America Countdown... 92 dias. Um sistema sob ameaça

Germano Almeida, autor de quatro livros sobre presidências americanas, faz na TSF uma contagem decrescente para as eleições nos Estados Unidos. Uma crónica com os principais destaques da corrida à Casa Branca para acompanhar todos os dias.

1 - A ANTÍTESE DE UM SISTEMA PREPARADO PARA EVITAR REIS E DITADORES.

Dos Estados Unidos da América esperamos sempre o melhor. A capacidade que aquele grande país tem de nos surpreender pela positiva parece inesgotável. O problema é que, por vezes, os EUA também nos mostram o seu pior. Barack Obama era racional, profundo, tolerante e capaz de levar ao limite o compromisso para fazer valer o essencial do que pretende aprovar. Donald Trump é instável, incoerente, muda de ideias ao sabor do interesse do momento e revela a maturidade emocional de um miúdo de oito anos. Tem só estes defeitos? Claro que não. Ninguém chega a Presidente dos Estados Unidos sendo apenas assim. Trump teve o mérito de perceber que, neste estranho ano político de 2016, rendia a crítica ao "establishment" e às elites políticas. E usou, de forma magistral, e por isso perturbadora, as redes sociais para lançar ideias simplistas, capazes de baralhar o eleitorado. A "pós-verdade" ganhou ao "reality check", processo em risco de se tornar prática ultrapassada pelos algoritmos da rede invisível. O que fica? Uma permanente confusão: "Trump atingiu a presidência sem uma ideologia coerente. Tem múltiplas posições para os mesmos assuntos, conselheiros com perspetivas conflituantes e nenhuma experiência governativa em temas fundamentais. Aqueles que tentem analisar de forma honesta a sua administração serão obrigados a fazê-lo no meio do caos", aponta Ben Shapiro, na «National Review». No auge da pandemia coronavírus em Nova Iorque, e perante uma miserável falta de solidariedade federal de Trump para com a emergência estadual, Andrew Cuomo lembrava: "A América preferiu, num momento definidor, ter um Presidente em vez de um rei despótico".

2 - VALHA-NOS O SUPREMO

Quando, em abril de 2017, Donald Trump nomeou o juiz Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal fui fortemente crítico da escolha, atendendo ao registo quase exclusivamente conservador das suas decisões até atingir o topo da hierarquia judicial nos EUA (adepto de uma interpretação literal da lei e de uma excessiva presença da religião na leitura da realidade jurídica). Mas também é verdade que a declaração que o juiz Gorsuch fez na noite da sua confirmação ("Prometo imparcialidade, independência, colegialidade e coragem. Um juiz que gosta de todos os resultados que atinge é provavelmente um mau juiz.") me fez pensar duas vezes sobre se as minhas críticas teriam sido exageradas. O juiz Neil Gorsuch, contra todas as previsões e certamente contra a sua opinião pessoal e o desejo de quem o nomeou (o Presidente Donald Trump) votou, a 15 de junho passado, pela proibição do despedimento dos homossexuais e transgénero nos EUA, abrigando-os na lei de defesa dos direitos cívicos, que proíbe "discriminação pelo sexo", aprovada já em 1964, durante a Presidência Johnson. Dias depois, o juiz John Stevens (de registo ambíguo, mas mais conservador que liberal nos votos que fez até agora) viabilizou a continuidade do DACA, decisão de Obama que protegia centenas de milhares de "Dreamers" (filhos de imigrantes ilegais, nascidos nos EUA), contrariando assim intenção de Trump de revogar essa lei. É em momentos destes que o sistema político e judicial daquele grande país continua a surpreender-me. Valha-nos o Supremo.

UMA INTERROGAÇÃO: Vai Joe Biden ser capaz de aumentar a mobilização de negros, mulheres e jovens, três segmentos que preferiram Hillary a Trump em 2016, mas que não foram às urnas em quantidade suficiente para que a candidata democrata confirmasse favoritismos nos estados do Midwest?

UM ESTADO: Minnesota

Resultado em 2016: Hillary 46,4%-Trump 44,9%

Resultado em 2012: Obama 52,7%-Romney 45,0%

Resultado em 2008: Obama 54,1%-McCain 43,8%

Resultado em 2004: Kerry 51,1%-Bush 47,7%

(nas últimas 12 eleições presidenciais, 11 vitórias democratas, 1 republicana)

- O Minnesota tem 5,6 milhões de habitantes: 79,1% brancos, 5,6% hispânicos, 7% negros, 5,2% asiáticos; 50,2% mulheres

10 VOTOS NO COLÉGIO ELEITORAL

UMA SONDAGEM: Minnesota - Biden 51/Trump 38

(Fox News 18-20 julho)

*autor de quatro livros sobre presidências americanas

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de