As eleições na "última ditadura" europeia

A Bielorrússia, para muitos a ultima ditadura na Europa, tem eleições este domingo. O país é dirigido com mão-de-ferro há um quarto de século por Aleksandr Lukashenko. A oposição fala em adversários impedidos de concorrer, políticos perseguidos, cidadãos raptados.

O país faz fronteira com a Rússia, Polónia e Ucrânia, além de de Letónia e Lituânia. A oposição fala em adversários impedidos de concorrer contra o Presidente Aleksandr Lukashenko, políticos perseguidos, cidadãos raptados e violados, património cultural apreendido. É este o contexto para as eleições presidenciais em que o atual presidente, no poder desde 1994, tenta o sexto mandato.

A candidata Svetlana Tianovskaya, principal opositora de Lukashenko nas eleições presidenciais, cancelou na quinta-feira o último comício de campanha face aos obstáculos colocados pelas autoridades.

Katerina Droja é bielorrussa, foi jornalista, trabalha em comunicação, assume-se claramente como senso da oposição e vive há quatro anos em Lisboa. Afirma que nunca uma eleição ganha por Lukashenko foi considerada livre, transparente e justa: "nenhuma foi reconhecida pela comunidade internacional. Infelizmente o que está a acontecer é a violência; Lukashenko está a tentar ficar no poder a qualquer custo. Há pessoas raptadas, há pessoas violadas. As pessoas não podem dizer nem uma palavra contra o ditador. Há muitos presos políticos, os principais candidatos foram presos e estão ainda nas prisões" do regime de Lukashenko.

Sobre o cancelamento do ultimo comício da candidata da oposição, remete para a criatividade dos bielorrussos na forma como lidam com o regime: "Cada vez temos de inventar coisas novas e mais criativas; quando o Governo organizou uma festa popular no local que estava previsto para o comício da oposição, Tijanovskaya chamou toda a gente para aquela festa e as pessoas foram lá apoiá-la e fazer uma espécie de flash mob."Apesar de o pedido de autorização do comício ter sido efetuado com alguma antecedência, as autoridades decidiram organizar diversas iniciativas para os únicos locais autorizados para comícios em Minsk, incluindo o Parque da Amizade dos Povos, onde deveria decorrer o comício da oposição. A candidata da oposição recorreu à Procuradoria e à Comissão eleitoral central, mas excluiu a possibilidade de convocar os apoiantes para saírem às ruas em protesto. Tijanovskaya, que sempre defendeu iniciativas pacíficas, acusou Lukashenko de pôr entraves à sua campanha, sobretudo após ter recebido o apoio de outros candidatos.

Rússia: tão amigos que nós... éramos

Estas são eleições que despertam interesse, no mínimo, regional, apimentadas pela detenção na quarta-feira, de 33 funcionários de segurança russos na Bielorrússia. Moscovo vê o caso como um truque eleitoral e avisou que vai ter graves consequências para as relações entre os dois países e aliados.

As autoridades de Minsk detiveram os russos nos arredores da capital bielorrussa a 29 de julho, acusados de planearem distúrbios durante manifestações da oposição na sequência das eleições presidenciais do próximo domingo, em que o Presidente Alexander Lukashenko tenta um sexto mandato.

O Kremlin pediu a libertação dos russos, alegando que apenas estavam na Bielorrússia porque perderam um voo de ligação com outro país.

Nos últimos tempos, o país foi usada como plataforma de mercenários da empresa russa Wagner, que atua em cenários como a Síria, Líbia, Ucrânia, mas também Cabo Delgado em Moçambique ou Sudão.

A verdade é que, ao contrário da maior parte dos países, que entram e saem de períodos de confinamento, na Bielorrússia não há quaisquer medidas contra a Covid-19, as fronteiras estão abertas e os voos internacionais não têm restrições.

Sem mencionar o nome de Lukashenko, Dmitri Medvedev, numero dois do conselho de segurança russo, descreveu a detenção destes funcionários como parte de "uma simples maquinação política, criar uma imagem de um inimigo e alcançar um objetivo político utilizando essa imagem do inimigo", alertando para o facto de o incidente implicar "tristes consequências".

Há 26 anos no poder, o autoritário Lukashenko tem dependido de empréstimos e contribuições russas para manter a economia do país, que funciona ao "estilo soviético", mas tem resistido às intenções de Moscovo em controlar setores decisivos da economia bielorrussa.

No poder desde 1994, o líder bielorrusso acusou Moscovo de apoiar a oposição, uma alegação desmentida pelo Kremlin. As relações entre a Rússia e a Bielorrússia são tradicionalmente cordiais, mas marcadas por momentos de tensão relacionados com questões energéticas. Nos últimos meses, Lukashenko tem multiplicado declarações em que denuncia pressões russas, acusa Moscovo de pretender tornar o país um Estado-fantoche e vassalo e de procurar manipular as eleições presidenciais. O Kremlin tem negado.

As relações bilaterais da Bielorrússia com os Estados Unidos também estão desgastadas, devido ao apoio dado pelo Departamento de Estado americano a diversas organizações não-governamentais antiLukashenko, e porque o governo bielorrusso tem, alegadamente, dificultado as operações no país a organizações que tenham sede nos Estados Unidos.

Lukashenko acima da lei

Já em 2015, a vencedora do Nobel da Literatura 2015, a jornalista e escritora bielorrussa Svetlana Alexjevitch dizia "em poucos dias, acabaremos num país, onde nenhum dos princípios do humanismo funciona".

A forma como poder de Lukashenko geriu a questão da pandemia, para muitos foi a gota de água: "as pessoas veem os seus familiares a morrer e Lukashenko diz que a covid não existe e que devem ir para a sauna e beber vodca". Já morreram quase 600 pessoas, há quase 70 mil infetados oficialmente, mas o número pode ser bem superior.

No entanto, a Bielorrússia ocupava a 53ª posição entre 189 países no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, e está no grupo dos países com "desenvolvimento muito elevado". Com um sistema de saúde eficiente, tem uma taxa de mortalidade infantil muito baixa de 2,9 (em comparação com 6,6 na Rússia ou 3,7 no Reino Unido). A taxa de médicos per capita é de 40,7 por 10 000 habitantes (26,7 na Roménia, 32 na Finlândia, 41,9 na Suécia) e a taxa de alfabetização é estimada em 99%. Nem tudo está mal, portanto. Katerina justifica-o com a "educação e a capacidade da sociedade civil". Garante mesmo que, em relação ao presidente, "as pessoas perderam o medo. Não querem imaginar-se a viver mais cinco anos sob a ditadura de Lukashenko".

E se no domingo Lukashenko voltar a vencer?

"É provável que muita gente vá sair para a rua no dia seguinte às eleições", afirma a jornalista e ativista da oposição que pondera a realização, para breve, de uma manifestação contra Lukashenko em Lisboa. E denuncia: "também é provável que Lukashenko vá usar as armas" contra a população que o contesta. Sonha com o dia em que o líder bielorrusso saia do poder - "espero que não seja de uma forma muito violenta" - de modo a "começar a construir um país independente e livre". Se tal não acontecer, adverte, "a Europa vai ganhar uma Coreia do Norte aqui ao lado".

A organização Freedom House, que avalia os países de acordo com o seu grau de liberdade de expressão, numa escala que vai de 1 a 100, entende que a Bielorrússia é um país não livre, em que os direitos políticos são pontuados com 5 num máximo de 40 e as liberdades cívicas com 14 num máximo de 60. Mas o número que mais motiva Lukashenko é o seis. Ordinal. O Sexto mandato pode começar domingo.

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