"Uma etimologista de si mesma." Annie Ernaux é a vencedora do prémio Nobel da Literatura

Autora de "Os anos" e "O acontecimento", ambos publicados este ano em Portugal, foi a vencedora deste ano.

A vencedora do prémio Nobel da Literatura 2022 é a francesa Annie Ernaux, de 82 anos, autora de "Os anos" e "O acontecimento", ambos publicados este ano em Portugal pelo grupo Porto Editora.

O júri da Academia Sueca justificou a decisão "pela coragem e perspicácia clínica com que [Annie Ernaux] descortina as raízes, os indiferenças e os constrangimentos coletivos da memória pessoal."

A escritora francesa nasceu em 1940 e cresceu em Yvetot, na Normandia, onde os pais geriam uma mercearia e café. O seu caminho para a criação autoral foi longo e árduo.

Na sua escrita, Ernaux examina sob diferentes ângulos uma vida marcada por fortes disparidades de género, língua e classe. Apesar do estilo clássico, a autora autointitula-se "uma etimologista de si mesma", mais do que uma escritora de ficção.

A ambição de quebrar os padrões da ficção conduziu-a a uma tentativa de reconstituir metodicamente o seu passado, num tom autobiográfico que a Academia Sueca descreve como "uma prosa em bruto sob a forma de diário".

"É uma autora muito peculiar porque escreve sobre ela própria, sobre a sua vida, sobre a sua história, como se fosse uma personagem de ficção. Vai buscar factos reais da sua vida e transforma-os em romances", explica José Mário Silva, crítico literário do jornal Expresso, em declarações à TSF.

Marcada por uma "forte consciência social", muitos dos livros de Annie Ernaux partem também "partem do princípio de quem nasceu na pobreza e só mais tarde conseguiu chegar a outro estado social mais tarde na vida."

"É uma autora absolutamente luminosa e extraordinária. É um grande prémio Nobel", considera José Mário Silva.

O nome de Annie Ernaux, voltou a ser falado como possível nomeada para o Nobel da Literatura depois da publicação do seu romance "L'événement" ("O Acontecimento"), que narra a angústia de uma jovem estudante francesa obrigada a fazer um aborto clandestino, em 1964, narrativa baseada na sua própria experiência.

Foi já distinguida com o Prémio de Língua Francesa (2008), o Prémio Marguerite Yourcenar (2017), o Prémio Formentor de las Letras (2019) e o Prémio Prince Pierre do Mónaco (2021) pelo conjunto da obra.

"Um Lugar ao Sol" (1984), vencedor do Prémio Renaudot, e "Os Anos" (2008), vencedor do Prémio Marguerite Duras e finalista do Prémio Man Booker Internacional, estão entre as obras mais conhecidas de Ernaux.

No anúncio do Nobel, o secretário da Academia Sueca indicou que até ao momento ainda não foi possível contactar a escritora francesa para lhe comunicar a atribuição do prémio.

A temporada de 2022 de anúncio dos prémios Nobel teve início na passada segunda-feira, com o de Medicina, e culmina esta sexta-feira com o da Paz.

A cerimónia de entrega do Nobel da Paz realiza-se a 10 de dezembro em Oslo, na Noruega, onde os laureados recebem o prémio, que consiste numa medalha e num diploma, juntamente com um documento que confirma o montante monetário do galardão, que este ano é de 10 milhões de coroas suecas (cerca de 919 mil euros, no câmbio atual) para cada categoria.

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