"A política mundial parece um circo porque nas democracias lavamos a roupa suja em público"
Fareed Zakaria​​​​​​​

"A política mundial parece um circo porque nas democracias lavamos a roupa suja em público"

É uma estrela da televisão global, apresentando na CNN o programa GPS (em Portugal na RTP3). Fareed Zakaria é um escritor e jornalista norte-americano especializado em relações políticas internacionais. Tem uma coluna na revista Newsweek, escreve frequentemente no Washington Post. É também o apresentador de um programa televisivo informativo semanal chamado Foreign Exchange na PBS e é ainda analista para a televisão ABC.

Convidado-estrela das Conferências do Estoril, a TSF perguntou-lhe se é possível analisar política mundial todas as semanas sem ficar deprimido:

"Pois, digo-lhe uma coisa: a política mundial parece um circo. E um circo mau. Temos o circo do Donald Trump, o caos do Brexit, o caos dos coletes amarelos em França, temos um ator de comédia acabo de ser eleito na Ucrânia, temos uma espécie de comediante em Itália... é um caos louco". Mas o jornalista de origem indiana com doutoramento em ciência política em Harvard (onde foi professor de relações internacionais e filosofia política) introduz notas de otimismo no seu discurso: "Se pensarmos em termos de paz e prosperidade, as coisas estão bastante bem. O mundo está estável. Na maior parte do mundo, a economia está a comportar-se bastante bem. Nos Estados Unidos muito bem: o desemprego está num recorde negativo de 50 anos, temos 3,6 de desemprego; mas o mesmo acontece no Canadá, Japão, Alemanha, Reino Unido, muitas partes do norte da Europa, sabemos que a Espanha e a Grécia têm dificuldades, como sabe Portugal também está, aliás, em muito boa forma. Portanto, a realidade para uma pessoa média, estamos a ver este drama da política mas debaixo da superfície a economia está razoavelmente bem, o emprego também, a tecnologia está a proporcionar enormes benefícios às pessoas".

O Espasmo cultural e o Portugal democrático

Zakaria pensa que "aquilo por que estamos a passar é uma espécie de espasmo cultural, uma ansiedade decorrente de um mundo em mudança. O mundo mudou bastante nos últimos trinta anos". E dá o exemplo de uma família típica portuguesa, de classe média: "há 45 anos vivia com Salazar numa ditadura num país estável mas pobre, era classe média-baixa. O sistema familiar era muito hierárquico, o pai era o rei, muito poucos imigrantes vinham para cá e veja como esse mundo mudou. É agora uma democracia aberta e vibrante. As mulheres trabalham e asseguram a igualdade, muita gente procura o pais para vir para cá trabalhar ou fazer turismo, toda a gente a pedir uma fatia do bolo! É um grande choque para o sistema, é natural que haja reações. Na minha opinião, a democracia liberal sempre parece mal porque lavamos a nossa roupa suja em público. Mas a verdade é que ao lidarmos com todos estes problemas - e ainda que haja alguns ajustamentos na questão da imigração - a realidade é que todas as mudanças que eu descrevi são muito boas. A libertação das mulheres foi um extraordinário, poderoso e profundo progresso; permitir que pessoas de todas as origens pudessem trabalhar e participar é também um profundo progresso; a abertura da economia a diferentes ideias, países e culturas, tudo isto é bom. Há, pois, muitas boas notícias mas temos de entender que isto não é fácil. São tudo coisas pelas quais temos de lutar".

Diz-me tu espelho meu, quem manda nos EUA mais do que eu? Trump ou Steve Bannon? Quem é mais poderoso?

"Trump é sem dúvida, a pessoa mais poderosa dos Estados Unidos, pelo seu cargo, não que ele em si seja um homem poderoso. Mas convém que o resto do mundo lembre como as instituições americanas têm funcionado bem. Ele é poderoso, mas o Congresso também é poderoso e pode escrutinar o poder presidencial, os tribunais têm sido poderosos e rejeitado muitas das suas políticas, o povo americano teve imenso autoridade nas eleições intercalares de novembro, votando maioritariamente pelos democratas, por isso penso que o melhor do sistema americano é que há realmente pesos & contrapesos, funcionam de verdade, há imensos constrangimentos à atuação de Donald Trump. É o contraste enorme que se pode ver quando se compara com um país como a Turquia, onde há um presidente com imenso poder como Erdogan que paulatinamente se tornou num ditador eleito. Uma coisa dessas não acontece nos Estados Unidos".

Bannon, o leninista da revolução populista

Quanto a Bannon, Zakaria está longe de menosprezar o ideólogo de Trump é um dos mentores do movimento radical de direita alt-right, nos Estados Unidos: "É preciso ver que Trump atua com base no instinto e intuição, ele não é um pensador. Bannon funciona então como o operador ideológico. É o leninista desta revolução. Não lhe chamaria Lenine porque não tem esse poder, mas é o ideólogo leninista. Ele percebe como apresentar os argumentos, como fazer os apelos, e, o mais importante, entende que o Santo Graal para o movimento populista é unir o populismo de direita ao populismo de esquerda. Se repararem no que está a fazer, está a tentar captar parte das pessoas que votaram por Bernie Sanders, para votar em Donald Trump. É por isso que vai para Itália, que representa o único país na Europa onde até agora esses dois populismos se juntaram, criando uma maioria. Na imaginação de Bannon, se conseguires juntar a gente de Le Pen à gente de Melenchon, ambos desprezam o sistema, ele tenta encontrar elementos comuns, então encontrará uma força de maioria para os próximos cinquenta anos. Nesse sentido, acho que ele tem enorme profundidade intelectual e poder porque tem ideias e são necessárias ideias para mobilizar as pessoas. Ele tem as ideias, não sei se é a segunda pessoa mais poderosa do país, mas tem mais poder do que as pessoas imaginam, porque tem o poder das ideias".

China, o grande desafio

O apresentador do prestigiado "GPS Fareed Zakaria" considera que o grande desafio para os Estados Unidos nos próximos vinte anos é como lidar com a ascensão da China ao sistema internacional e "como navegar num mundo onde a América não vai ser o ator completamente dominante, como tem acontecido há mais de cem anos. Tornaram-se de longe a maior economia do mundo, desde 1882. É quase certo que nos próximos dez a quinze anos, a China tornar-se-á maior economia do mundo. Em alguns aspetos até já é, mas são aspetos menos relevantes. Mas nas coisas mais importantes vai ser daqui a dez ou quinze anos. E vai ser o maior mercado do mundo para todo e qualquer produto: comércio, computador, componentes, filmes. Isto para a América é quase uma coisa de psicologia de massas: como reagir a essa ideia de que a América não é o futuro e o futuro está a ser inventado noutro sítio? O tamanho e escala do mundo está a ser moldado noutro país... e eu creio que, nem ao nível dos agentes políticos americanos, nem ao nível da população, nós ainda não tomámos consciência dessa realidade".

"A Coreia do Norte não vai desistir das suas armas nucleares"

Muito crítico da atuação do atual inquilino da Casa Branca, na entrevista à TSF, acaba por ser mais benevolente com Trump quando o assunto é a tentativa de diálogo sobre o arsenal nuclear de Pyongyang: "Quanto à Coreia do Norte, eu atacaria Donald Trump menos do que noutros assuntos. No geral, é verdade que ele se está a isolar dos seus aliados e não confia particularmente nos aliados democráticos. Tem muita dificuldade em entender-se com Angela Merkel, Macron e Justin Trudeau. Mas, por alguma razão, é-lhe mais fácil lidar com Putin e Kim Jong-un. É a sua mentalidade para mostrar que tem força. Mas na Coreia do Norte, nada do que outros tenham tentado, resultou. Por isso não acho que seja mau Donald Trump tentar algo diferente, que é o que está a tentar fazer. Eu próprio tenho sido sempre muito cético de que podemos convencer a Coreia do Norte a desistir das suas armas nucleares. Este é um regime que conseguiu sobreviver a tudo. Pense que este é um regime que vem do pai para o filho para o neto nos últimos setenta e cinco anos. Neste período, a União Soviética colapsou, a China comunista transformou-se completamente, a Europa de leste libertou-se, Saddam Hussein foi derrubado, Hosni Mubarak também, todos esses regimes caíram e há um que passou de pai para o filho e para o neto. É porque são muito bons em termos de sobrevivência do regime. A chave para esta sobrevivência eles entendem bem: é o facto de terem armas nucleares. Não podem ser atacados, têm essa capacidade de dissuasão, será que vão desistir de tudo por causa de uma promessa dos Estados Unidos de que vão fazer comércio com eles ou abrir relações com eles? Eles viram o que aconteceu ao Gadafi na Líbia. Desistiu das armas nucleares e foi o fim dele. Por isso eu suspeito que o problema não seja Trump. A única coisa é o facto de ele não perceber quão profunda é esta questão nuclear para os norte-coreanos. Isso para mim significa que devemos trabalhar de forma muito mais criativa, para encontrar uma forma de lidar com o problema, mais do que eliminá-lo. Eles não vão desistir das armas; então, o que é que podemos fazer para lhes colocar constrangimentos, fiscalizações, sistemas de prevenção, medidas de construção de confiança, para que se torne menos perigoso. Num certo sentido, pensemos na Guerra Fria durante os anos cinquenta, era muito perigoso porque os Estados Unidos e os soviéticos tinham adquirido há pouco a capacidade nuclear, não tinham contactos uns com os outros, havia imensas possibilidades de acidentes e erros de cálculo; por isso tudo conseguimos o controlo de armamento e a linha vermelha entre Moscovo e Washington. Precisamos de pensar nestes termos, na forma como tornar tudo mais seguro, mais do que tentar que os norte-coreanos desistam de todas as suas armas nucleares. Porque não o vão fazer!"

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