Analistas explicam que Johnson ficou com "enorme margem política" para governar

Ambiguidade política do Labour terá custado a eleição, explicam os investigadores.

Os resultados eleitorais no Reino Unido mostraram que os Trabalhistas pagaram um preço elevado pela ambiguidade política sobre o 'Brexit' e que o Conservador Boris Johnson tem agora enorme margem de manobra, segundo analistas consultados pela Lusa.

"A ambiguidade política paga-se!", disse à Lusa Francisco Bethencourt, historiador e professor do King's College, em Londres, no momento em que no écran do seu computador aparecia a informação de que este tinha sido o pior resultado do partido Trabalhista desde 1935.

Paulo Vila Maior, professor de Ciência Política na Universidade Fernando Pessoa, corrobora esta perspetiva e acrescenta que a vitória do partido Conservador foi também o resultado da estratégia política de Boris Johnson.

"A cartada de Boris Johnson compensou", explicou à Lusa Paulo Vila Maior, referindo à forma como o líder Conservador foi gerindo pausas e avanços e recuos no processo do 'Brexit', até conseguir centrar a campanha na questão da saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e sair "muito reforçado" na sua posição de primeiro-ministro.

"Os Trabalhistas nunca tiveram uma posição clara sobre o 'Brexit'", conclui Francisco Bethencourt, salientando a profunda divisão que o tema provocou na sociedade britânica e considerando que os eleitores preferiram posições assertivas.

O historiador, detentor da cátedra Charles Boxer do King's College, realça a margem de manobra política que esta vitória dará a Boris Johnson, com um dos melhores resultados do seu partido e na véspera da data-limite para a saída da UE.

"Agora, ele pode fazer o que quiser! Boris ficou com enorme margem política", afirma Bethencourt, para logo acrescentar o reverso da medalha desta situação, pois "agora já não há mais desculpas" para qualquer falhanço na estratégia de abandono da UE.

O facto de a libra ter valorizado contra o euro e o dólar, logo que foi anunciada uma previsão de vitória do partido Conservador, não espanta nenhum dos analistas, que olham para a reação dos mercados como um sinal de aprovação aos sinais de estabilidade política que a maioria confortável de Boris Johnson pode trazer.

Contudo, Paulo Vila Maior alerta para a possibilidade de esta valorização da moeda britânica poder ser momentânea.

"Vamos ver se não foi apenas uma reação instintiva. Vamos ver se daqui a uns dias não volta para os valores prévios à eleição", avisa o cientista político, que fez o doutoramento na Universidade de Sussex.

Paulo Vila Maior considera também que este resultado não terá grande impacto em Bruxelas.

"Sinceramente, julgo que o resultado é indiferente (para os dirigentes da UE)", explica, acrescentando que a comunidade está mais confortável do que o Reino Unido, "que foi quem começou todo o processo".

E ambos acreditam que a saída da União Europeia é um processo imprevisível, mas não necessariamente catastrófico.

"A data de saída é 31 de janeiro... até ver", diz Paulo Vila Maior, dizendo esperar que haja bom senso na forma como o futuro das relações entre Reino Unido e Europa será gerido.

"Não tem de ser necessariamente catastrófico", concorda Francisco Bethencourt.

Os dois analistas concordam ainda no impacto que terá um esperado reforço do Partido Nacional Escocês, que as previsões à saída das urnas apontam como um dos vencedores da noite eleitoral, prevendo um aumento de tensões independentistas.

"Esse crescimento vai reforçar as pretensões independentistas dos escoceses", considera Bethencourt, em linha com Vila Maior, que recorda a vitória dos eleitores da Escócia que preferiam a permanência na União Europeia.

Sobre o futuro político dos dois principais candidatos a primeiro-ministro, Bethencourt diz que Boris Johnson conseguir reformular todo o partido Conservador, ficando com carta branca para gerir a governação, e acredita que Corbyn se poderá manter à frente do partido Trabalhista.

"Ele tem o apoio dos movimentos que são muito ativos e eficazes nas redes sociais", diz o historiador.

Paulo Vila Maior tem mais dúvidas sobre o futuro dos Trabalhistas, considerando que ele falhou "rotundamente" na tentativa de colocar as questões de política interna na agenda eleitoral e que pagou um preço muito elevado.

O partido Conservador venceu as eleições legislativas no Reino Unido com uma maioria absoluta de 368 deputados, segundo uma sondagem comum divulgada hoje pelas três estações televisivas britânicas BBC, ITV e Sky.

A sondagem à boca das urnas indicou que o partido Conservador terá 368 deputados, o partido Trabalhista 191, o Partido Nacionalista Escocês 55, os Liberais Democratas 13 e o Plaid Cymru (nacionalistas galeses) três e os Verdes um assento.

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