America Countdown... 44 dias. Marcação cerrada no Midwest

Germano Almeida, autor de quatro livros sobre presidências americanas, faz na TSF uma contagem decrescente para as eleições nos Estados Unidos. Uma crónica com os principais destaques da corrida à Casa Branca para acompanhar todos os dias.

1 - BIDEN EM VERSÃO "BUY AMERICAN"

Uma Presidência Biden será, sobretudo, o regresso à decência americana. A uma Casa Branca que não esteja em constante sobressalto pelas polémicas e contradições de um Presidente impreparado e com muito pouco amor pela verdade. Uma Presidência Biden será também o retorno ao Acordo de Paris, à América confiável, aos acordos multilaterais, à preferência firme e clara por aliados permanentes e não por regimes autoritários e autocráticos. Mas Biden na Casa Branca não significará desfazer tudo o que a vitória de Trump em 2016 implicou. O desconforto do eleitorado, ou de parte dele, nunca pode ser ignorado. As últimas semanas de campanha mostraram um Biden especialmente focado no "Buy American", na proteção das indústrias que quase terminaram na crise 2008-2010 e que só os "bailouts" de Obama salvaram (mas que, ironicamente, acabaram por dar a vitória a Trump sobre Hillary). No mais recente anúncio de campanha, bombado nos estados decisivos do Midwest que votaram duas vezes em Obama mas que, surpreendentemente, preferiram Trump a Hillary em 2016, Biden aposta numa marcação cerrada à narrativa Trump: fala em "proteger os empregos americanos", apresenta medidas de apoio às fábricas da "Rust Belt", insiste nessa ideia protecionista do "Buy American". Que não restem dúvidas: Biden pretende recuperar o Midwest para os democratas usando um argumentário idêntico ao de Trump para combater Trump. Nisso e na oposição à China (que ninguém esteja à espera que a rivalidade EUA vs China diminua se Trump perder). As coisas são como são.

2 - O PROBLEMA DEMOCRATA

Joe Biden está à frente nas sondagens, os democratas mostram boas condições de obter as duas câmaras do Congresso (pelo menos manter facilmente a câmara baixa e possivelmente arrecadar também o Senado, eu neste momento é, por pouco, dos republicanos). Então, porque é que persiste a sensação de que, em novembro, será difícil um cenário de vitória democrata nas três frentes, de forma clara, legítima e clarificadora? Por várias razões. Primeiro, eleitorais. Para

os democratas é mais difícil ganhar o Colégio Eleitoral. Os republicanos, com menos votos, podem chegar aos 270 Grandes Eleitores, por terem a possibilidade de vencer em estados mais pequenos, com menos eleitores. Isso explica que, nas últimas cinco eleições presidenciais na América, em duas delas quem teve mais votos (Gore 2000, Hillary 2016) não foi Presidente. Não há um número certo para responder à dúvida, mas tendo em conta que Hillary Clinton teve mais três milhões de votos que Trump, mas Donald ganhou o Colégio Eleitoral por 304/227, é de admitir que só com mais cinco milhões de votos seja certo que um candidato democrata seja mesmo eleito (no caso de Hillary, só na Califórnia a diferença já deu para "cobrir" a vantagem no todo nacional, para termos uma ideia de como o resultado a nível nacional pode ser enganador). Há ainda o "gerrymandering". O palavrão traduz uma artística administrativa, que os governos estaduais republicanos têm vindo a explorar: o desenho das circunscrições eleitorais (countries), pelas características demográficas dos respetivos eleitores, dificulta ainda mais o triunfo democrata. Quer isto dizer que Joe Biden não pode ganhar? Claro que não. Se Joe, como dizem algumas sondagens, tiver mesmo mais 10% que Trump será Presidente - ponto final. Mas se a diferença for só de 4 ou 5%, isso já não é tão certo. Para agravar tudo isto, há a tal questão da irresponsabilidade de Trump, ao atirar com o fantasma da "fraude eleitoral". Acusação sem fundamento, mas que pode levar milhões de eleitores americanos a achar que foram enganados, a sentirem-se "roubados" pelo "sistema", a quererem inviabilizar a tomada de posse. É certo que os EUA têm regras, leis, tribunais. Mas não é impossível que assistamos, entre 3 de novembro 2020 e 20 janeiro 2021, a um período de grande conturbação política, social e até legal na democracia de referência.

UMA INTERROGAÇÃO: Joe Biden será um Presidente mais parecido com Barack Obama ou Bill Clinton?

ESTADOS DECISIVOS

Carolina do Norte: Biden 46-Trump 43 (USA Today/Suffolk, 11 a 14 set)

Ohio: Biden 49-Trump 45 (Rasmussen Reports, 1 a 2 set)

Virgínia: Biden 53-Trump 39 (VCU, 1 a 2 set)

Minnesota: Biden 57-Trump 41 (ABC/Washington Post, 9 a 13 set)

Iowa: Trump 48-Biden 46 (Monmouth, 1 a 3 set)

*autor de quatro livros sobre presidências americanas

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