A guerra e o que aí vem: "No inverno, os europeus vão ser confrontados com escolhas difíceis"

A guerra na Ucrânia, o discurso de Putin e a mobilização de reservistas, a contestação nas ruas e a importância da troca de prisioneiros são temas da entrevista TSF com Tiago Ferreira Lopes, professor de Diplomacia da Universidade Portucalense.

O professor de Diplomacia da Universidade Portucalense, Tiago Ferreira Lopes, alerta que, com a chegada do inverno e a continuação do conflito na Ucrânia, "os europeus vão ser confrontados com escolhas difíceis". O docente assinala mesmo que os efeitos desse cenário já começam a fazer-se sentir, com protestos recentes na Estónia, Chéquia e Áustria, uma dinâmica que o Kremlin "está a tentar capitalizar".

"Os europeus poderão começar, a partir daqui, a pressionar os governos não para apoiar a Rússia - não me parece que o caminho seja esse -, mas para desapoiar ou apoiar cada vez menos a Ucrânia", argumenta, citando o caso específico da primeira-ministra da Estónia, "que já por duas vezes quase ficou sem governo, neste ano, à conta do conflito".

Kaja Kallas disse aos estónios que "têm de preparar-se para a possibilidade de apagões parciais durante o inverno, porque a Rússia pode desligar a tomada", um alerta replicado pelo governo da Letónia.

"É muito provável que, daqui para a frente, no Leste da Europa comecemos a ter este tipo de dinâmica", algo que vai "obviamente levar a população para a rua como já tem acontecido".

Nas últimas semanas houve protestos, embora "pouco mediatizados no Ocidente", que encheram as ruas da Chéquia, da Eslováquia e, mais recentemente, da Áustria. A mensagem da população é a de que os governos têm, primeiramente, de proteger quem os elegeu "e não necessariamente de proteger governos estrangeiros".

O frio como arma

Além da dimensão económica, também no lado bélico do conflito pode haver alterações com a chegada do frio invernoso. Aquando da queda de Kiev, a Rússia mostrou capacidade para "reorganizar-se e posicionar-se no terreno", pelo que o fator inverno, assinala o professor, deve estar presente nas mentes de todos.

"Em geral, o inverno tende a ser favorável à Rússia, que o usa ciclicamente. Basta ler um pouco de História russa, basta ir do século XIX à contemporaneidade, nem é preciso ir a ciclos anteriores, para perceber como a Rússia consegue, muitas vezes, usar o frio a seu favor", avisa.

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