Antes dos acidentes com o Max 8, Boeing fez lóbi para limitar (ainda mais) a regulação

Nova legislação dá mais poder às fabricantes para introduzir novos sistemas e mudar o design de aviões. Foi aprovada semanas antes dos dois acidentes com os Boeing 737 Max 8.

Semanas antes dos acidentes com os aviões 737 Max 8, os lobistas da Boeing conseguiram alcançar uma das suas maiores vitórias de sempre: limitar o poder do Governo no design de novas aeronaves.

Os aviões que se despenharam em outubro e novembro do ano passado ainda foram alvo de avaliação segundo a lei anterior, mas as mudanças introduzidas tornam ainda mais difícil para os reguladores fiscalizar o trabalho da Boeing.

A conclusão é uma investigação do jornal norte-americano The New York Times, que entrevistou mais de 50 reguladores, executivos da indústria, equipas de trabalho de congressistas e lobistas, assim como documentos oficiais.

Para reduzir a burocracia, o Governo norte-americano tem vindo a entregar cada vez mais responsabilidade aos fabricantes de aviões, mas alguns parágrafos curtos introduzidos no meio de 463 páginas de legislação em 2018 contribuíram para cimentar definitivamente o poder da indústria.

Numa disputa sobre a segurança dos aparelhos, os fabricantes têm agora agora desafiar os reguladores, o que torna difícil para o Governo por em causa as decisões das empresas."Não é o maior interesse da segurança", alertou a Agência Federal de Aviação (F.A.A) aquando a redação da lei, o "Ato de Reautorização da F.A.A. de 2018".

A lei aplica-se a toda a indústria, não foi moldada à medida da Boeing, mas sendo esta a maior fabricante dos Estados Unidos é também a maior beneficiária.

No passado, os funcionários da F.A.A. podiam decidir delegar a supervisão à empresa ou manter o controlo, dependendo da importância de um sistema ou perante preocupações com a segurança. Agora, a agência de aviação perdeu a responsabilidade de certificar quase todos os aspetos dos novos aviões.

Se a F.A.A. decidir que um sistema pode comprometer a segurança, as novas regras determinam que é preciso conduzir uma investigação ou uma inspeção antes de poder recuperar o controlo.

Em outubro do ano passado, um avião da Lion Air despenhou-se no mar ao largo de Java, com 189 pessoas a bordo e meses depois, um avião da Ethiopian Airlines caiu na Etiópia, provocando a morte a 157 pessoas.

Os dois aparelhos registaram um erro no novo sistema automático de estabilização - o chamado MCAS, criado para corrigir a posição do nariz do avião - uma novidade do modelo Max 8.

Em resultado, os pilotos receberam leituras incorretas do sensor e a tripulação não conseguiu desligá-lo. O nariz dos dois aparelhos foi forçado a baixar e levantar sucessivamente em poucos minutos minutos até que a perda de controlo foi total.

A Boeing desvalorizou introdução do MCAS: nem F.A.A. Analisou a fundo o novo sistema, nem os pilotos receberam formação sobre o que fazer caso este falhasse.

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