America Countdown... 35 dias. A juíza e muita falta de juízo

Germano Almeida, autor de quatro livros sobre presidências americanas, faz na TSF uma contagem decrescente para as eleições nos Estados Unidos. Uma crónica com os principais destaques da corrida à Casa Branca para acompanhar todos os dias.

1 - INCOERÊNCIAS E MOTIVAÇÕES DEMASIADO ÓBVIAS. A juíza Amy Barrett tem um quadro de valores em tudo semelhante ao do juiz Scalia, falecido há quatro anos. É uma originalista na leitura da Constituição americana. Profundamente conservadora e religiosa, anti-aborto, pró-armas, avessa aos direitos das minorias. Que Trump nomeie alguém dentro da sua área ideológica, tudo normal. Mas que some já terceiro juiz conservador para o Supremo num só mandato (neste caso substituindo a juíza que era mais à esquerda) já é menos equilibrado. Quanto à manifesta incoerência dos republicanos em relação ao que disseram e fizeram há quatro anos (travaram a nomeação de Merrick Garland, juiz liberal moderado apontado por Obama, apesar de ter sido um ano e três meses antes das eleições... agora querem confirmar Amy Barrett num mês), nada de novo. Já nem sentem embaraço. A direita americana tem uma oportunidade histórica (provavelmente única) de obter uma clara maioria no Supremo. Não a irá desperdiçar, nem pela óbvia contradição em que cairá. A média de uma confirmação no Senado de um juiz para o Supremo é de 60 a 80 dias. A maioria republicana liderada por Mitch McConnell propõe-se fazê-lo em cerca de 30. Neste clima político na América, as contradições são apenas um pormenor. De todo o modo, é justo lembrar nesta fase que juízes como Neil Gorsuch (nomeado por Trump) ou John Roberts (nomeado por Bush filho) tiveram nos últimos meses votações que permitiram vitórias pontuais de temas relacionados com defesas das minorias. No Supremo Tribunal cada caso tem a sua história própria. Até agora, um equilíbrio 5-4 deixava tudo em aberto: bastava um juíz mudar de "flanco". Com 6-3 para os conservadores, podemos assistir a uma inclinação à direita que durará décadas. Ao assumir de forma tão óbvia a incoerência de avançar para a confirmação da juíza Barrett em apenas um mês (depois dos republicanos terem achado que um ano e três meses era demasiado próximo da eleição 2016 para confimar Merrick Garland, nomeado por Obama), a atual administração volta a mostrar que perdeu qualquer preocupação de se mostrar coerente. Como é que o faz ainda assim? Porque o eleitorado Trump não lhe exige coerência: exige que o seu campeão faça tudo para destruir o outro lado. É neste ponto que estamos.

2 - RENDEZ-VOUS COM A AMÉRICA. O sistema eleitoral dos EUA é um dos grandes mistérios das democracias modernas. É confuso e por vezes contraditório. Dá espaço a que os processos eleitorais possam ter falhas e momentos de perturbação. Mas, ao mesmo tempo, revela a grande pujança e diversidade daquele grande país. Num trabalho conhecedor e profundo, ao mesmo tempo esclarecido mas de fácil leitura e apreensão, o presidente do American Club of Lisbon, Patrick Siegler-Lathrop, escreveu um livro que chega hoje às bancas e será apresentado a 8 de outubro, com o título "Rendez-Vous com a América", no qual se propõe explicar o que até para muitos norte-americanos. A relação entre os estados, o que cada um vale no total do Colégio Eleitoral, a origem dos Grandes Eleitores, a importância da Federação na lógica estadual e na imposição de que mesmo os estados mais pequenos e menos populosos contem na escolha do Presidente dos EUA. Também a relação do Presidente com os congressistas das duas câmaras. Patrick Siegler-Lathrop explica no livro que "há cinquenta eleições diferentes, uma para cada estado". Lembra a importância do dinheiro para a viabilidade das campanhas presidenciais e antecipa, de forma realista, o que pode correr mal nesta estranha corrida de 2020. E revela, no Prólogo: Vivo na Europa há décadas e presenciei muitas eleições presidenciais nos Estados Unidos. Cada vez que há eleições, os não-americanos questionam-me sobre o processo e vejo que não o entendem muito bem. Proponho-me, em termos simples, que espero serem fáceis de entender, a explicar o sistema eleitoral complexo e complicado dos Estados Unidos, focando-me principalmente nas Eleições Presidenciais, mas também fazendo uma retrospetiva de outras eleições, com o objetivo de ajudar qualquer pessoa a entender como funciona o sistema*. Na minha tentativa de explicação do sistema eleitoral dos Estados Unidos em geral, não tencionava tornar este texto específico para as eleições de 2020, mas é difícil ignorar, neste momento, o enorme interesse na disputa entre o atual candidato republicano às eleições presidenciais Donald J. Trump e o ex-vice-presidente candidato democrata às eleições presidenciais Joseph R. Biden Jr., e nas características específicas das eleições de 2020. O livro, editado pela "Diário de Bordo", conta com os prefácios de Robert Sherman (Embaixador do EUA em Lisboa entre 2014 e 2017) e de António Rebelo de Sousa.

UMA INTERROGAÇÃO: Em quantos dias será confirmada a juíza Amy Coney Barrett?

SONDAGEM NACIONAL: Biden 54/Trump 44

(ABC/Washington Post, 21 a 24 setembro)

MODELO PREDITIVO ECONOMIST
Probabilidades eleição: Joe Biden 86%-Donald Trump 14%
Probabilidades de quem irá vencer voto popular: Joe Biden 97%-Donald Trump 3%
Previsão Colégio Eleitoral: Joe Biden 333-Donald Trump 205

MODELO PREDITIVO FIVETHIRTYEIGHT
Probabilidades eleição: Joe Biden 78%-Donald Trump 22%
Previsão voto popular: Joe Biden 52,9%-Donald Trump 45,8%
Previsão Colégio Eleitoral: Joe Biden 331-Donald Trump 207

*autor de quatro livros sobre presidências americanas

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