America Countdown… 86 dias. A era das perceções

Germano Almeida, autor de quatro livros sobre presidências americanas, faz na TSF uma contagem decrescente para as eleições nos Estados Unidos. Uma crónica com os principais destaques da corrida à Casa Branca para acompanhar todos os dias.

1 - DE PIADA A PESADELO EM FORMA DE REALIDADE. Donald Trump, eleito com menos três milhões de votos que Hillary Clinton, explorou os receios mais primários dos eleitores dos estados do Midwest e chegou, através de uma campanha baseada em "factos alternativos", ao cargo político mais influente do mundo prometendo "América Primeiro". É populista, demagógico, mentiroso e egoísta. Não tem noções básicas sobre o relacionamento entre líderes políticos e dá mostras de não respeitar os outros poderes e de ignorar direitos das minorias. Eleger Donald Trump para Presidente dos Estados Unidos começou por ser uma piada capaz de gerar sketch humorísticos bem divertidos. Passou a ser uma ideia bizarra, transformou-se numa hipótese remota e acabaria por tornar-se num pesadelo em forma de realidade. Um erro de consequências bem mais graves do que muitos terão antecipado. Pelo desprestígio do cargo de Presidente dos Estados Unidos. Pela conturbação nas relações com os principais aliados dos norte-americanos. Pelo retrocesso que está a operar em áreas fundamentais para os pilares da sociedade americana. Não foi o fim do mundo. Mas foi, claramente, a estocada final numa certa ideia de mundo ordenado, tranquilo e próspero que tinha nos Estados Unidos a sua maior referência e o seu maior guia.

2 - AINDA SERÁ POSSÍVEL DISTINGUIR A "PERCEÇÃO" DA REALIDADE? "Estou cansada deste caos diário" (Michelle Obama). "Com Donald Trump a verdade é vandalizada. Não é 'pós-verdade'. É aldrabice, mesmo" (Embaixador José Cutileiro). A 9 de novembro de 2016, horas depois da surpresa Trump da noite eleitoral, escrevi que "a realidade tem sempre razão". Falta saber se ainda é possível, nesta era trumpiana, continuar a definir esse conceito de "realidade". Nessa dualidade entre "perceção" e realidade", que caracteriza esta era trumpiana, está cada vez mais difícil analisar a segunda parte do dilema. A 13 de janeiro de 2017, sete dias antes de tomar posse como Presidente dos EUA, Donald Trump recebeu um "briefing" que alertava para a possibilidade de ocorrer "a pior pandemia desde 1918", capaz de "paralisar cidades como Londres ou Seul e obrigar à imposição de "travel bans". De acordo com o politico.com, que libertou um memo dos pontos fortes apontados nesse "briefing", os responsáveis na área da Saúde foram avisados que isto poderia afetar fortemente estados como a Califórnia ou o Texas". O que fez Trump nos meses seguintes? Permitiu que o seu então Conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, extinguisse a equipa especial de prevenção de pandemias, criada por Barack Obama. Trump insiste agora em dizer, depois de semanas a negar, que "nunca se poderia imaginar que pudéssemos chegar a esta situação, ninguém imagina um cenário como este do coronavírus". Mas Susan Rice, embaixadora dos EUA nas Nações Unidas e Conselheira de Segurança Nacional nos dois mandatos presidenciais de Barack Obama, foi muito clara, em artigo de opinião no New York Times: "Em vez de evitar os avisos, preparar um plano e preservar estruturas e orçamentos para a saúde e para prevenção de ameaças como esta, o Presidente ignorou o risco de que uma pandemia como o coronavírus podia estar a chegar". Rice especificou o "briefing" acima citado de 2017 e criticou duramente a extinção que Trump permitiu da secção de prevenção de pandemias, acoplado ao Conselho de Segurança Nacional, que Barack Obama tinha criado. É esta a desgraça americana: ter escolhido alguém que não é bem um Presidente neste momento tão grave da História.

UMA INTERROGAÇÃO: Em 2008 e 2012, os eleitores independentes deram larga maioria a Obama sobre McCain e Romney. Em 2016, Trump ganhou a Hillary nos eleitores sem preferência declarada por republicano ou democrata por 46/42. Como será em 2020?

UM ESTADO: Dakota do Sul

Resultado em 2016: Trump 61,5%-Hillary 31,7%

Resultado em 2012: Romney 57,9%-Obama 39,9%

Resultado em 2008: McCain 53,2%-Obama 44,7%

Resultado em 2004: Bush 60,3%-Kerry 37,6%

(nas últimas 12 eleições presidenciais, 12 vitórias republicanas)

- O Dakota do Sul tem 885 mil habitantes: 81,5% brancos, 4,2% hispânicos, 2,3% negros, 1,5% asiáticos; 49,5% mulheres

3 VOTOS NO COLÉGIO ELEITORAL

UMA SONDAGEM: Dakota do Sul (não se realizou ainda qualquer sondagem presidenciais 2020 para este estado) / O modelo preditivo da Economist dá mais de 99% de probabilidade de vitória Trump neste estado

*autor de quatro livros sobre presidências americanas

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