A maré (da luta pelo clima e oceanos) está a mudar

Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da ONU para as questões dos Oceanos, destaca "boas notícias" para o ambiente.

Com a eleição de Joe Biden e o regresso dos Estados Unidos aos Acordos de Paris, a maré está a mudar. Quem o diz é o embaixador Peter Thomson, enviado especial do secretário-geral da ONU, António Guterres, para as questões dos Oceanos:

"Tem havido uma mudança na maré internacional, se quisermos colocar a questão num sentido oceânico. Tivemos algumas notícias muito positivas recentemente", aponta Peter Thomson em declarações à TSF, destacando o compromisso do presidente da China, Xi Jinping, para emissões Zero no país a partir de 2060; o Pacto Ecológico da União Europeia; a eleição de Joe Biden nos Estados Unidos e consequente regresso do país aos Acordos de Paris. "Tudo boas notícias".

Para o diplomata, natural das Ilhas Fiji, que nasceu junto à água e passou a infância e juventude a fazer viagens de barco com os pais, "a vida sempre foi muito ligada ao Oceano. Tem lados positivos e lados negativos. Mas uma coisa é certa: há muito tempo que percebi que a saúde dos oceanos estava em perigo. Desde logo pela poluição dos plásticos: comecei desde logo a perceber quando o lixo de plástico, desde sacos a isqueiros de plástico começaram a dar à costa. Era eu ainda um miúdo de escola primária. Foi aí que tive a minha introdução à Humanidade. E mesmo para a mente de uma criança de escola, o descarregamento de material indestrutível parecia óbvio que era algo que seria problemático para nós no futuro". Thomson recorda-se do tempo, pouco depois, em que ao caminhar na praia começou a ver o plástico formar uma espécie de linha de costa, "quando antes não havia nenhum".

"Quando vives numa ilha, o oceano é o teu recreio para brincar. Ia para o recife fazer mergulho todos os fins de semana, era o que mais nos dava uma ideia da alegria de viver neste planeta. Quando nos meus vinte anos, regressei ao mesmo local para mergulhar e vi o recife morto, foi como ver uma cidade bombardeada e completamente arrasada. Muito problemático. Ou seja, desde muito cedo fiquei consciente dos problemas dos oceanos e desde que cheguei a Nova Iorque, às Nações Unidas, juntamente com outros embaixadores das pequenas ilhas e de países como Portugal, tenho lutado para travar o declínio da saúde dos oceanos". As Fiji já tiveram este ano "dois grandes ciclones" e o representante especial de Guterres constata que "podemos aqui ver prova evidente das alterações climáticas", com os fenómenos extremos a aumentarem exponencialmente a sua frequência. Mas não é só no Pacífico Sul. Thomson aponta os casos das Caraíbas, sul dos Estados Unidos, África. Ou "os fogos incontroláveis na Austrália e na Califórnia; facilmente começamos a ver que as previsões da ciência sobre o que iria acontecer ao clima já estão aqui connosco".

Peter Thompson encerra esta terça-feira a conferência online do Clube de Lisboa "O Oceano que pertence a todos" e afirma que o maior desafio atual é a luta contra a emissão de gases com origem em combustíveis fósseis:

"Os gases antropogénicos com efeito de estufa são o maior inimigo não só da mudança climática como também das leis da biodiversidade, e do declínio da saúde dos oceanos. Sabemos que a saúde dos oceanos está em declínio, a desoxigenação está a aumentar, tal como o aquecimento dos oceanos, o que leva à morte dos corais e à subida do nível dos mares. Tudo isto, em primeira instância, está ligado aos níveis de gases antropogénicos com efeito de estufa que atiramos para a atmosfera".

O veterano diplomata com uma vida dedicada à proteção dos oceanos, na entrevista à TSF, destaca também a importância da luta contra os apoios estatais à pesca ilegal, algo que considera não ser "um assunto menor". Para Thomson, "o objetivo de desenvolvimento sustentável 14, que é um objetivo universalmente acordado pelos membros das Nações Unidas em 2015, define a conservação e o uso sustentável dos recursos do oceano. Dentro disso, há dez metas e uma das metas diz respeito à pesca ilegal e às práticas pesqueiras danosas, apelando ao seu fim. Há outra meta que diz respeito aos subsídios à indústria pesqueira. Não são assuntos pequenos, estamos a falar de dinheiro público, que é colocado sob a forma de subsídios, em frotas pesqueiras industriais, que vão perseguir espécie em diminuição ou extinção de peixe selvagem. É um facto científico. Sabemos que há vinte mil milhões de dólares de peixe ilegal a ser apanhado todos os anos. Há muito trabalho a fazer, desde as cadeias de abastecimento ao consumidor individual, que devia rejeitar a ideia de estar a roubar o oceano através da pesca ilegal e de métodos pesqueiros nocivos".

Escolhido pelo português António Guterres, subscreve as palavras do seu secretário-geral de que "o mundo está em guerra com a natureza e tem de fazer a paz". Peter Thomson recorda à TSF que teve "o privilégio", enquanto presidente da Assembleia-Geral, de fazer o juramento dele como Secretário-Geral, algo que me orgulha muito. Ele tem tido anos difíceis lá, com o principal país contribuinte, pelas posições e atitudes que tomaram, mas com a chegada do presidente Biden, penso que isso são coisas do passado". E conclui: "trabalhar com António Guterres tem sido dos maiores prazeres da minha vida. Ele tem uma compreensão maravilhosa da história humana, e gosto sobretudo quando ele põe as notas de lado e fala com o coração. Tem um sentido excelente de onde viemos, onde estamos e para onde precisamos de ir para o futuro das gerações futuras". Peter Thomson não tem dúvidas de que António Guterres será reeleito.

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