America Countdown... 95 dias. "Nada numa eleição americana é inevitável: muito menos uma reeleição"

Germano Almeida, autor de quatro livros sobre presidências americanas, faz na TSF uma contagem decrescente para as eleições nos Estados Unidos. Uma crónica com os principais destaques da corrida à Casa Branca para acompanhar todos os dias.

1 - O MITO DA "INEVITABILIDADE" DA REELEIÇÃO DOS PRESIDENTES AMERICANOS

Corre por aí uma teoria que nos diz "ah e tal, as sondagens não contam, os presidentes na América são sempre reeleitos, por isso o Trump vai ganhar". Ui. A sério? Olhemos, então, para os factos (uma ousadia nos tempos que correm, eu sei). Sim, os últimos três presidentes foram reeleitos: Clinton 1992 e depois 1996; Bush filho 2000 e depois 2004; Obama 2012 e 2016. Mas vejamos a coisa em maior perspetiva: três dos quatro presidentes anteriores falharam a reeleição - Ford em 1976 (para sermos precisos, não foi bem a reeleição que falhou, porque não fora eleito em 1972, herdara a presidência Nixon); Carter em 1980; Bush pai em 1992. Pelo meio destes três, só Reagan conseguiu a reeleição em 1984. Ou seja, se desde os anos 90 a regra é a da reeleição, nos anos 70 e 80 a regra foi a de que o Presidente não conseguiu a reeleição. O que é que os três que se reelegeram nos últimos 30 anos tinham em comum? Apresentaram-se para segundo mandato com crédito de muitos empregos criados, em período de crescimento económico e tinham taxas de aprovação iguais ou superiores a 50%. O que é que os três que falharam a reeleição nos 20 anos anteriores tinham em comum? Atravessavam maus momentos económicos e tinham taxas de aprovação inferiores a 40%. E Trump? Tem claramente um perfil mais parecido aos três que falharam. Mas são tempos muito diferentes dos 70"s e 80" do século passado, a verdade é essa. Se num recuo até aos anos 70 há um equilíbrio (4 presidentes reeleitos, 3 não reeleitos), as décadas pós II Guerra até aos anos 70 mostram forte pendor para a reeleição: Roosevelt foi eleito quatro vezes (tantas, que se entendeu limitar a coisa ao máximo de dois); Eisenhower reeleito; Kennedy eleito, assassinado e depois Johnson, seu vice, eleito em 1964 com vantagem bem maior; Nixon reeleito. Então, afinal, é mesmo provável a reeleição. Hey, "not so fast": todos eles foram reeleitos em momentos económicos positivos. Para encontrarmos um Presidente dos EUA reeleito em momento económico recessivo temos que recuar quase um século, até 1924: Calvin Coolidge.

2 - O PARADOXO DA TOLERÂNCIA

Karl Popper, no volume 1 do livro "A Sociedade Aberta e os seus Inimigos", já tinha identificado a contradição: "A tolerância ilimitada leva ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada mesmo aos intolerantes, e se não estivermos preparados para defender a sociedade tolerante do assalto da intolerância, então, os tolerantes serão destruídos e a tolerância com eles. - Nessa formulação, não insinuo, por exemplo, que devamos sempre suprimir a expressão de filosofias intolerantes; desde que possamos combatê-las com argumentos racionais e mantê-las em xeque frente a opinião pública, suprimi-las seria, certamente, imprudente. Mas devemo-nos reservar o direito de suprimi-las, se necessário, mesmo que pela força; pode ser que eles não estejam preparados para nos encontrar nos níveis dos argumentos racionais, mas comecemos por denunciar todos os argumentos; eles podem proibir seus seguidores de ouvir os argumentos racionais, porque são enganadores, e ensiná-los a responder aos argumentos com punhos e pistolas. Devemo-nos, então, reservar, em nome da tolerância, o direito de não tolerar o intolerante." O que se passou na sociedade americana desde o final de 2016 - no seu ambiente, na perturbação das instituições, no silêncio passivo de grande parte dos representantes eleitos, elevou a fasquia desta contradição. Ao eleger um intolerante para o cargo mais influente, esse paradoxo saltou à vista.

UMA INTERROGAÇÃO: Vai Joe Biden ser capaz de aumentar a mobilização de negros, mulheres e jovens, três segmentos que preferiram Hillary a Trump em 2016, mas que não foram às urnas em quantidade suficiente para que a candidata democrata confirmasse favoritismos nos estados do Midwest?

UM ESTADO: Maine

Resultado em 2016: Hillary 47,8%-Trump 44,9%

Resultado em 2012: Obama 56,3%-Romney 41,0%

Resultado em 2008: Obama 57,7%-McCain 40,4%

Resultado em 2004: Kerry 53,6%-Bush 44,0%

(nas últimas 12 eleições presidenciais, 8 vitórias democratas, 4 republicanas)

-- O Maine tem 1,3 milhões de habitantes: 93% brancos, 1,8% hispânicos, 1,7% negros, 1,3% asiáticos; 51% mulheres

4 VOTOS NO COLÉGIO ELEITORAL

UMA SONDAGEM: Maine -- Biden 52/Trump 43

(Public Policy Polling 2-3 julho)

* autor de quatro livros sobre presidências americanas

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