiver uma estrutura social forte e equilibrada. E na Europa o social está relacionado com o global, porque somos certamente a melhor combinação entre liberdade política, entre progresso económico e entre coesão social. Mas não devemos esquecer que, como um todo na Europa, há mais de 20% da população abaixo da linha da pobreza e que a crise, a pandemia, aumentou ainda mais. Esta situação na Europa não pode pretender ser um ator global se não conseguir manter a força da coesão da sua sociedade e manter essa força sequestrando a sua sociedade.

E para manter essa força e coesão da sua sociedade, é importante que os chefes de governo da União Europeia cheguem a um acordo sobre a liberalização das patentes das vacinas contra a Covid-19, depois do repto lançado pelo presidente dos EUA?

Bom, é uma proposta que há que estudar. E vamos ver se isso ajuda a produzir mais vacinas e mais depressa. Hoje, no mundo, estamos a vacinar, diariamente, entre dezoito a dezanove milhões de pessoas. A este ritmo, não chegaremos a 75% da população mundial vacinada, antes de dois anos. É tarde demais. Precisamos de mais vacinas, mais produção, mais rápido. Como é que isso pode ser alcançado? Existe a abordagem de dizer que vamos deixar todo o mundo usar as patentes existentes, mas com patentes por si só, não se produz. Precisamos ter recursos de produção industrial e eles não são fáceis de obter. Isso é o que os líderes vão ainda discutir.

Está confiante?

Repare, não é apenas um acordo entre europeus. Tem que ser um acordo no âmbito da Organização Mundial do Comércio...

São 164 países....

E temos de ver bem vantagens e desvantagens. Também não pode matar ou enfraquecer a inovação, é uma questão delicada e as pessoas acreditam que é essencial compensar os proprietários das patentes. Outros acham que a capacidade de produção pode ser aumentada sem passar por isso. Tudo depende de quanta capacidade de produção existe no mundo hoje. Porque eu insisto, pode-se pensar e eu penso que ter acesso a patentes ajuda a produzir mais, mas também é preciso pensar que a patente sozinha não produz. Você pode ter a patente, mas se não tiver uma fábrica, a patente serve de pouco. E essas fábricas não são fáceis de criar. Existem fábricas no mundo que estão paradas e poderiam entrar em operação amanhã se tivessem acesso à patente? Sim? Quantas? Onde estão? Não sei.

Sente que é cada vez mais urgente uma missão da União Europeia em Cabo Delgado, Moçambique?

Temos estado a trocar cartas, ontem mesmo assinei uma carta para o Presidente de Moçambique a responder ao seu pedido de ajuda e espero que os estados membros aceitem enviar uma missão de treino do exército moçambicano, como as que temos no Mali ou em vários países africanos.

Porque há o receio de que o jihadismo terrorista possa descer de Cabo Delgado para Nampula?

Não sei. Vai depender do governo moçambicano para o ano que pede e o que os estados membros estão dispostos a ajudar.

Qual é a responsabilidade da União Europeia no atual estado de relacionamento com a Rússia?

Responsabilidade? Não o diria em termos de responsabilidade da União Europeia. É claro que a relação com a Rússia não está no seu melhor momento, certo? E com o que está a acontecer com a troca de sanções, com o que está acontecer com o dispositivo militar russo na fronteira com a Ucrânia, com o apoio ao ditador da Bielorrússia. Não, o relacionamento não está bom, mas é para isso que servem os diplomatas, para melhorá-lo.

E está confiante? O que pensa que pode ser feito no curto prazo?

Falar quando for necessário, e conter a Rússia quando for necessário, apoiando a Ucrânia, apoiando a oposição na Bielorrússia, apoiando a sociedade civil russa. A Rússia, há que contê-la, há que empurra-la para posições de diálogo quando realiza ações de desinformação que criam problemas. Mas também devemos manter um relacionamento naquilo que nos interessa. Não pode resolver o problema do Ártico sem a Rússia, certo? O mesmo pode ser dito da dependência energética de alguns países ou dos problemas das mudanças climáticas. A Rússia é um grande país, é um grande vizinho e não vai desaparecer. Há que continuar a tentar melhorar o relacionamento.

Em poucos meses, dois países cujos regimes podem ser considerados autoritários, autocráticos, a Turquia e a Rússia, receberam de forma menos apropriada dois altos dirigentes europeus: o senhor na Rússia e a presidente da Comissão na Turquia. São apenas episódios ou devemos encará-lo como um clima que está instalado?

Vou falar sobre o que tenho que fazer. Ou seja, muito se tem falado sobre minha viagem à Rússia e a verdade é que acredito sinceramente que essa viagem teve que ser feita, porque se queremos dizer aos russos o que pensamos, não aos russos, ao governo de Putin, aos Os russos eram outra coisa. Queremos contar ao governo de Putin ou que pensamos ou que eles estão fazendo como Senhor, Navalny, parecia que ou nascera era para contar a cara a exatamente nenhum momento em que Navalny esteve no dia do julgamento. Já sabia que os russos não me iam aplaudir, mas tinha de o fazer.

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