Alemanha. Crise no Afeganistão pode recolocar extrema-direita no centro da campanha

Para o diretor e fundador do Centro de Investigação da Sociedade Civil, a situação no Afeganistão "não é apenas um desastre político", mas também um "desastre humanitário" e, definitivamente, um "desastre alemão em muitos aspetos".

A crise vivida no Afeganistão e o tema dos refugiados pode recolocar o partido de extrema-direita, Alternativa para a Alemanha (AfD), no centro da campanha eleitoral, reavivando uma polarização.

A pouco mais de um mês das eleições que vão escolher o sucessor de Angela Merkel à frente do governo alemão, o tema das migrações, suscitado pela vitória dos talibãs no Afeganistão, promete voltar a entrar no debate.

"Os acontecimentos no Afeganistão receberam muita atenção das pessoas. É um desastre, não só para a Alemanha, como também para o governo alemão (...) O problema foi desvalorizado, e como consequência temos milhares de pessoas em perigo no Afeganistão, deixadas ao abandono", sustentou o politólogo Edgar Grande, em declarações à agência Lusa.

Para o diretor e fundador do Centro de Investigação da Sociedade Civil, que integra o Centro de Ciências Sociais de Berlim (WZB)a situação no Afeganistão "não é apenas um desastre político", mas também um "desastre humanitário" e, definitivamente, um "desastre alemão em muitos aspetos".

Grande considera que o governo alemão desvalorizou a situação das últimas semanas, levando demasiado tempo a organizar o resgate dos alemães e colaboradores locais, podendo ser acusado de ter cometido "vários erros".

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Heiko Maas, do Partido Social Democrata (SPD), já reconheceu os erros de avaliação do governo. Também a chanceler Angela Merkel assumiu a responsabilidade, admitindo, ainda assim, que a avaliação errada foi "algo generalizado".

A perspetiva de um aumento de refugiados saídos do Afeganistão vai dar ao tema das migrações uma maior visibilidade durante a campanha, acredita o cientista político.

"Isso certamente beneficiará de alguma forma a extrema-direita, o que já aconteceu nas últimas eleições. Ainda assim, de acordo com as sondagens, os apoiantes da AfD têm-se mantido estáveis nos últimos tempos, em 10%", revelou.

Ainda assim, acrescenta Edgar Grande, "a imigração não vai ter o poder de mudar tudo, como aconteceu há quatro anos, mas permitirá a AfD mobilizar-se usando o seu tema".

O politólogo assume que haverá um debate sobre a melhor forma de lidar com as consequências da "dramática mudança política" no Afeganistão a curto e médio prazo.

"Não só no Afeganistão, isto irá certamente destabilizar toda a região. As pessoas que fujam nas próximas semanas e meses do Afeganistão, não irão para os países da Europa, mas sim para os países vizinhos, Iraque, Síria, Turquia, Paquistão", frisou.

Em reação à vitória dos talibãs, Armin Laschet, o candidato da União Democrata-Cristã (CDU) já disse que os "erros de 2015" não devem repetir-se, incentivando "ajuda humanitária no local". Já a candidata dos Verdes a chanceler, Annalena Baerbock exigiu que a Alemanha aceitasse refugiados. Olaf Scholz, na corrida a chanceler pelo SPD, sublinhou a necessidade de apoiar os países vizinhos.

A Alternativa para a Alemanha (AfD) ganhou peso político depois da crise de refugiados, em 2015, quando milhares entraram no país descontroladamente. Nas legislativas de 2017 conquistou 12,6% dos votos, sendo o terceiro partido mais votado, e tornando-se a maior força da oposição.

Devido a conflitos internos e a posições extremadas em relação às políticas de combate à pandemia de covid-19, o partido estacionou nos 10%, de acordo com as sondagens. Uma possível nova crise dos refugiados poderá fazer subir este valor.

A Alemanha vai a votos a 26 de setembro.

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