"A visita do Papa vai mudar pouco na vida das pessoas"

Considera a visita do Papa importante, mas a realidade no terreno é demasiado complexa e, por isso, não vai mudar muito. Nahro Zagros é cientista político no Curdistão iraquiano. Análise e entrevista na TSF.

O Iraque vive uma situação política, económica e social muito complicada, agravadas pela pandemia e pela situação de segurança propriamente dita.

A queda dos preços do petróleo combinada com má gestão, corrupção sistémica (160.º em 180 países no ranking da Transparência Internacional) e um ambiente de negócios desfavorável "agravam a crise económica do país", de acordo com o Banco Mundial.

As minorias não se sentem seguras e queixam-se de pouca representação no governo.

O Iraque tem altas taxas de desemprego, sendo que, num país com um peso demográfico muito importante dos jovens (mais de 60% da população tem menos de 25 anos), o desemprego jovem mais do que duplica a média nacional, com taxas da ordem dos 36%.

O descontentamento jovem provocou manifestações em massa há dois anos. Os mais novos foram para as ruas para exigir melhores condições de vida, manifestações que levaram à queda do primeiro-ministro. Aquilo que começou como protestos localizados no sul em 2018, espalhou-se para o norte, para Nassíria, Najaf, Karbala e Bagdade.

Apesar da morte de mais de 600 manifestantes pelas forças de segurança e da renúncia do então primeiro-ministro Adil Abdul Mahdi, a vida da juventude iraquiana não melhorou.

Depois, veio a pandemia do coronavírus, que pôs 12 milhões de pessoas em risco de pobreza.

Em terceiro lugar, mas não menos importante: a situação de segurança é ainda muito frágil. O Daesh ainda está operacional em todo o país. Em janeiro, levou a cabo dois ataques suicidas em Bagdade, matando 32 pessoas, o primeiro grande ataque desde que o grupo perdeu o chamado califado com a batalha de Baghouz, na Síria, em março de 2019, mas a ideologia e as questões socioeconómicas que lhe deram origem ainda estão bem presentes na região. Muitos combatentes do ISIS nunca deixaram a fronteira entre a Síria e o Iraque, enquanto outros voltaram para os seus antigos bastiões quando a vigilância foi reduzida.

No ano passado, tanto o Iraque quanto a Síria testemunharam um grande aumento nos ataques do ISIS. No Iraque, foram quase 600 ataques. Uma série de fatores e forças contribuíram para a sobrevivência do grupo, incluindo o desvio das forças de segurança para manter ordens de recolher obrigatório durante o bloqueio por coronavírus.

Nesta altura, no Iraque, ninguém duvida que o grupo armado está a tentar atrair recrutas e recuperar a força perdida. O chamado Estado Islâmico tem atacado constantemente a polícia local e postos de controlo militares. E até enviou bombistas suicidas para o meio de um mercado na capital do país.

Atualmente, há 2.500 soldados americanos no Iraque e pouco menos de 700 no nordeste da Síria. O ISIS, de acordo com uma estimativa da ONU, ainda tem 10.000 efetivos e entre 300 e 500 milhões de dólares em reservas.

Um americano morreu na quarta-feira quando pelo menos 10 rockets atingiram uma base aérea que abrigava militares dos EUA e outras tropas da coligação na parte ocidental do Iraque. Dias antes, no primeiro ataque militar ordenado por Joe Biden, os EUA bombardearam milícias xiitas alinhadas com o Irão ao longo da fronteira Iraque-Síria na semana passada, matando um miliciano e alimentando temores de outro ciclo de ataques de resposta e contra resposta.

Há grupos apoiados pelo Irão que atuam no Iraque, nomeadamente as Forças de Mobilização Popular, que os EUA dizem estar por detrás de vários ataques com roquetes.

Os ataques ocorrem no momento em que os EUA e o Irão tentam entrar novamente num acordo nuclear para limitar a capacidade de armas nucleares do Irão em troca de sanções.

E o Iraque está no meio disto tudo.

Nahro Zagros é cientista político e vice-presidente da Soran University, no Curdistão iraquiano, a mais bem classificada universidade no país dos últimos seis anos. Na TSF, começa por analisar a importância da visita do Papa Francisco:

É importante porque o Iraque quer mostrar ao mundo que há um novo capítulo depois do Estado Islâmico. Os líderes políticos e religiosos iraquianos, bem como as tribos, aguardaram esta visita com muita expectativa. E vão enaltecer esta visita como importante e significativa para um novo Iraque. Vemos que o Papa vem com duas mensagens: uma é a vida muito difícil para cristãos e outras minorias no Iraque, sempre sob ameaça, principalmente desde a guerra de 2003. Vemos que muitos cristãos e outras minorias estão a deixar o país, e se, durante o Estados Islâmico, os cristãos, os yazidis sofreram, no centro e no sul do Iraque, os cristãos estão a deixar a sua tradição, cultura e História para trás. E, conforme deixam o país, toda a história será apagada. Este é um ponto. O outro ponto é a perseguição que os cristãos enfrentam no Iraque. E o papa, ao encontrar-se com os líderes iraquianos, diz-lhes que a situação pode e deve melhorar, até porque temos um bom exemplo no norte do Iraque, na região do Curdistão, onde as minorias como os cristãos e os yazidi em particular, gozam de muita liberdade, há igrejas que são construídas, todos estes cristãos procuram refúgio e coexistência no Curdistão iraquiano.

É um bom exemplo nessa parte do país, porque é que não pode acontecer em todas as partes do Iraque? Essa é a mensagem que o Papa Francisco traz para os líderes iraquianos, ele entende que o Iraque pode melhorar muito mais, para acomodar cristãos e outras minorias.

Quando vier ao Curdistão iraquiano, no norte, no domingo, penso que ele aqui poderá testemunhar bons exemplos de coexistência, irá promover esta coexistência, tentando levar isso mais além, para outras partes do país.

Há observadores que afirmam que um dos problemas no Iraque é o facto de os americanos terem apoiado apenas os curdos... é assim?

Não, não é. A coexistência é algo que aqui está em prática há séculos! As pessoas vivem juntas. Além do mais, em comparação com o resto do Iraque, aqui há mais liberdade, há liberdade de expressão, as pessoas procuram refúgio aqui no Curdistão iraquiano - e não são apenas os cristãos. Por exemplo, durante a guerra com o Estado Islâmico, nesta pequena porção do território onde vivem cinco milhões de pessoas, tivemos 2,4 milhões de refugiados! Não só cristãos, mas muitos outros árabes, tanto sunitas como xiitas procuraram aqui refúgio. É um bom exemplo! E tenha em conta que não temos americanos no Curdistão. Temos americanos a proteger o território noutras partes do Iraque, mas não no Curdistão.

O Daesh está longe de ser derrotado, perdeu o califado, mas está a recrutar e a reunir forças no Iraque, como alguns especialistas no seu país admitem... Ainda é, portanto, uma ameaça...

Sim, ainda é uma ameaça. Ainda é um problema, especialmente em áreas sunitas. E depois da libertação de Mossul, nada foi feito para as pessoas poderem regressar, incluindo os cristãos e os yazidi, para que pudessem regressar às suas tradições. Porquê? Por causa da corrupção dentro do governo iraquiano, dentro das milícias xiitas. Mas temos outra realidade complexa, que é o facto de outras potências regionais que intervêm na política iraquiana...

Está a pensar no Irão?

Sim. E agora, se olharmos para as áreas cristãs e para as áreas yazidi à volta de Mossul e na Planície de Nineven, vemos que estes sítios foram libertados do ISIS mas a ameaça do ISIS ainda existe e não há sentido de proteção para estas pessoas regressarem. O reagrupamento do ISIS é fácil para eles porque a mentalidade ainda lá está.

Referiu as milícias xiitas apoiadas pelo Irão. Isso tem influência na estabilidade do país?

Sim, bastante. Porque quando tens um exército nacional iraquiano sem poder, em que o poder é dado às milícias xiitas, controladas por um país estrangeiro com peso regional, isso vem acrescentar à complexidade que já temos na nossa vida política quotidiana, na nossa cultura de país. Regressando à primeira questão e à visita do Papa Francisco, oxalá eu esteja errado, mas penso que vai mudar muito pouco, porque a realidade é complexa demais para ser resolvida numa visita.

Mas não atribui significado ao facto de ele se encontrar com o Ayatollah Al-Sistani, a maior autoridade xiita do país?

É significativo porque é uma visita histórica, é a primeira vez que um Papa visita este país. É histórica porque ele vai visitar alguns lugares, incluindo Ur, que é tido como o local onde nasce o Profeta Abraão; vai visitar o mais antigo mosteiro da região, tudo isso é significativo. Mas para melhorar, mudar a realidade no terreno, é difícil. Espero estar errado, mas penso que, com a terrível situação dos cristãos e de outras minorias, com este governo xiita, o encontro com estes líderes espirituais iraquianos não vai ser muito proveitoso... o encontro até pode ser, mas a aplicação prática de planos para melhorar as vidas das pessoas não será significativa.

Qual é o caminho então?

O caminho será desarmar todas estas milícias que temos no Iraque, o caminho para melhorar a vida dos iraquianos é assegurar que as potências regionais não interferem na política do Iraque; o caminho é quando a religião for retirada das Constituições e da política diária neste país.

Mas tenha por favor em conta que, quando falo do Iraque, excluo o Curdistão iraquiano, porque aqui é outra história. Não é a mesma coisa. Para que a imagem fique mais clara, é como ter dois países dentro da mesma fronteira política. A realidade aí é diferente do resto do Iraque. É muito melhor e mais próspera.

Mas o Curdistão independente é um sonho longínquo e difícil, como sabemos. Há passos no sentido de uma maior autonomia que poderiam ser dados, na sua opinião?

É genuína vontade política dos curdos terem o seu próprio estado, o seu país. Mas se o Iraque for um país onde todos se podem acomodar, serem livres e viverem juntos, é intenção dos líderes políticos curdos atuais fazer parte desse Iraque onde haja democracia, coexistência e uma Constituição que proteja os direitos dos iraquianos independentemente do seu contexto étnico ou religioso. Mas dia após dia, vemos que isso está a desaparecer. O respeito pela constituição, a possibilidade de implementação de planos constitucionais estão a desaparecer da política iraquiana. A coexistência torna-se mais difícil para todos os iraquianos, quando alguns no país são tratados como cidadãos de primeira classe e os outros como cidadãos de segunda ou terceira classe. Isto não é sustentável para o futuro do Iraque.

Nahro Zagros, cientista político iraquiano, no Curdistão iraquiano em Erbil, cidade que o Papa visita este domingo, depois de Nassíria, Planície do Ur, Bagdade e Najaf este sábado.

Vai ser recebido em Erbil por autoridades religiosas e políticas em Erbil, depois segue de helicóptero para Mossul, onde vai rezar pelas vítimas da guerra junto a Hosh al-Bieaa, a praça da igreja.

Segue para Qaraqosh, onde visita a comunidade na igreja da Imaculada Conceição; regressa a Erbil de tarde para celebrar missa no estádio "Franso Hariri". De seguida, volta à capital iraquiana de onde parte, segunda-feira, para Roma.

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