Ataques em Moçambique. "É de esperar" posição mais firme por parte do Governo português

D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, pede uma posição mais firme por parte do Governo português. Hizidine Achá, jornalista em Pemba, conta à TSF é um cenário de desespero e morte.

Há famílias desesperadas em Pemba, à espera do barco que deve chegar nas próximas horas, com refugiados da cidade de Palma. Durante o dia de domingo, chegou o primeiro navio com mais de 1200 pessoas, que desembarcaram sob fortes medidas de segurança.

O acesso aos jornalistas foi vedado, mas Hizidine Achá, correspondente da Sociedade Independente de Comunicação em Pemba, descreve o que conseguiu ver: urnas e ambulâncias a sair, perante uma multidão em desespero. "Estava lá muita gente, mesmo sem saber se o familiar vinha ou não. As famílias não tiveram contacto, porque saíam do autocarro para os acampamentos e para o aeroporto, e acabaram por abandonar o local."

Naquele lugar, diz, há "muitas pessoas desesperadas".

"Havia pessoas a chorar, sem saber o que terá acontecido com os seus parentes. Estavam a chorar porque não há essa informação, e também vão chegando feridos. Vemos ambulâncias a entrar e a sair, urnas a entrar e a sair, tudo isso de forma secreta."

Hizidine Achá conta à TSF que a operação está a ser rodeada por um grande secretismo. Os refugiados foram encaminhados para outros locais, sem contacto com os familiares. Foram operacionalizados voos de regresso para as zonas de origem, "em princípio, para Maputo", e "muitos estrangeiros, de várias nacionalidades - franceses, portugueses, sul-africanos, indianos" - também estão a regressar aos respetivos países.

A informação é escassa, mas Hizidine Achá adianta que tudo indica que a cidade de Palma está agora deserta. "Não há comunicação até hoje. Ninguém sabe dizer o que se vive em Palma, mas o Ministério da Defesa diz que a vila está nas mãos dos militares, das forças de segurança, mas não há forma de confirmar isso. Parece-me que a vila está completamente abandonada."

Em declarações à TSF, D. Jorge Ortiga, arcebispo de Braga, pede urgência no apoio a Cabo Delgado. O clérigo considera que Portugal e a comunidade internacional estão a demorar muito e que não é possível perder mais tempo, porque a situação é muito grave. A cada dia que passa, há mais mortos, desalojados e "pessoas massacradas".

"A situação está a revestir-se de muita gravidade, e parece-me que a comunidade internacional, e não sei se também Portugal, está a demorar tempo demais", defende. "Olho para aquelas pessoas que sofrem, para aquelas crianças, para aquelas famílias. Isso incomoda-me tremendamente. Não podemos ficar insensíveis a esta situação."

Confessando o incómodo, D. Jorge Ortiga lembra que Portugal tem uma responsabilidade acrescida, por ser Moçambique "um país a que estamos ligados com certos laços humanos de solidariedade e fraternidade". Por isso, acrescenta o arcebispo de Braga, "é de esperar" uma posição mais firme por parte do Governo português.

"É tempo de refletir, mas sobretudo de agir", exorta.

A vila de Pemba, sede de distrito que acolhe os projetos de gás do Norte de Moçambique, foi atacada na quarta-feira por grupos insurgentes que há três anos e meio invadem a região.

A violência está a provocar uma crise humanitária com 700 mil deslocados e mais de duas mil mortes. Algumas das incursões ocorridas entre entre junho de 2019 e novembro de 2020 foram reivindicadas pelo Estado Islâmico (EI), mas a origem dos ataques continua sob debate.

* Atualizado às 10h34

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