"A igreja católica é o lugar perfeito para pedófilos e pouco mudou"
Mitchell Garabedian

"A igreja católica é o lugar perfeito para pedófilos e pouco mudou"

As palavras são de um advogado norte-americano que desde 1994 representa vítimas dos abusos praticados dentro da igreja. A TSF falou com Mitchell Garabedian.

Mitchell Garabedian defendeu, e ainda defende, mais de dois mil e quinhentos sobreviventes, como gosta de lhes chamar. Ele fala nos padres como criminosos comuns que se protegem por baixo das batinas e do poder da igreja.

O advogado de Boston defendeu 86 sobreviventes do padre John J. Geoghan que, depois de várias décadas, protegido pela hierarquia da igreja, foi expulso em 1998. Três anos mais tarde Geoghan acabou por ser condenado a nove anos de cadeia. Foi este caso que começou a expor o escândalo de abusos e encobrimentos que se estenderam até ao Vaticano.

À conversa com a TSF, Garabedian disse acreditar que apesar de todo o repúdio pouco mudou. "O abuso sexual continua, a igreja não mudou a maneira de atuar. Por exemplo, o papa Francisco e o Vaticano não adotaram qualquer medida significativa. Não se pode esperar que uma entidade que durante décadas permitiu o abuso de crianças se auto policie de forma adequada ou entenda as consequências de tudo. Como a história nos conta a igreja católica está mais interessada em dinheiro do que em proteger as crianças. A igreja tem agido de uma forma perversa e sem coração."

Mitchell Garabedian lidou de muito perto com os traumas provocados a milhares de pessoas e por isso tem dificuldade em lidar com o Vaticano. Ele defende que os pedidos de desculpa do Papa Francisco são vazios, não têm qualquer significado. "O papa, como alta figura na igreja católica durante décadas tinha conhecimento dos abusos sexuais e não fez nada acerca disso. O que faz agora é tentar limpar a imagem da igreja. Temos aquela que é apresentada como a instituição mais moral do mundo a agir como a mais imoral."

O advogado norte-americano que continua a defender as vítimas garante que a vida da maioria das pessoas foi destruída e a fé ficou profundamente afetada. Ele explica que "às crianças é ensinado que os padres são a voz de deus na terra. Quando são abusadas sexualmente e não gostam culpam-se a elas próprias e acham que deus as vai punir. Quando uma vítima faz queixa, mas não é ouvida, ou nada é feito, há uma nova vitimização. Elas sentem-se ainda mais sozinhas, mais estranhas e mais alienadas. Muitas vezes os sobreviventes sentem-se sem esperança. Quando são de novo vitimizados os traumas que sofreram agravam-se. Para eles é uma dor para toda a vida."

Garabedian diz que a maioria das vítimas tem dificuldades em confiar nas pessoas, em gerir a raiva, tem pouca autoestima, não se respeita. Há ainda quem sofra de problemas sexuais e de abuso de substâncias. Muitos dos sobreviventes já não acreditam em Deus e há muitos suicídios.

O advogado diz que os abusadores se esconderam atrás da igreja e, nos Estados Unidos, a igreja tentou proteger-se atrás da constituição. Em todos os processos a igreja evocou a 1.ª emenda que estabelece a liberdade religiosa. Uma estratégia que, segundo Garabedian, já não está a resultar. "Nos Estados Unidos qualquer pessoa pode adorar o que quiser. Por exemplo, podemos acreditar que deus é um lápis e adorar esse objeto. Ninguém pode interferir com essa liberdade religiosa. Só que nos últimos anos os tribunais estão a dizer que a primeira emenda não protege a igreja em relação a condutas erradas. Antes disso não se podia investigar as ações menos apropriadas da igreja católica".

Na conversa com a TSF, Mitchell Garabedian revelou ainda que não acredita nos números que vão sendo divulgados pelo mundo. Em França, este mês, a divulgação de um relatório independente apontava para a existência de 200 mil vítimas às mãos de mais de 2 mil padres. A primeira reação do advogado foi dizer que as crianças atingidas são muitas mais e explica que, pela experiência que tem, há muitas vítimas que se suicidaram e as comissões não têm conhecimento delas. Há também muitos sobreviventes que vão negar terem sido abusados até criarem os mecanismos que lhes permitam admitir perante outras pessoas que foram sexualmente molestados.

Muitas vezes as vítimas demoram décadas até conseguirem admitir o que se passou. Mitchell Garabedian pede por isso que as leis de prescrição sejam alteradas para permitir que mais crimes sejam levados perante a justiça. "Os prazos de prescrição têm de ser alterados em todo o mundo. Isso vai dar às vítimas mais tempo para denunciarem os abusos sexuais. Os sobreviventes normalmente não o fazem antes de serem mais velhos, até terem mais de 45 anos e em muitos sítios isso é muito tarde para fazer uma acusação. Há alguns países onde os prazos já foram alargados e isso é uma esperança para os sobreviventes se sentirem validados, aumentarem a autoestima e sentirem que os abusos não foram culpa deles."

Marie Collins, uma sobrevivente

A irlandesa Marie Collins tem também a opinião de que pouco mudou na forma de atuar da igreja católica. Ela foi uma vítima e tornou-se depois membro da comissão criada pelo papa Francisco para lidar com o problema.

Collins foi contactada pela TSF, mas não quis ser gravada. Por escrito ela explicou que abandonou a comissão em 2017 porque muitos dos que a integravam estavam mais preocupados com a política interna do Vaticano, com guerras de poder e com as tradições. Segundo ela tudo isso minou o trabalho para se conseguir uma mudança positiva.

Marie Collins lembra que a Igreja Católica ainda não tornou obrigatória a denúncia às autoridades civis dos casos de abuso sexual e continuam a ser os bispos a lidar com essas situações.

Esta irlandesa defende a necessidade de uma mudança muito mais radical na estrutura e política do Vaticano, mas acrescenta que a igreja está relutante em fazer o que é necessário.

O caso John J. Geoghan

John J. Geoghan era um violador em série e padre católico na arquidiocese de Boston, no Massachusetts. Foi ordenado em 1962 e logo na primeira paróquia onde esteve surgiram rumores de que levava rapazes para os aposentos privados.

Entre 1962 e 68 mudou quatro vezes de paróquia sem justificação oficial. Em 1968 um homem queixou-se às autoridades eclesiásticas dizendo que tinha apanhado John Geoghan a molestar o filho. Isso fez com que o padre fosse enviado para um instituto em Baltimore para receber tratamento "contra a pedofilia."

Mesmo depois de saberem o que se passava Geoghan continuou a ser colocado em contacto com crianças. No início da década de 70 Joanne Mueller acusou o padre de abusar dos 4 filhos. A mãe diz que a pessoa a quem denunciou o crime lhe disse para estar quieta. Mais tarde a igreja católica chegou a acordo com Mueller e o caso desapareceu.

Já nos anos 80 Geoghan repetiu os abusos e foi enviado para fazer psicanálise e psicoterapia com outros religiosos. Quando estes lhe deram alta, regressou ao ativo noutra paróquia. Em 1984 e perante novas denúncias, o arcebispo de Boston, o cardeal Bernard Law mudou-o para outro local onde ficou responsável por três grupos de crianças e jovens.

Em 1989 a igreja pediu pela primeira vez ao padre para abandonar o sacerdócio. Nessa altura o cardeal Law enviou-lhe uma carta dizendo "a sua vida de ministério tem sido eficaz, mas tristemente prejudicada por doenças (sempre que mudava de paróquia ou era enviado para tratamento os registos mostravam que estava de baixa). Deus te abençoe, Jack."

Só muitos anos mais tarde, e muitas denúncias depois, o papa João Paulo II decidiu expulsá-lo da igreja. Em 1999 ele foi pela primeira vez acusado na justiça e acabou condenado a 9 anos de prisão.

Ao todo Geoghan foi acusado de ter abusado de mais de 130 rapazes ao longo de três décadas.

Terminado o julgamento, em 2002, o antigo padre foi enviado para uma prisão de segurança máxima onde um ano depois foi morto na cela por outro detido que cumpria prisão perpétua por ter morto um homem que alegadamente o tentou atrair sexualmente.

Geoghan tornou-se um símbolo de tudo o que a igreja fez de errado ao lidar com esse problema quando, a 6 de janeiro de 2002, o The Boston Globe divulgou a história sobre como o arcebispo de Boston, tinha transferido Geoghan de uma paróquia para outra durante anos. O artigo também discutia o acordo de 10 milhões de dólares que a igreja fez com as famílias das vítimas. Depois de o artigo ter sido publicado, um envergonhado Bernard Law pediu desculpa e entregou às autoridades os nomes de dezenas de padres de Boston envolvidos em abusos.

Em 2002 o cardeal Law demitiu-se do cargo de arcebispo de Boston e foi enviado para Roma. Ele tinha perdido o apoio do resto do clero após ficar demonstrado que permitiu que os abusos continuassem.

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