A terra a quem a trabalha… é mesmo aqui ao lado. Na cidade
Reportagem TSF

A terra a quem a trabalha… é mesmo aqui ao lado. Na cidade

Num tempo em que o mundo procura novas formas de consumo e alimentação mais sustentáveis, um dos caminhos pode ser a aposta na agricultura urbana. Em Bruxelas, durante a Semana Europeia das Regiões, a TSF foi conhecer uma plataforma de projetos que permite novas formas de trabalhar a terra, novas opções de vida, um novo modelo agrícola. Tudo graças a fundos comunitários. "É Mesmo Aqui ao Lado"

Marten Roels faz parte da Terre en Vue, uma organização, fundação e empresa que facilita o acesso à terra e que é uma das fundadoras da Rede Europeia de Acesso à terra, na qual participam agora cinquenta países europeus. É ele quem nos conduz pelo Boeren Bruxsel Paysans, BBP para os amigos, projeto, ou melhor, plataforma de projetos, que arrancou em 2016. omeça por dizer que esta empreitada que tanto o entusiasma, vai chegar a Portugal: "com os parceiros de acesso à terra em Portugal... Onde? Em todo o lado, mas suponho que a cidade principal seja no Porto".

Nestes campos - literalmente - plantados com prédios de Bruxelas à vista... é mesmo aqui ao lado, há sempre alguém da vizinhança para cumprimentar, mas uns breves segundos de saudações não o fazem perder o foco. Conversamos com Marten Roels no meio de uma estrada de terra batida, com campos cultivados direita e à esquerda, mas com prédios ali ao fundo, no município de Anderlecht: "há o cultivo de vegetais deste lado, em parte daquele também. E também há plantas aromáticas e terapêuticas, flores, diferentes tipos de ervas que estão a ser produzidas do outro lado. Portanto, esta é uma evolução interessante; ver esses projetos emergentes, que estão a ser testados aqui à volta e as pessoas que não têm muita certeza se isso é realmente viável ou não, podem realmente testar as suas atividades sem correr muito risco. Eu acho que é essencialmente o que está a acontecer aqui".

Nesta altura, não é tempo de colher tudo o que foi semeado, mas antes de fazer contas à viabilidade futura dos projetos: "Estamos a refletir sobre como ter a certeza de que todos esses projetos podem continuar e que também encontraremos novas formas de financiamento para a continuar a inovação e para testar ainda mais novas atividades." Por aqui, parece haver uma noção clara de que esta agricultura só faz sentido por não esquecer o mundo em que vive: "A agricultura está num contexto global e deve levar em consideração os preços dos alimentos no mercado global e, portanto, está numa situação difícil. Mas o que é interessante ver é que, num contexto urbano em que não há muita terra, devemos ser criativos e produzir de uma maneira muito inteligente, usando todos os metros quadrados disponíveis".

Roels aponta para casos que inspiraram o projeto do qual faz parte, como o Ferme du Chant de Cailles, Quinta de Codornizes, criado em 2012 para experimentar a rentabilidade da agricultura de pequena escala em Bruxelas: "com um hectare, essa quinta agora é capaz de gerar cerca de cem mil euros de produto bruto, o que é realmente muito excecional para a horticultura. Assim, permite que um hectare crie cerca de quatro empregos. É um número interessante". Este tipo de projetos, como o que a TSF visita em Bruxelas, está completamente alinhado com o que são este ano as prioridades da agenda europeia das regiões em 2020: Europa verde, coesão e cooperação, empoderamento dos cidadãos. A menina dos olhos do projeto é a quinta teste, que permite ao novo agricultor urbano ter três a quatro anos, sem custos de instalação, para perceber se é isto que quer fazer da vida, para além de ser um período de incubação para promover a agroecologia.

Testar a agricultura urbana durante três anos

Gabriel Anikalico, da equipa que gere o Espaço do Agricultor, apresenta-nos a quinta teste: "o nosso agricultor pode testar a atividade agrícola por um período de três anos. E o projeto Boeren Bruxsel Paysans fornece terra, infraestrutura como uma estufa, ferramentas, apoio em vários aspetos para se ter uma atividade agrícola, como formação nas áreas económica, comercial e técnica. Hoje, temos dez agricultores no Espace des Agricoles e quatro terminaram o período de testes e saíram no início do ano". As pessoas que aqui testam não precisam de fazer todos os investimentos necessários ao lançamento de uma atividade agrícola; no fundo, têm um período alargado para testar a viabilidade daquilo que pensaram fazer. Mas não são tudo favas contadas: "há uma candidatura que deve ser feita. Então o candidato precisa inscrever-se, compor um portfólio, mostrar a viabilidade do seu próprio projeto em qualquer nível, comercial, técnico e financeiro. Deve fornecer um plano de cultura para mostrar que a atividade é viável e tem de apresenta-lo a um júri que selecionará o projeto". Os autores dos projetos que lideram as atividades aqui são principalmente pessoas que estão em reconversão profissional, jovens ou pouco jovens, fascinadas pela profissão de agricultor e que decidem testar a atividade durante um período determinado. Marten não tem dúvidas: "para muitos agricultores, uma cidade grande parece muito inadequada para a agricultura. E isso é realmente falso, porque não há outro lugar na Bélgica ou noutras cidades da Europa onde exista uma procura tão grande por alimentos orgânicos, biológicos. E nesta agricultura, os clientes moram perto dos campos de quem produz. Quando se trata de comercializar, não há lugar melhor para a agricultura do que a cidade". Lamenta que haja "uma falta de consciência dessa oportunidade. E acho que a Quinta Teste permite que os agricultores descubram que, na verdade, a agricultura urbana é uma oportunidade. Ao mesmo tempo, o que também é interessante e importante nessa Quinta é que ela promove um tipo de agricultura chamada agroecologia, que é uma nova forma de agricultura, que precisa ser testada, que é muito complexa, que precisa de muita habilidade. O fato de que aqui nesta quinta de teste, digamos que todos os riscos típicos de novas formas inovadoras de agricultura estão a ser consideravelmente reduzidos, permite que esses agricultores realmente testem a agroecologia. Então, para mim, não é apenas testar a atividade, "Ok, preciso fazer isso ou não, o trabalho de ser agricultor", mas também está a ser testado um modelo agrícola".

E quem trabalha por aqui, nesta altura? Há dez líderes de projetos na quinta-teste, dos quais sete na produção de vegetais, dois na produção de ervas aromáticas e uma pessoa que produz flores comestíveis. Alguém se apresenta, à porta de uma estufa, no curto intervalo de uma chuva miudinha e manhã de frio na capital das instituições europeias, durante a Semana Europeia das Regiões, cujo Comité organiza a visita a esta plataforma criada por gente, essencialmente, jovem: "o meu nome é Valérie, estou aqui a trabalhar no Espaço teste desde fevereiro de 2019, trabalho com vegetais mas também com plantas aromáticas e algumas flores comestíveis, de momento. Este ano tenho 15 acres e espero ter trinta no próximo ano. Antes, era cozinheira, fiz a formação na escola de Namur e se fiz a transição para o cultivo de vegetais, foi porque queria ter os meus vegetais para depois os poder transformar. A vantagem aqui, é que estamos a trabalhar numa incubadora, estou a trabalhar no âmbito do Job Yourself, que nos acompanha em várias dimensões do projeto. Também recebo o subsídio de desemprego, o que ajuda bastante e, desejavelmente, no próximo ano já estarei mais confortável. Mas este ano, isto permite-me ver quão confortável me sinto a fazer isto e o que pode ser melhorado para o futuro".

Todos os dias são uma surpresa

Valérie deixou a cozinha na outra vida... quer produzir os seus próprios legumes para os transformar... O subsídio de desemprego vai dando para viver e esperar para ver o que dá este projeto e que lucros consegue ter... Mas ainda cozinha? "Nesta altura não tenho muito tempo para cozinhar mas espero que dentro de três ou quatro anos possa organizar mesas de degustação para convidados e possa passar três quartos do meu tempo aqui e o resto a cozinhar". Valérie da conta da dificuldade em encontrar algumas sementes, mas insiste em ter uma grande diversidade de vegetais e na época alta consegue ter vinte a vinte e cinco espécies diferentes para oferecer à freguesia. Trabalha, sobretudo, com os chamados velhos vegetais, mas também com espécies novas ou menos comuns: "La Marelle de Balbi que é um tipo de pequeno tomate vermelho que fica entre o sabor da lichia, cereja e comanche, doce e salgado. E, por exemplo, com uma variedade de beringela, que pode ser trabalhada pelos cozinheiros, por exemplo". Mostra-nos flores que se podem comer, bem como sementes igualmente comestíveis. Esta nova agricultora urbana garante que, por aqui, é tudo puro... não há químicos metidos neste pedaço de terra, "apesar de eu ainda não ter o rótulo "biológico" ainda, mas estou a ser monitorizada e já devo ter dentro de um ou dois anos". Valérie assume que o principal desafio tem sido encontrar compradores para os vegetais que tem em grande quantidade, como foi o caso da couve flor e dos bróculos: "o outro desafio foi o próprio cansaço, mas tinha de me levantar da cama e trabalhar. É um desafio diário este trabalho e todos os dias há uma surpresa nova, mas este é o primeiro ano ainda e espero que corra melhor no segundo".

Caroline Leconte também produz flores comestíveis e decorativas... não começou nisto há muito: "é o meu primeiro ano, a minha primeira época, tenho um terreno de 1.500 metros quadrados. Depois, posso lhe mostrar para onde nos vamos nos mudar e perto daqui, temos uma estufa com 250 metros quadrados. Temos principalmente flores comestíveis, ervas aromáticas". Esta mulher nos seus quarenta e muitos, vem de outras artes, mas as flores já lá andavam a cheirar... ou a dar cheiro: "estudei desenho têxtil, não estudei agricultura, mas já trabalhei como florista acabei por fazer esta reconversão. Sempre fui uma apaixonada pela natureza e sempre procurei a ligação entre ambos, a natureza e o têxtil; sempre me inspirou este aspeto mais ornamental das flores. O facto de serem flores comestíveis dá-lhes um interesse suplementar, sobretudo porque estamos a fazer um tipo de cultura sem recurso a pesticidas. Não podemos esquecer que o mercado das flores é uma catástrofe, as flores que geralmente você pode encontrar nos grandes mercados de flores da Holanda com flores que crescem em estufas sobreaquecidas ao longo de todo o ano, por isso agora fala-se muito de um movimento Slow Flowers, e depois há estas que são produzidas sem pesticidas e sem nada e que se podem comer, florescem e são muito generosas. Por isso, o meu projeto se chama As Generosas". Com generosidade, há voluntários que aparecem para ajudar. O projeto privilegia a venda direta ou apenas com um intermediário no circuito da comercialização, para melhor valorizar a produção feita numa pequena superfície.

Os fundos europeus e o tempo para a inovação

Caroline admite que sem a ajuda dos fundos europeus regionais, esta tentativa de mudança de vida não tinha sido possível: "a reconversão foi possível porque entrei para o espaço-teste e fui acompanhada pela plataforma de projetos, pelo fundo FEDER. Graças a todas essas ajudas, podemos experimentar a nossa atividade, o que é genial. Jamais o teria testado, porque eu venho de outro ofício, aqui tenho terra, sementes, estufa, de resto normalmente não se encontram terrenos em Bruxelas, posso tranquilamente pôr em prática o meu projeto e ver se é viável".

Ali mesmo, na entrada de uma pequena estufa, passámos a uma prova de degustação de flores. A begonha, uma flor clássica da jardinagem, não é nada má. "O gosto é surpreendente, é preciso preparar-se psicologicamente", atira Valérie, "pode interessar por exemplo a quem goste de cozinha japonesa, é crocante". O agastache, uma planta aromática, também não assusta ao mastigar, bem comos as folhas de ostra. Caroline normalmente começa o dia às oito, oito e meia, mas quando é época quente "é mais cedo, porque tenho de cortar as flores logo pela manhã, especialmente no caso das comestíveis. Termino no máximo às seis da tarde e sempre seis dias por semana embora haja duas semanas em que me acalmo e só trabalho cinco dias".

O projeto usa dinheiro comunitário, dos fundos europeus para o desenvolvimento regional, mas também fundos locais, por exemplo do município de Anderlecht, daí todo o cuidado dos responsáveis em dialogar com todos os atores envolvidos: "há muito tempo para o diálogo e a negociação, acho que isso é o que chamamos de custos de transação de inovação. Sem esse fundo europeu, é claro que nunca poderíamos ter coberto esses custos e eu realmente enfatizo esse ponto, porque acho que muitas vezes esquecemos que, se queremos criar inovação, especialmente num contexto urbano complexo, com muitos atores. Se não houver financiamento externo para esses custos transacionais, é melhor esquecer. Isto é o que penso depois de alguns anos a trabalhar aqui. Podemos fazer muito trabalho cartográfico, mas se os resultados não estiverem a ser discutidos com uma diversidade muito grande de atores, seja o Bruxelles Economie Emploie, a Perspective, que é a agência que cuida do desenvolvimento urbano rural, mas também os Urbanists, a agência que cuida das licenças, os diferentes municípios. Tens de ter em conta que são 19 municípios, todos com uma visão particular de como desenvolver o seu território. Portanto, temos de discutir com todos esses atores, em torno de um tema que há muito tempo não é central, é muito marginal".

Mas agora não está cada vez mais central? "Exatamente. Então, estamos realmente a des-marginalizar a agricultura urbana, e é bom ver que ela se torna lentamente parte das reflexões urbanísticas e do desenvolvimento urbano. Já ocupa um lugar real e acho que vai contribuir para tornar as cidades mais sustentáveis, mais ecológicas. Ontem, conversávamos com diferentes municípios sobre a gestão da água em Bruxelas - a água é um recurso muito importante e existe cada vez menos, especialmente nas cidades -, então estamos a descobrir como pode a agricultura urbana gerir melhor a água, como reduzir o consumo e trata-la, como aproveitar melhor a água da chuva e usá-la em infraestruturas verdes e parques, mas também na própria agricultura, como integrar melhor parques e quintas. Há muitas discussões inovadoras a decorrer e eu penso que só são possíveis porque existe este Fundo Europeu para o Desenvolvimento Regional".

Marten Roels considera esta plataforma um modelo alternativo a uma agricultura que não vende para as cidades e que está completamente na mão dos subsídios da política agrícola comum: "o valor acrescentado por hectare é muito baixo. Eles dependem completamente de subsídios. Se cortarem com os subsídios da Política Agrícola Comum, amanhã, essas quintas morrem imediatamente. Não são resilientes. E essas culturas usam muita superfície. Se produzissem para a cidade, seriam completamente independentes desse modelo de subsídios". Pouco mecanizada, com muito do trabalho feito à mão, no total, há cerca de quinze agricultores neste projeto e muita diversidade. Alguns têm o pequeno projeto individual já a funcionar, outros estão a testar o projeto, outros que surgiram sem passar pela quinta teste, onde estão agora dez. Desses, sete produzem legumes. Cada projeto da plataforma ocupa cerca de dois hectares e meio e vai dar terra a quatro ou cinco agricultores. Um jornalista polaco, ao lado da TSF, vai atirando..." isso é muito pouca terra para cada um... meio hectar". Meio campo de futebol.

A terra a quem a trabalha... de uma nova forma

Marten responde-lhe, com detalhes que denunciam o conhecimento do setor e a experiência em análise económica: "Temos que olhar para a agricultura de uma maneira diferente na cidade e nas áreas rurais. Na Bélgica, o tamanho médio de uma quinta é de cerca de cinquenta hectares, mas o valor agregado por hectare é muito menor do que o que está a ser cultivado na cidade. Então, do que estamos a falar aqui é de agricultura biológica hiper-diversificada, intensiva, onde as empresas podem ganhar cerca de 100 mil euros por hectare, o que é totalmente impossível para terrenos com tamanho médio dos 50 de que eu falava. E por que isso é possível aqui? Como estamos a falar de quintas tipicamente com colheitas onde as pessoas vêm e compram os produtos no início do ano, compram logo uma boa parte da colheita. E assim, o agricultor, no início do ano, tem cem mil euros na sua conta bancária e pode organizar-se sobre como distribuir esse dinheiro. E isso também significa que, se houver problemas na produção por causa de secas ou outros problemas, ele realmente terá os seus riscos cobertos. Portanto, estamos num modelo económico completamente diferente".A terra a quem a trabalha... de uma nova forma, a pensar não nos amanhãs que poderão ou não cantar, mas no novo hoje. Pierre diz que faz "principalmente cultivo de legumes. Também temos galinhas, algumas árvores frutíferas e começámos a cultivar cogumelo. A nossa maneira de trabalhar é um pouco específica e diferente do que é feito atualmente já que, em geral, tentamos trabalhar principalmente à mão. Temos uma grande parcela em que não usamos máquinas para tentar melhorar o solo e garantir orespeito pela biodiversidade. E nossa especificidade é vender essencialmente - e quase exclusivamente - aos habitantes de Anderlecht. Os nossos produtos são vendidos para cem famílias num raio de 3 quilómetros do campo, o que, para nós, é essencial para realocar a produção agrícola".

Internacionalismo, ciência política e igualdade de género na agricultura

Já a italiana Elisa, assume o lado da militância numa espécie de internacionalismo do pequeno agricultor: "Comecei a trabalhar como agricultora na Living Campesina, um movimento internacional de camponeses que apoia a agricultura familiar em pequena escala baseada em Agricologia. E é bastante inspirador como movimento, porque camponeses de todo o mundo reúnem-se para defender os mesmos direitos. E isso realmente galvanizou-me. Eu disse "sim eu também quero fazer parte disso". Foi também porque estudei sociologia e sempre estamos todos em busca de sentido, o que somos e como podemos agir para um mundo melhor. Um exercício de desconstrução, analisando o sistema em que estamos a viver". Perdeu-se a noção do que significa, na prática, ser agricultor e que tipo de dificuldades as pessoas do setor enfrentam. "Os preços são muito baixos por causa das décadas e décadas de agronegócios, dá muito trabalho e não é valorizado como qualquer outra profissão, porque as pessoas pensam 'mas não, isso é uma cenoura"! E eu tenho é de pensar "como vou ganhar a vida com uma salada a um euro, uma salada, uma salada, um quilo de cenoura, o que leva muito tempo e muita energia. Portanto, é realmente um desafio revalorizar todo o trabalho que está por trás da cenoura ou da salada", afirma a jovem agricultora de pendor internacionalista.

Reconhecendo que as coisas estão a mudar, a questão do género na agricultura ainda é, no entanto... uma questão. E um desafio para Elisa: "algo já está diferente e os homens estão a trabalhar nisso. E as mulheres também. Mas todos nós temos que lidar com o passado de um trabalho que tem sido principalmente relacionado à atividade dos homens. Então, precisas de te levantar, ser forte e, na verdade, muitas vezes precisas de defender o teu espaço. No meu mundo ideal, eu gostaria de não precisar mais defender o meu espaço com tanta força, mas hoje ainda é necessário. É um desafio colocares os teus limites, seres respeitada, não cair nos mesmos esquemas de relações, porque às vezes, para ser reconhecido, pensei que deveria agir como um homem e comportar-me como um homem, mas isso é realmente um reflexo primário de sobrevivência, porque então eu disse 'não Elisa, vamos lá ... não é sobre isso, tens que ser uma mulher que não tenta ser homem", por isso é tudo bastante desafiador".

Aurelian Deprez já anda nisto há uns quatro anos... para trás, ficou a ciência política: "deixei a ciência política por um novo modo de vida que penso ser bom para ser parte da mudança e não ser apenas um político, porque eles não mudam o mundo. Aqui posso ter um impacto na vida quotidiana dos cidadãos". Aqui pensa-se numa política agrícola comum em que o mercado não é global mas sim local, em que a cidade aparece como laboratório de um novo modelo de agricultura, como explica Gábriel: "a área de teste aqui em Anderlecht tem uma superfície de 3 hectares e não é coincidência. Por isso estamos neste município, pois há um reservatório de terras agrícolas da região de Bruxelas-Capital. Então aqui estamos, é um verdadeiro prazer estar aqui, neste espaço agrícola que nos é confiado pelo município".

Ali na estrada no meio dos campos, regressamos a Marten que fala de um setor de atividade que tem de pensar no futuro, a idade média do agricultor europeu é de mais de 55 anos... a diversificação é uma urgência: "Se não temos mais diversidade nos tipos de agricultura que estão a ser desenvolvidos na Europa, não há garantia alguma de soberania alimentar, que foi a primeira prioridade da Política Agrícola Comum".

Parece quase um paradoxo ver as cidades como portadoras de uma alternativa à agricultura de grande escala: " talvez o que a Europa precise de fazer, seja analisar como as cidades reagem aos desafios atuais quando se trata de alimentos, aprender com elas e ver como podemos replicar essas iniciativas nas áreas rurais, ou seja, como podemos criar condições financeiras ou fiscais ou outros tipos de condições que permitam que a agricultura em pequena escala também se desenvolva nas zonas rurais". Há questões cruciais como a distribuição da terra, até porque na Bélgica o preço por hectar é de 50 mil euros, quando em França é cinco mil, 1500 na Roménia, em Portugal, o preço por hectar chega aos 5 mil euros se for um terreno sem vinha no Douro ou no sequeiro no Alentejo, mas é uma valor que se multiplica por quatro ou cinco se estivermos a falar das zonas irrigadas do Alqueva.

Marten sugere o modelo francês de regulação pública da terra: "penso que precisamos disso em toda a Europa. Esta é para mim, a primeira prioridade. Se queremos dar uma chance à Agricologia e à resiliência no setor agrícola, precisamos gerir o acesso à terra, porque a terra é a primeira prioridade para um agricultor que deseja inovar. E a segunda prioridade deve ser o preço do mercado fundiário, mas também os princípios fundiários". Regulação do mercado, no fundo. Para que a Europa perceba que agricultores quer, com que tipo de produção, que produtos, com que qualidade, locais e preços: "Não é a reforma agrária, mas requer a reforma do modelo agrícola".

Mudar de vida sem sair da cidade

Chove nesta manhã em Anderlecht... apresentam-se mais duas agricultoras urbanas.... Betina e Virginie: "eu faço ervas aromáticas e o meu projeto é simples, chama-se, Magique de Bruxelles, Ma Belle", afirma Virginie. "E eu sou a Betina, também faço ervas aromáticas e o meu projeto chama-se Thisnes Time". Virginie vem da área da alimentação sustentável: "Fiz uma formação em alimentação sustentável, durante a qual visitámos diferentes projetos, seja de processamento, educação, produção de alimentos sustentáveis. Visitei uma quinta em Bruxelas chamada Urban Farm, onde conheci a Christie, que fazia ervas aromáticas, que ainda faz chás de ervas e que desenvolveu a formação e, no final, uma vez que fiz a formação em conjunto com a Virginie, ficámos a saber do espaço de teste aqui e da chamada para projetos e foi uma oportunidade de testar uma atividade que, a priori, não é facilmente lucrativa. Produzir ervas aromáticas é um trabalho muito manual e complemento-o com outros tipos de produtos ou com educação, animação e formação. E se eu não tivesse um espaço de teste, não teria embarcado na aventura. Era muito arriscado ter que alugar ou comprar terras. Claramente, esta é uma oportunidade a ser aproveitada".

Tudo o que aprendemos na vida pode estar nos livros. Antes de se dedicar às ervas aromáticas e plantas medicinais, às tisanas, a vida de Betina eram... os livros: "trabalhei dezoito anos numa livraria muito famosa de Bruxelas. Quando essa livraria fechou, eu pura e simplesmente não sabia o que fazer. Eu tinha feito cursos de fitoterapia e de ervas aromáticas. Sempre tive uma paixão por plantas medicinais e ervas aromáticas, embora não soubesse como o fazer. Pensei que era utópico mas continuei a formação, visitei diferentes projetos e depois conheci a Christie Michel, fiz a candidatura e acabei aqui, eis que tudo se encaixou muito rapidamente". A oportunidade para fazer agricultura na cidade... é mesmo aqui ao lado.

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