"À Rússia quer mostrar que a Ucrânia não é um país independente bem sucedido"

Os ucranianos tentam defender a soberania do país. Anos depois do movimento EuroMaidan em Kiev, Sasha Romantsova foi a Estrasburgo receber o Prémio Sakharov atribuído ao cineasta Oleg Semtsov, em 2018.

Oleg Semtsov é um cineasta e escritor ucraniano, natural da Crimeia, conhecido pelo filme Gamer, de 2011. Após a anexação da Crimeia pela Federação Russa foi preso e condenado a vinte anos de prisão por um tribunal russo, sob a acusação de conspirar atos terroristas Em Maio de 2018 entrou em greve de fome em protesto contra a prisão de 65 presos políticos ucranianos na Rússia. Em dezembro desse ano, o Parlamento Europeu atribuiu-lhe o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento e apelou à libertação imediata de Oleg Sentsov. O cineasta continua preso no norte da Rússia. Quem foi a Estrasburgo receber o Prémio Sakharov, na altura, foi Sasha Romantsova, diretora do Centro para as Liberdades Cívicas, organização não-governamental ucraniana de defesa dos direitos humanos que luta pela libertação do que considera serem presos políticos na Federação Russa. Sasha Romantsova fez há alguns anos parte da organização dos protestos da praça Maidan, que levaram à queda do então presidente ucraniano Viktor Yanukovitch.

Que tipo de pessoas, em termos de perfil profissional, trabalha com o Centro para as Liberdades Civis (Center for Civil Liberties)?

A nossa ONG é uma das mais antigas aqui na Ucrânia, começámos em 2007. Temos um grande número de voluntários que querem trabalhar connosco. Alguns são estudantes mas é gente muito diversa. Atualmente, temos 13 pessoas, quatro delas são administrativas, eu tenho três áreas: economia internacional, gestão de projetos e mediação e gestão de conflitos. A presidente da nossa administração, Oleksandra Matviychuk, é advogada. A nossa fundraiser é bióloga de formação e temos mais um advogado e três jornalistas. O que fazemos é, principalmente, gestão de projetos. Mas estas são pessoas que mudaram sua vida profissional por causa da Euromaidan ou porque esta área está relacionada com sua esfera de educação, por exemplo, professores da Faculdade de História, começaram a interessar-se por causa da nova história da Ucrânia.

Algumas pessoas afirmam que na época, muitos dos movimentos que foram para as ruas em Kiev estavam, de alguma forma, impregnados de ideologia de extrema-direita...

Sim claro. De um lado, havia certamente uma ideia nacionalista aqui, porque estávamos a tentar separar-nos da URSS, sabe, aqui ainda é realmente tudo muito sobre independência, mais do que qualquer coisa. Claro que é difícil falar em algo do género, a Ucrânia para os ucranianos. Em primeiro lugar, a maioria das pessoas não tem a certeza a qual etnia exatamente pertence, não é uma questão ideológica. Aqui, não há problemas para gente de outra cor de pele ou outra religião.

Ou até mesmo falar em russo nas ruas normalmente...

Sim, isso não é um problema. Por exemplo, na minha família. Eu sou do sul da Ucrânia, então minha língua de família é o russo. Por exemplo, só agora temos filmes ucranianos. É tudo principalmente russo, é um mercado maior. Sobre literatura, sobre filmes, sobre tudo e mais alguma coisa, eles vêm para o nosso mercado, então é muito difícil ter formatos em ucraniano. Mas sim, por outro lado, temos aqui organizações de direita realmente radicais, que são pequenas, a maioria agora tenta captar gente realmente jovem, miúdos da escola ou algo assim, descrevem a ideologia nacionalista como romântica, e e tentam usar a raiva dos jovens. Mas, principalmente, eles fazem isso com dinheiro. Onde vão buscar esse dinheiro, deveria ser a questão. Então, na maioria das vezes, entendemos que eles são financiados pela Federação Russa, porque os russos estão realmente interessados ​​nisso. As organizações de extrema-direita dão-lhes a possibilidade de provocar aqui intranquilidade, de instigar mais radicalismo, mostrando que a Ucrânia não é um país independente de sucesso. Mas, a verdade é que a nossa eleição em 2019 mostrou que tais partidos não têm qualquer expressão: apenas um deles foi registado na eleição. Então, talvez, isso seja 0,01% ou algo assim. É uma ideia realmente impopular, tal como as organizações radicais de esquerda. Não é popular aqui porque temos uma história de comunismo.

Desde Maidan e a queda de Yanukovych, pensa que as pessoas entendem melhor que podem desempenhar um papel ativo na sociedade?

É realmente uma questão importante tentar compreender por que motivos as pessoas fizeram a Euromaidan. Foi por causa dos valores europeus? Na verdade, a maioria das pessoas veio para Maidan em dezembro porque estudantes foram espancados a 30 de novembro. A motivação política foi o segundo ponto no nosso top de preferências, digamos assim (risos). Mas o primeiro foi mesmo o facto de as crianças estarem a ser espancadas aqui. Os ucranianos não são exatamente uma nação com uma cultura democrática, mas as liberdades fundamentais são realmente importantes para os ucranianos. E penso que depois dos tempos de Maidan, um maior número de ucranianos que tiveram sucesso nos seus negócios ou em alguma organização regional, chegaram ao nível nacional. Não digo que se tenham tornado políticos mais profissionais, mas é uma nova geração com novas ideias e mentalidade. Também não digo que essa mentalidade seja sistematicamente democrática, mas já não é mais a geração com a cultura do partido comunista da época soviética. Trinta anos depois da independência, temos pessoas com novas mentalidades. As zonas centro e norte e oeste da Ucrânia, a partir dos anos 90, tiveram mais liberdade para criar pequenos negócios, já tinham mais experiência nisso. O Sul e o Leste eram mais industriais durante a era soviética da economia, estavam mais ligados à Rússia.

A democracia ucraniana hoje é aquilo que esperava quando veio para as ruas em 2014?

Pelo sentimento de responsabilidade, sim. Mas para mim, esse patamar que temos agora não é suficiente para termos mais democracia e mais responsabilidade para organizar a nossa vida. Um grande número de pessoas ainda pensa muito pequeno e acham tudo grande no tempo soviético com pessoas a dizerem-me o que preciso fazer para ter o meu apartamento quentinho e um trabalho não muito interessante. Mas, de qualquer modo, agora temos partidos que não são os partidos que defendem o leste ou o sul, o norte ou o ocidente ou a Ucrânia central, mas sim partidos que veem que numa Ucrânia independente as pessoas devem assumir as suas responsabilidades, organizar da melhor forma possível o seu talento e o seu trabalho, para desempenhar as suas tarefas e enfrentar os desafios que temos pela frente. Mas também ainda há pessoas que sonham com um regresso aos tempos da União Soviética, mesmo em Kiev ou Lviv (ocidente, fronteira com a Polónia), prefeririam viver num sistema em que alguém decide tudo por nós. E não são apenas as pessoas mais velhas, porque essas até sabem o que era viver na URSS. Mas é sobretudo gente que perdeu alguma coisa nos anos noventa, gente que perdeu posição social, ficaram desorientadas e traumatizadas. Têm medo da mudança, preferem algo mais estável. Eu diria que podemos falar de 50 a 60% da população na geração entre 40 e 60 anos de idade. Mas a maioria dos jovens quer a nossa independência, diria que apenas uns 15% sonham com a União Soviética, não há caminho para isso.

Qual é o nível de respeito pelos direitos humanos no país, hoje em dia?

Nós fazemos essa monitorização, temos questionários, fazemos isso a cada dois anos, perguntamos "o que significa direitos humanos para si". O que exatamente são os direitos mais importantes. A liberdade de expressão é o mais popular. Se alguém tenta calar a boca aos ucranianos, eles vão começar uma grande luta porque Liberdade para os ucranianos realmente significa muito, não ser preso também é muito importante.

Até que ponto a guerra no leste do país está a afetar a vida em Kiev, Lviv e noutras partes da Ucrânia?

Muito, eu penso. Por um lado, temos as famílias. Há sempre alguém que tem um familiar que foi mobilizado para o leste da Ucrânia ou que agora está lá, mas no quotidiano, por exemplo em Kiev, não se ouve falar de um único tiroteio lá e a minha área profissional até me dá esse tipo de informação. Mas as pessoas como que já não ligam, passou a fazer parte da vida.

Os média não falam muito sobre o que lá se passa?

Sim, todos os dias mas são notícias breves. E é tudo. E porque com o COVID, anda tudo à volta desse tema. Mas claro, a guerra ainda é um grande problema para as pessoas que precisam cruzar a linha da frente no Donbass ou a fronteira administrativa como a Rússia diz, para ir à Crimeia. Mas, de facto, passou para o segundo nível de problemas por causa do COVID.

Como é que está a situação na Crimeia anexada?

A Federação Russa começou exatamente a ser um grande problema na região, mas com a Crimeia é duplamente problemático, porque nós trabalhamos muito com organizações de direitos humanos da Rússia, e, por exemplo, o Medusa é um jornal online realmente popular na Rússia, ou o centro Sakharov para os Direitos Humanos de Moscovo, todas têm uma grande história em matéria de defesa dos direitos humanos e todos eles começaram a ser considerados, à luz da nova legislação, agentes estrangeiros. Começaram a ter problemas financeiros e de recolha de fundos, então tentamos apoiá-los porque, por exemplo, no território da Crimeia, ninguém da organização ucraniana de direitos humanos pode trabalhar, porque ninguém, antes de mais nada, dá autorização. E, em segundo lugar, é muito perigoso. Há uma organização que teve de fugir de lá. Agora, mesmo sendo da Crimeia, trabalham em Kiev. Em todo o território controlado pela Rússia, e também na Crimeia, as pessoas sentem a pressão, os defensores dos direitos humanos, o verdadeiro ativista, os jornalistas livres, todos sentem a pressão do governo de Putin. Na Crimeia, sente-se que essa pressão é duas vezes maior. Um ativista tártaro da Crimeia, com uma câmara, mostrou que todos os dias às cinco da tarde, numa aldeia da Crimeia, os polícias chegam e fazem buscas às casas, prendem os homens e levam-nos para a prisão. Temos atualmente mais de 100 casos diferentes de perseguição política, só porque a Federação Russa decidiu que eles são terroristas, mas ninguém lhes dá a possibilidade de terem um processo normal, com advogados, como acontece normalmente processo judicial. Mas a Amnistia Internacional revela casos de defensores dos direitos humanos que foram presos ou casos como o da Marlena, que aqui organizava serviço infantil de ajuda gratuita para as crianças cujos pais foram presos. Então, ela foi presa por causa disso. Toda esta situação na Crimeia é um problema muito grande, porque mesmo para um advogado que queira ajudar e assumir estes casos, ele vai sentir a pressão, a sua família vai ser pressionada, a Federação Russa pode até retirar-lhe a licença para exercer. De modo que, para nós, Donbass e Crimeia são lugares com uma grande zona vermelha, onde nunca podemos estar certos de nada.

(Entrevista feita com o apoio do Parlamento Europeu em Portugal)

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