Sudão à beira de golpe? Recolher obrigatório e voos cancelados

Há manifestações um pouco por todo o lado na capital sudanesa. A TSF falou com um morador e recebeu um vídeo de manifestações esta noite em Cartum.

PorRicardo Alexandre

"Amanhã estamos todos em casa aqui em Cartum", afirmou esta noite à TSF um funcionário de uma organização internacional que vive na capital sudanesa.

Cartum assiste a manifestações e contra-manifestações, umas a favor do governo civil, e outras a favor de um golpe militar. O general Burhan, chefe dos militares, parece cada vez mais apostado em fazer cair o governo.

Este chefe do Conselho de Soberania do Sudão, Tenente General Abdelfattah El Burhan, tem insistido que "não há solução para a situação atual, exceto a dissolução do governo de transição". Disse-o, por exemplo, num discurso na manhã de segunda-feira para oficiais, suboficiais e soldados do Distrito Militar do Norte de Cartum. Entende este líder que a "componente militar do governo de transição rejeita as tentativas dos seus homólogos civis de continuar o acordo na sua forma original" de 2019, de acordo com o site Dabanga, na capital do Sudão

El Burhan afirma que é necessário formar um Conselho Legislativo que represente todo o povo, "exceto os militantes do Partido do Congresso Nacional [do presidente destituído Omar Al Bashir]".

Há manifestações por todo o lado, como demonstra o vídeo que nos foi enviado e todas as companhias aéreas cancelaram os voos para o Sudão.

A partir da capital sudanesa, Zeinab Mohammed Salih escreve no site da Al Jazeera que "líderes pró-governo civil no Sudão convocaram protestos em massa na quinta-feira no meio de tensões crescentes entre os políticos responsáveis ​​por conduzir o país até às eleições".

As manifestações foram convocadas como resposta a uma outra, que decorre em modo contínuo, organizada desde a semana passada em frente ao palácio presidencial em Cartum, por uma aliança de grupos rebeldes e entidades políticas, que costumavam fazer parte das Forças de Liberdade e Mudança (FFC), uma coligação que liderou os protestos de meses que levaram à remoção do ex-presidente militar Omar al-Bashir em abril de 2019.

Em agosto desse ano, através de um acordo de divisão de poder entre os militares e o FFC, o país passou a ser administrado por um Conselho Soberano de membros militares e civis encarregados de supervisionar a transição até as eleições marcadas para 2023, bem como um conselho de ministros sob o primeiro mandato civil de Abdalla Hamdok.

No entanto, as tensões latentes dentro do FFC aumentaram nas últimas semanas, com vários grupos a afastarem-se da coligação e a unir forças para lançar uma nova Carta de Acordo Nacional. Os membros do grupo separatista queixam-se de terem sido marginalizados no período de transição que, segundo eles, é "monopolizado pelos partidos políticos principalmente centrais e urbanos que atualmente compõem o FFC: o Partido do Congresso sudanês, o Partido Umma, o Partido Socialista Árabe Baath - Região do Sudão e o Encontro Federal".

"Todos nós participámos da revolução de 2019, mas os quatro partidos arrebanharam tudo para si e todo o poder ficou entre os quatro", disse à Al Jazeera Mohamed Adam, líder do movimento do Exército de Libertação do Sudão de Mini Minawi, o atual governador de Darfur.

A contínua luta pelo poder desta semana é vista por analistas como a "pior e mais perigosa crise" que não só ameaça a transição política, mas o Sudão como um todo. Hafiz Ismail, analista de Cartum, acrescentou, em declarações ao correspondente da Al Jazeera: "Os grupos rebeldes têm as suas próprias agendas e o egoísmo de alguns membros do FFC, que não se importam com o que vai acontecer; é tão mau que chegámos a este nível. "

Os protestos desta quinta-feira coincidiram com o aniversário da revolução de 1964 no Sudão, que afastou do poder um governo militar liderado então pelo general Ibrahim Abboud. Ainda assim, as negociações com a liderança militar devem ser retomadas após os protestos.

Os civis esperam que os militares "entreguem a presidência do Conselho Soberano a uma pessoa civil", como estipulado pela declaração constitucional que foi assinada pelas duas partes em 2019. Embora os organizadores esperem que os protestos de quinta-feira sejam massivos, a fação separatista do FFC não tem intenção de desistir. No início desta semana, um autocarro carregado com pessoas de várias partes do Sudão chegou a Cartum para se juntar à manifestação em frente ao palácio presidencial.

A transição no Sudão está num momento crítico.

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