Estimativas apontam para 73 milhões de jovens desempregados em todo o mundo em 2022

A conclusão é de um relatório da Organização Mundial do Trabalho, que revela que os jovens, especialmente as mulheres, foram os mais afetados pelo desemprego durante a pandemia. As estimativas apontam que 2022 ainda não será o ano da retoma global no que toca ao emprego jovem.

PorFilipe Santa-Bárbara com Carolina Quaresma
© Pixabay

Depois das quedas acentuadas durante a pandemia, 2022 ainda não vai ser o ano da retoma global ao nível do emprego jovem. A conclusão está num relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a propósito do Dia Internacional da Juventude, que se assinala esta sexta-feira. As estimativas da OIT são de que o desemprego atinja, este ano, 73 milhões de jovens em todo o mundo, valor ainda acima do registado em 2019.

Também a percentagem de jovens "nem nem", ou seja, que não trabalham, não estudam nem estão em formação está num nível particularmente elevado, e são muito mais em todo o mundo desde 2020. O primeiro ano da pandemia fez crescer esta fatia da população para mais de 23% globalmente, num aumento como não se via há pelo menos 15 anos.

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Sobre os "nem nem" os últimos números são precisamente de 2020, mas no caso do desemprego as estimativas da OIT chegam aos dias de hoje para concluir que a pandemia veio agravar os desafios laborais daqueles que têm entre 15 e 24 anos, sendo este o grupo etário mais penalizado pela Covid-19 no que ao trabalho diz respeito.

De acordo com o último relatório "Tendências Globais do Emprego Jovem", as assimetrias são múltiplas. Desde logo, no género: as mulheres jovens estão numa pior situação do que os homens com a mesma idade, tendo eles quase o dobro da probabilidade de estarem empregados.

Depois, as diferenças estendem-se à geografia. Os países de elevado rendimento são os únicos que devem chegar a taxas de desemprego jovem perto dos valores pré-pandemia. Todos os outros, seja de médio ou baixo rendimento, devem ficar mais do que um ponto percentual acima dos valores de 2019.

Olhando para o mapa, são os Estados Árabes aqueles onde a taxa de desemprego jovem é mais elevada a nível global, seguindo-se a América Latina.

Por outro lado, são os jovens aqueles que estão em melhor situação para beneficiar das economias verde e azul. Segundo este relatório poderão ser criados cerca de oito milhões e meio de empregos para jovens até 2030, através da implementação de medidas de políticas sustentáveis.

Em Portugal, "taxa de desemprego jovem já é inferior ao pré-pandemia"

À luz deste relatório há, desde logo, uma boa notícia que salta à vista: o facto de Portugal comparar bem com a realidade internacional. É o que destaca o coordenador do Observatório do Emprego Jovem do ISCTE.

"No caso português, a taxa do desemprego jovem já é inferior ao pré-pandemia, o que, de certa forma, também é interessante pensarmos isto à luz deste relatório. O mercado de trabalho em Portugal, nesta dimensão, já teve uma recuperação mais rápida do que é a tendência internacional relativamente a esta matéria. O mesmo se aplica relativamente aos jovens que não trabalham nem estudam. Embora em Portugal também tenha havido um aumento durante o período da pandemia, nessa dimensão Portugal está abaixo, num sentido positivo, em termos de comparação internacional", explica à TSF Paulo Marques.

Ouça as declarações de Paulo Marques à TSF sobre desemprego jovem em Portugal

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O investigador do ISCTE defende que devem ser tiradas ilações sobre as crises passadas, sublinhando que o grande desafio é agora conseguir tornar o mercado de trabalho mais resiliente.

"O mercado de trabalho está a recuperar relativamente ao nível pré-pandemia. O que precisamos de garantir é que essa reconstrução do mercado de trabalho é uma reconstrução que o torna mais resiliente. Penso que esse é o grande desafio que se coloca neste momento, ou seja, nós, efetivamente, estamos a conseguir diminuir as taxas de desemprego, precisamos é de aprender com esta crise e com as anteriores e tornar o mercado de trabalho mais resiliente a crises", considera.

Paulo Marques explica o que é preciso para um mercado de trabalho "mais resiliente"

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Essa resiliência passa não só pelo chamado "emprego digno", mas também pela aposta nos setores com mais valor acrescentado.

"Um emprego de qualidade tem que ser conjugado com o crescimento de setores económicos que têm maior valor acrescentado e também, tradicionalmente, dão melhores condições aos trabalhadores. Aí eu acho que há alguns sinais que podem não ser totalmente positivos. É o que nós temos tido no caso português e os últimos dados que têm sido disponibilizados [mostram] que a esmagadora maioria do emprego que está a ser criada é um emprego na hotelaria, restauração, comércio e, portanto, não estamos a conseguir reconstruir a economia, pelo menos, em relação ao mercado de trabalho dos jovens em setores que fazem um maior investimento nas pessoas, que pagam melhor e contribuem para uma carreira mais atrativa. É preciso conjugar as duas coisas", sublinha.

* Notícia atualizada às 09h50

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