Michael Berk
Entrevista com Michael Berk

"A saúde mental é a melhor aposta financeira. Se conseguirmos fazer melhorias, o PIB pode aumentar muito"

Considerado uma das mentes científicas mais influentes a nível mundial pela Thompson Reuters, o australiano Michael Berk recebeu, em 2019, o Victoria Prize de Ciência e Inovação pela abordagem diferenciada para tratar a esquizofrenia, a depressão e a doença bipolar. O diretor do Deakin University"s Institute for Mental and Physical Health and Clinical Translation é o psiquiatra e neurocientista mais citado na Austrália, pela sua aposta no tratamento como estratégia de combate ao suicídio. Michael Berk esteve à conversa com a TSF, após participar na conferência "Affect, Personality and Embodied Brain - APE2021", organizada em conjunto com o APE Research Group da Nottingham Trent University, do Reino Unido, e do grupo HNL da Universidade Católica Portuguesa no Porto. O peso da saúde mental na economia mundial, a importância do investimento no cuidado da mente e a influência da sociedade moderna nas doenças de foro psiquiátrico foram alguns dos temas abordados.

Tem uma visão diferente do que deve ser o tratamento para doenças como a esquizofrenia, a bipolaridade e a depressão. A medicação é controversa, existe alguma rejeição, mas continua a ser uma necessidade? Não há terapia que a substitua completamente?

Muitas doenças psiquiátricas influenciam a forma como as pessoas pensam e a forma como as pessoas se comportam, e causa-lhes um sofrimento considerável, bem como às suas famílias. No contexto da doença mental, algumas pessoas iniciam comportamentos que de outra forma não começariam. Muitas doenças, particularmente psicoses e algumas manias, estão associadas a comportamentos que vão contra o caráter do indivíduo e que colocam as pessoas ao seu redor em risco. A ideia do tratamento é reduzir o sofrimento associado a estas doenças e minimizar o risco de comportamentos disruptivos. A medicação diminui os riscos, porque atenua os sintomas que afetam a sua capacidade de decisão.

A depressão é uma condição que implica muito sofrimento humano, e as maiores alterações no comportamento são o isolamento social, a desmotivação e desesperança. O maior risco para as pessoas, neste caso, é o suicídio. Qualquer terapia que melhore a depressão e que remova a dor e o sofrimento tem o potencial de reduzir muito o risco de suicídio. Os antidepressivos podem conseguir fazê-lo. A medicação que reúne as melhores evidências científicas para a redução do risco de suicídio é o lítio, que é usado na doença bipolar. Há evidências fortes de que o lítio reduz o risco de suicídio.

Mas defende também que tem de haver uma solução combinada e que não vale a pena investir tudo na medicação...

Completamente. Hoje nós sabemos que o tratamento otimizado é uma combinação de psicoterapia, medicação e estilo de vida. O equilíbrio preciso varia, obviamente, de acordo com o indivíduo, com as circunstâncias das pessoas, as suas preferências e perfil clínico, mas, no caso da depressão, por exemplo, muitos profissionais começariam com terapias comportamentais e cognitivas e depois avançariam para antidepressivos. Isso é insuficiente. As diretrizes mais modernas, as diretrizes australianas e neozelandesas, que foram publicadas no ano passado, sugerem agora que o estilo de vida, particularmente uma melhoria na alimentação e na atividade física, tem um papel muito importante na diminuição do uso de substâncias e na melhoria do sono.

Nas psicoses e na doença bipolar, a maior parte das diretrizes encara a psicoterapia como essencial, assim como a medicação. Mas cada vez mais olhamos para o estilo de vida como uma abordagem que tem de ser integrada com as restantes. A dificuldade com a psicoterapia é que é muito dependente da relação individual da pessoa com o terapeuta, e muitos sistemas de saúde não têm capacidade de prover acompanhamento psicológico a uma grande quantidade de pessoas. Por isso, há muito interesse em psicoterapias na internet que fazem intervenções à escala em indivíduos com estas doenças e em cuidadores também.

Quais são os fatores de risco para a esquizofrenia, para a doença bipolar e para a depressão? Acredita que a sociedade amplificou esses fatores com a forma rápida e cheia de estímulos como vive?

Há muitos fatores de risco. Se olharmos para os estudos sobre fatores de risco para a depressão, vemos que há cerca de 40 a 50. Alguns têm uma influência muito significativa, outros nem tanto. O maior fator de risco é, provavelmente, a genética, menos para a depressão do que para a doença bipolar e esquizofrenia. Mas é um grande fator de risco. Para a depressão e para a ansiedade, o trauma na primeira infância, o abuso sexual e a negligência parental são grandes fatores de risco. A estrutura da personalidade, que é consequência do desenvolvimento, é um fator de risco. Dentro dos fatores de risco no estilo de vida, temos o tabagismo e o sedentarismo. O abuso de substâncias é um grande fator de risco, particularmente para psicoses. O conjunto de fatores varia muito de pessoa para pessoa. Um pequeno número de pessoas vai adoecer no contexto de muitos fatores de risco ambientais, e outras ficarão doentes com menos, até mínimos. É uma combinação muito mais complicada do que para o cancro do pulmão, por exemplo, em que um só fator, como o tabagismo, aumenta muito o risco dessa doença.

O que afeta tanto o desenvolvimento mental hoje? Estamos a expor-nos a situações com as quais não sabemos lidar porque geneticamente não estamos programados para isso?

Em alguns aspetos, a sociedade nunca foi tão segura. Não quereria estar vivo na Idade Média, foram tempos difíceis. Estamos mais livres da fome, do frio, temos abrigos, sistemas de saúde e transportes, muitas coisas que tornam as nossas vidas infinitamente mais fáceis. Mas o ritmo de vida é muito acelerado. Um problema grave é haver tanta pressão, sobretudo para os jovens. À medida que a sociedade se tornou mais ocidentalizada, foi ficando mais fragmentada. Sociedades mais tradicionais tendem a ter uma rede social mais rica e profunda. A vida moderna é muito mais insular e atómica, as pessoas vivem em grupos muito pequenos; muitas pessoas vivem isoladas. A internet é uma mistura muito complexa. As redes sociais expõem crianças a todo o tipo de influências.

O salto, há uma geração, da interação cara a cara para uma interação de internet privou as crianças de interações com significado que lhes ensinem competências sociais e resolução de problemas. É um impedimento à resiliência durante o desenvolvimento. Há algumas fontes de stress na sociedade moderna. Outra grande alteração na sociedade moderna é que as crianças têm acesso a alimentos a que nunca tinham tido acesso. A qualidade da dieta é bastante mais pobre. Pelo menos na Austrália - espero que seja melhor em Portugal -, o adolescente médio recebe 60% das calorias de comida altamente processada ou fast food. Esse é um fator de risco para problemas de saúde mental, bem como para doenças cardiovasculares e diabetes. Por isso, apesar de as sociedades ocidentais terem bastantes fatores que aumentam a qualidade de vida, há riscos que temos de gerir e que fazem parte de vivermos neste ambiente ocidentalizado e moderno.

Um estudo recente apontava que as pessoas que passam muito tempo nas redes sociais acabam por ficar "viciadas" na libertação de dopamina que essa atividade provoca, e que, depois, na vida real não conseguem encontrar. É um problema semelhante a outro qualquer vício? Faltam estudos para o comprovar?

Não há dúvidas de que a internet pode ser extremamente viciante. Diferentes ferramentas da internet são viciantes para pessoas diferentes. Algumas são viciadas no jogo online, outras são viciadas em pornografia. Algumas pessoas são viciadas nas redes sociais. Os videojogos são também um grande problema e facilmente relacionável com o isolamento. O vício na internet é um problema real. As redes sociais não são um problema unitário: permitem que uma vasta quantidade de informação seja partilhada muito rapidamente. Se queremos saber o que se passa e há um congestionamento no trânsito, quantos são os casos detetados nas últimas 24 horas ou as novas regras adotadas pelo Governo, encontraremos tudo isso no Twitter rapidamente. Mas, ao mesmo tempo, a repetição inerente às redes sociais e o facto de que qualquer pessoa pode emitir para toda a gente permitem que a desinformação se propague tão facilmente quanto a informação. Aliás, há evidências de que a desinformação se propague mais rapidamente, porque tende a ser mais picante.

A pornografia já muitas vezes foi referida como nociva para a forma como depois as pessoas expostas se relacionam nas suas vidas reais...

Há preocupações relevantes relativamente ao uso de pornografia, especialmente entre pessoas jovens, porque cria expectativas irrealistas de relações e atitudes disfuncionais no que diz respeito à intimidade.

A pandemia aumentou a dimensão dos problemas mentais?

A pandemia foi um fator poderoso. As pessoas que tinham um certo grau de resiliência social e económica, que tinham casas grandes e empregos seguros, puderam aceder a cuidados de saúde, à vacina, e puderam fazer o isolamento profilático de forma adequada. Muitos puderam trabalhar a partir de casa, sem um grande efeito disruptivo nas suas vidas. Mas, infelizmente, as pessoas mais carenciadas sofreram muito mais. Tiveram de continuar a trabalhar em ambientes com algum risco, os seus empregos tenderam a ser menos seguros, e as perdas de trabalho concentraram-se mais entre os mais desfavorecidos que vivem em áreas de maior densidade populacional e que mais facilmente poderiam ser contaminados com o vírus.

Nos locais onde os confinamentos foram particularmente severos - a Austrália é um deles -, muitas famílias tiveram dificuldade em conciliar o ensino das crianças em casa e o teletrabalho. É uma tarefa muito difícil e deixou muita gente sob enorme stress. Também foi bastante disruptivo na educação de muitas crianças. As crianças com mais possibilidades, que tinham acesso ao computador e a explicações, vão superá-lo muito melhor do que as que nem internet tinham. As suas trajetórias de formação foram severamente afetadas.

E depois temos o problema da Covid longa, que causou problemas significativos em muitas pessoas. Penso que ainda agora começámos a compreender o quão significativa é e os impactos que se farão sentir a longo prazo.

Teme o aumento dos suicídios ainda nesta fase?

O suicídio é uma das maiores catástrofes que emergem de doenças mentais não tratadas. A dimensão em que o suicídio pode ou não aumentar é muito debatida. Alguns dados apontam para que terá havido um aumento no suicídio, principalmente entre os jovens. Outros dados indicam que a curva da taxa de suicídios se manteve relativamente plana e que não se alterou assim tanto com a pandemia. O que é claro, pelo menos na nossa sociedade, é que a variação de sofrimento entre os jovens, da ansiedade, do stress e dos distúrbios alimentares foi muito grande, no contexto da pandemia. A procura por cuidados de saúde mental aumentou significativamente. A procura excede a oferta neste momento. Por isso, há uma grande preocupação relativamente aos impactos na saúde mental, tanto pela pandemia como pelas soluções apresentadas para a pandemia, como o isolamento social e confinamentos.

A solidão gerou outro tipo de problemas de saúde, além das doenças mentais...

A solidão é um grande fator de risco para problemas de saúde mental e também para as doenças físicas. É um grande fator de risco para doenças cardiovasculares. O isolamento social foi necessário como uma medida de defesa contra a pandemia, mas levou a custos significativamente altos em termos de sofrimento. Infelizmente, penso que as autoridades de saúde ficaram numa situação muito difícil, porque as soluções que eram necessárias comprometeram muitos aspetos da vida de muitas pessoas. Mais uma vez, as pessoas menos favorecidas tenderam a pagar um preço mais elevado.

Os problemas de saúde mental serão um grande problema para os governos enfrentarem nos próximos anos?

Muitas pessoas referem-se à saúde mental como a pandemia-sombra, porque os prejuízos na saúde mental foram substanciais, e os passos necessários para que os governos lidem com isso serão significativos. Foi exposto o problema da saúde mental. Os países têm diferentes realidades e também é diferente a forma como os problemas mentais afloram na consciência coletiva como um fator decisivo no momento das eleições.

Na Austrália, a saúde mental está numa posição elevada na agenda. É um problema coletivo que gera uma grande preocupação. Os políticos falam sobre isso, os grandes empresários falam sobre isso, é uma grande questão referida pela comunicação social. Há planos e promessas para atualizar e melhorar o sistema de saúde mental, por isso o Governo está a falar sobre investir e desenvolver este aspeto. Ainda estamos para ver quais serão os resultados disso, mas pelo menos, na Austrália, é uma questão até eleitoralista. É algo com que as pessoas estão a pressionar o Governo, para que este aja. Os governos vão mexer-se quando perceberem que é uma prioridade para a população e para os eleitores. Se a saúde mental for uma área de preocupação para o votante, os políticos vão preocupar-se com isso. Se queremos que os nossos políticos atuem nos cuidados de saúde mental, temos de tornar evidentes as nossas preocupações em relação a isso.

O facto de ter um impacto na economia não é argumento suficiente?

Alguns anos antes da Covid-19, a Economist escreveu uma série de artigos sobre saúde mental. Há grandes custos económicos causados pela saúde mental que derivam da incapacidade e da participação diminuída dos trabalhadores. A revista teve mesmo um grande posicionamento argumentando que melhorar a saúde mental da população é a melhor aposta financeira. Penso que isso não mudou. A saúde mental ainda é a melhor aposta financeira. Se conseguirmos fazer grandes melhorias nessa área, o Produto Interno Bruto pode aumentar muito, o que é mais do que qualquer simples intervenção pode conseguir. Isso não deve ser ignorado, e, no pós-Covid, o imperativo é maior, não é menor. A doença mental tem de ser tratada com a mesma urgência e noção de gravidade que as doenças físicas. Sabemos que a doença mental é um grande fator de risco para outras doenças, e vice-versa. Em termos de justiça social, as doenças mentais merecem o mesmo investimento em investigação e cuidado clínico que as doenças físicas. Não há nenhuma separação natural entre os diferentes elementos do corpo, e não podemos tolerar, enquanto sociedade, um tratamento inadequado de pessoas com doenças mentais. Tem de ser uma prioridade, e tem de ser compreendido que a saúde mental vai muito além do tratamento, vai até aos problemas sociais estruturais, como a violência dentro da família, os cuidados com as crianças e o combate às drogas. Há muitos aspetos da vida que dependem da saúde mental, e a saúde mental depende de muitos aspetos das nossas vidas.

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