Argélia celebra 60.º aniversário da independência com primeiro desfile militar

Este é o primeiro desfile militar em 33 anos. São esperados vários convidados, incluindo os presidentes palestiniano, tunisino e nigeriano.

A Argélia celebra hoje o 60.º aniversário da independência de França, depois de 132 anos de colonização francesa, com o primeiro desfile militar em 33 anos.

Desde sexta-feira à noite, as autoridades encerraram 16 quilómetros de estrada, onde o exército tem realizado os ensaios nos últimos dias para o desfile militar, o primeiro em 33 anos, de acordo com a agência de notícias France-Presse (AFP).

O encerramento da principal estrada de acesso ao centro da capital causou enormes engarrafamentos nas estradas que ligam a cidade até aos subúrbios, escreveu ainda a AFP.

Vários convidados, incluindo os presidentes palestiniano, tunisino e nigeriano deverão participar neste desfile militar, que será supervisionado pelo chefe de Estado argelino, Abdelmadjid Tebboune.

Ouvido pela TSF, Raul Braga Pires, especialista em assuntos árabes, diz que há vários temas que marcam estes 60 anos e que fazem da Argélia uma importante peça no xadrez geopolítico. Marrocos, França e as relações com Espanha, por causa do fornecimento de gás, são os temas mais sensíveis.

"Há um clima de paz fria entre a Argélia e Marrocos, que não teve precedente nos últimos 60 anos e isso também decorre da situação da Ucrânia, porque a Argélia é o principal aliado da Rússia no norte de África, no Magreb, e é a porta de entrada dos russos no Magreb", afirma.

Relativamente às relações com a França, Raul Braga Pires refere que continuam várias feridas abertas.

"A embaixada de França em Argel, Rabat e em Tunes cortaram automaticamente e apenas porque sim os pedidos de visto de argelinos e de marroquinos para França em 50% e na Tunísia em 30%. Isto criou uma situação de mal-estar entre estes países", defende.

Raul Braga Pires explica que estes conflitos são o mote das comemorações dos 60 anos da independência da Argélia.

"O ano da afirmação da independência e de potência regional enquadra-se perfeitamente neste clima de tensão com Marrocos. Esta necessidade de se afirmar regionalmente como potência e, ao mesmo tempo, esta afirmação enquanto potência regional é um sinal claro aos seus cidadãos de que se forem atacados, conseguem defender-se. Há um clima no Magreb que aponta para que a guerra também está aí para começar. O que é muito interessante é que ambas as partes convenceram-se de que o vizinho os vai atacar e nesse sentido preparam as suas defesas e exibem-nas também na rua em paradas militares", acrescenta.

Em 5 de julho de 1962, a Argélia declarou a independência, após 132 anos de colonização francesa e uma sangrenta guerra que durou quase oito anos.

Sessenta anos depois, as feridas ainda estão vivas em ambos os lados, apesar dos gestos simbólicos ao longo dos anos por parte de França.

Em setembro de 2018, um ano após ser eleito, Emmanuel Macron reconheceu que o jovem matemático comunista Maurice Audin morreu sob tortura pelo exército francês em 1957 e pediu perdão à viúva.

Após a publicação do relatório do historiador francês Benjamin Stora, em janeiro de 2021, comprometeu-se com "atos simbólicos" para tentar reconciliar os dois países, excluindo, porém, "arrependimento" e "desculpas", o que é recebido com frieza em Argel.

Esta segunda-feira, o Presidente francês pediu o "fortalecimento dos laços já fortes" entre a França e a Argélia numa carta ao homólogo, Abdelmadjid Tebboune.

Uma coroa de flores será colocada hoje em seu nome no Memorial Nacional da Guerra da Argélia e do Combate de Marrocos e Tunísia, em Paris, em homenagem às vítimas do massacre de europeus em Oran, no mesmo dia da independência, 05 de julho de 1962, anunciou o Palácio Eliseu.

* Notícia atualizada às 08h50

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de