A vagina gigante que Juliana criou num parque brasileiro "abriu a caixa de Pandora" de ataques

Juliana Notari é a criadora de uma escultura que está a dividir o Brasil. Os apoiantes de Bolsonaro atacaram a artista, mas a vulva é rica em significado. A escultora explicou tudo, em entrevista à TSF.

Uma fenda de 33 metros de altura, por 16 metros de largura e seis metros de profundidade, recoberta por betão e resina, desencadeou um ataque fervoroso dos apoiantes de Bolsonaro no Brasil, mas a "ferida viva" no coração de Pernambuco não é a primeira que Juliana Notari expõe à luz do dia.

Na Amazónia, a artista escolhia árvores onde replicava a obra. "Na sumaúma, uma árvore grande de raízes profundas, que é considerada a mãe da floresta, fazia um ritual. Fazia uma pequena feridinha na raiz. Juntava o meu sangue menstrual ao longo de nove meses que é, coincidentemente, o tempo de uma gestação, e banhava a vulva com o meu sangue, enfiava algodão banhado em sangue, o espéculo, um instrumento que tem um histórico de violência. O norte-americano que inventou o espéculo testou e desenvolveu o instrumento no corpo das escravas negras."

"Diva" é a obra que nasce de mais de 20 anos de percurso artístico, conta Juliana Notari, numa entrevista ao programa Botequim, da TSF. "Esta figura, este formato de vulva ferida - porque antes de mais nada é uma ferida -, já apareceu em vários trabalhos, desde 2003, quando encontrei uns espéculos ginecológicos de aço inoxidável num lugar onde estava escrito 'doutora Diva', o nome da ginecologista que era dona dos espéculos", recorda. Juliana Notari abria também, com martelos, uma fenda que, depois, banhava com sangue de boi. "Era um trabalho muito violento. Era como se as paredes da galeria, as paredes dos espaços, fossem o corpo da mulher."

Depois, transportou a mesma imagem para França, em 2009, fotografou e ampliou a intervenção para colar nas paredes de vários lugares da Europa uma "Diva" em ponto grande, "deixando a marca daquela vulva violentada" pelo espéculo, uma ferramenta que abre cavidades, auxilia a prática médica, mas também "retrata um processo de muita violência".

A "Diva" nasceu na Usina de Arte, um parque artístico botânico, criado em 2005, com um museu de arte moderna, para fazer renascer o lugar para novos significados. "Aquela área era toda de canavial, tinha muitos engenhos que vinham do processo de colonização. É muito próximo de [Quilombos de] Palmares, onde o maior líder negro lutou contra a escravidão", esclarece a artista de 45 anos.

A família Pessoa de Queiroz herdou a principal usina exportadora de álcool do Brasil, e, com a decadência da monocultura da cana-de-açúcar e do "ciclo de exploração que gerou muita riqueza", os herdeiros deram início ao processo de ressignificar a história do lugar, com oficina de artes, escola de música e biblioteca. "Eu vejo a arte como uma resistência", analisa a escultora, a primeira artista de um grupo de mulheres que também criarão obras para o parque. "É um processo de revitalização e, ao mesmo tempo, de denúncia do passado, porque, se não mexermos nas feridas do passado, não vamos transcendê-las", aclara a artista.

Mas as críticas surgiram de várias frentes. No ataque cruzado, Juliana Notari sabe, contudo, separar as águas. "Esse grupo que elegeu o Presidente, que está no poder e se sente legitimado, atacou em massa e, como usa muito robôs, a história foi para os trend topics."

"O que me tem ocupado e que me tem feito refletir são as outras críticas", acrescenta a criadora, depois de a fenda em formato de vulva ter espoletado também o escrutínio por parte das das mulheres transexuais, e de uma fotografia em que Juliana aparece perto da obra "com os trabalhadores negros atrás" ter ateado a discórdia. "Abriu a caixa de Pandora", vaticina.

A controvérsia gerada em torno da fotografia "é boa", garante Juliana Notari. "Mas não podem colocar a culpa só em mim, é um racismo estrutural. É uma ferida colonial." Aliás, reforça, o Brasil está "cheio de feridas", e a Diva "surgiu para trazer todas essas feridas à tona, para abrir a ferida e colocar o pus para fora". As mazelas não foram tratadas. Pelo contrário: reforçadas pelo tempo. "O racismo é isso, e o Brasil foi o último país a abolir a escravatura. Eles não receberam a reforma agrária nem qualquer reparação, foram atirados à própria sorte."

Por isso, a fotografia poderia ter surgido "nas obras da construção civil, ou num set de filmagem de cinema - onde quem faz o trabalho mais pesado mas menos qualificado são os negros", salienta Juliana Notari. A artista não deixa, no entanto, de reconhecer: "Sei que, de alguma forma, a fotografia pode endossar esse sistema, mas, ao mesmo tempo, a arte não é um lugar à parte da sociedade; a arte está dentro da sociedade."

Juliana Notari assegura que também os juízos da comunidade transexual a fizeram pensar. A morfologia é inúmera, reconhece a artista que deseja que a fenda seja uma abertura e não o encerramento num único significado. "Para mim o feminino são vários femininos."

"Quando retrato uma vulva daquele tamanho, monumental, eu poderia estar a reforçar o binarismo homem/mulher, mas, se eu quisesse realmente fazer uma vulva, tinha feito os grandes lábios, o clítoris. Mas quis ampliar o significado da ferida. Não estou apenas a falar da mulher, mas também da natureza."

A crítica relacionada com o meio ambiente, por suposição de que a paisagem estaria a ser perturbada, é deitada por terra. Não há impacto ambiental, já que o terreno pertence à mata Sul de Pernambuco e a um lugar chamado Usina de Arte, que congrega várias intervenções de artistas, para reconverter "um local onde havia muita riqueza e muita exploração, muita escravatura, um emblema e um berço do patriarcado". A obra, com escoamento de água concebido por engenheiros, faz parte de um objetivo maior de revitalizar e reflorestar a área.

Na rede social Facebook, a artista brasileira adianta que um dos propósitos da intervenção é justamente apontar a degradação do relacionamento entre a humanidade e o ambiente. "Em "Diva", utilizo a arte para dialogar com questões que remetem à problematização de género a partir de uma perspetiva feminina aliada a uma cosmovisão que questiona a relação entre natureza e cultura na nossa sociedade ocidental falocêntrica e antropocêntrica", escreve Juliana Notari.

Em meio a tantas rochas no meio do caminho desse ano distópico, finalmente termino o ano com a obra Diva pronta!! Foi um...

Publicado por Juliana Notari em Quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A escultora acredita que a ferida serve para abrir significados, porque é impossível curar sem conhecer a profundidade do golpe. A obra "abriu a caixa de Pandora" dos preconceitos, num Brasil cada vez mais alheado de ideais como a igualdade de género e a defesa da natureza. "Esta ferida abre para muitas outras coisas, não só para o feminino. Aquela Diva, no meio da natureza, abre para a dimensão de Gaia, da Terra e desse grande estupro que estamos a fazer com a Terra. A pandemia é um sintoma disso."

Juliana Notari não tem dúvidas de que a atitude dominante em relação à natureza e às mulheres é fruto da semente do patriarcado. Mas há uma natureza de ser mulher que se liga ao tempo da gestação e ao tempo da colheita. "Por nós seguirmos um fluxo, por menstruarmos, somos cíclicas, e esse tempo cíclico da mulher, que ovula, que está alinhada com a lua, faz com que tenhamos uma conexão mais próxima com os ciclos naturais. Esta sociedade em que vivemos considera que o tempo é linear e que os recursos não têm fim. Nós sabemos que têm fim, sabemos que, quando menstruamos, isso é uma espécie de morte. Por causa da menstruação, a mulher conecta-se a este tempo cíclico que é o tempo da Terra."

"As mulheres sábias que tinham conhecimento do seu corpo, que trabalhavam com ervas, as parteiras e as curandeiras foram para a fogueira", acrescenta Juliana Notari.

Com a privatização da terra, na passagem do feudalismo para o capitalismo, o corpo da mulher também "passa a ser dominado pelo patriarcado", considera a artista brasileira. "A biomedicina ocidental faz uma domesticação dos corpos femininos. As mulheres passam a não ter poder sobre o próprio corpo. O aborto é uma discussão que reflete isso."

O feminismo de Juliana incide numa "dimensão traumática", que é ancestral. Num "país muito sexualizado", que "coloca a mulher como uma serva do homem e como um objeto", a artista nota ainda mais a "domesticação dos corpos, para fazer da mulher apenas uma reprodutora para o sistema capitalista gerar mão-de-obra". Foi "imposto" à mulher o cuidado do lar, porque "era necessário que as mulheres criassem os filhos, fizessem um trabalho invisível, para que os homens fizessem o trabalho remunerado", acrescenta.

"Hoje há um padrão de estética para a mulher de uma repressão absurda. A depilação é, de certa forma, uma estética que enfraquece, porque as crianças é que não têm pêlo." Juliana Notari também criou a Diva para denunciar que "a autonomia do corpo da mulher sempre foi banida".

Para começar a tratar da cicatrização, é preciso conhecer a ferida. No Brasil, defende a escultora brasileira, é necessário sobretudo estancar o fundamentalismo evangélico e o moralismo reacionário. "Como é que um ser humano chega a esta pobreza de espírito e de interpretação?"

"A gente vive um momento no Brasil de grande polarização, de um retrocesso político absurdo em todos os campos, não só na cultura, mas também na saúde e na educação. Eles falam da desflorestação e ali está a Amazónia em chamas. Eles têm uma pulsão de morte que é sórdida, é uma perversidade. Não sei como caímos neste buraco, nem quanto tempo vamos permanecer com a ferida aberta."

Neta de um assistente do artista Cândido Portinari e filha de pessoas ligadas à cultura do país, Juliana Notari recebeu da família uma educação sem preconceitos. Uma educação que é como uma fenda a dividir o Brasil. "Este Presidente é fruto de uma ferida maltratada. O Brasil é uma ferida escancarada. A Diva abriu a caixa de Pandora."

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