Afeganistão teve condão de acentuar urgência na UE de reforçar autonomia estratégica

João Gomes Cravinho regozijou-se por "constatar que o nível de convergência é muito elevado" entre os Estados-membros.

O ministro da Defesa manifestou "grande satisfação" com a discussão desta quinta-feira na Eslovénia sobre a Bússola Estratégica, observando que a experiência no Afeganistão "teve o condão de acentuar a importância" do reforço da capacidade estratégica autónoma da UE.

Em declarações à Lusa após uma discussão entre os ministros da Defesa da UE sobre a Bússola Estratégica -- o documento que está a ser preparado pelos 27 a traçar a estratégia europeia na área da Segurança e Defesa -, João Gomes Cravinho regozijou-se por "constatar que o nível de convergência é muito elevado" entre os Estados-membros.

"Creio que esta experiência recente no Afeganistão teve o condão de acentuar a importância de aumentarmos o nosso nível de ambição na bússola estratégica", disse, acrescentando que o grande desafio agora é "concretizar, sobretudo no que toca a capacidades, este sentimento de que a Europa tem de saber defender e promover os seus próprios interesses, aquilo que são interesses estratégicos da UE, mesmo quando não há outros parceiros que considerem interesses estratégicos, nomeadamente os Estados Unidos e a NATO".

"Há todo o interesse em ter com os Estados Unidos e a NATO uma relação forte, mas há também todo o interesse em poder agir quando a NATO e os Estados Unidos não têm o mesmo interesse que a União Europeia", vincou.

João Gomes Cravinho sublinhou que "esta ideia não é nova", apontando que "aquilo que há de novo hoje é praticamente uma unanimidade", pois "todos subscreveram esta ideia com estas palavras ou palavras parecidas".

"Em termos do momento que nós vivemos, de finalização da Bússola Estratégica, creio que esta reunião é muito oportuna, porque permitiu agora avançarmos na parte final da escrita da Bússola Estratégica com muita confiança", disse.

O ministro da Defesa observou que "o sentimento que prevaleceu é um sentimento de urgência do desenvolvimento de uma capacidade de resposta europeia a situações neste momento imprevisíveis, mas situações que com toda a probabilidade irão ocorrer de uma forma ou outra, situações que exigem capacidade de intervenção militar da UE".

Considerando que o sucedido no Afeganistão "funcionou, portanto, como catalisador", tal como o Alto Representante da UE para a Política Externa, Josep Borrell, dissera à entrada para a reunião que esperava que sucedesse, João Gomes Cravinho ressalvou que os 27 ainda só estão "a meio de um processo que precisa de resultar num documento com substância".

"Por exemplo, a questão de comando e controlo: reforçar a capacidade autónoma, em Bruxelas, de planeamento de missões e de comando e controlo de missões, isso precisa de constar do documento final", defendeu o ministro da Defesa nacional.

João Gomes Cravinho indicou que "várias outras ideias circularam em torno da mesa", entre as quais a de forças especiais de diferentes países realizarem treinos de conjunto muito regulares, mas enfatizou que "esta não é uma reunião técnica, de responsáveis militares, e competirá a eles fazer essa triagem".

O ministro admitiu que as discussões têm de acelerar agora, pois a vontade dos 27 é que haja uma primeira versão do documento finalizada ainda em outubro, de modo a poder ser objeto de discussão política na reunião de ministros da Defesa agendada para 16 de novembro.

À chegada à reunião informal de ministros da Defesa da UE, hoje realizada na localidade eslovena de Kranj, o ministro da Defesa havia afirmado à Lusa esperar que a recente experiência no Afeganistão leve a UE a adotar uma estratégia mais ambiciosa, considerando fundamental reforçar "muito significativamente" a capacidade de comando e controlo.

A situação no Afeganistão centra hoje as atenções nas reuniões informais de ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da União Europeia na Eslovénia, numa 'rentrée' comunitária marcada pela abrupta tomada de Cabul pelos talibãs em agosto e retirada apressada das forças e cidadãos internacionais do país, após 20 anos de presença.

Concluída a reunião de ministros da Defesa, entrarão 'em cena' os chefes da diplomacia, também em Kranj, com o ministro Augusto Santos Silva a representar Portugal.

As reuniões têm lugar dias depois de as forças internacionais que estiveram presentes nos últimos 20 anos no Afeganistão terem deixado o país, por decisão de Washington, tendo a operação de retirada sido apressada e caótica na sequência da abrupta tomada de Cabul pelos talibãs, em 15 de agosto passado.

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