Atingir a imunidade de grupo "não é possível" com a variante Delta, diz criador da vacina AstraZeneca

Um dos criadores da vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19 já não acredita que seja alcançada a imunidade de grupo, dada a dominância da variante Delta.

Andrew Pollard, diretor do Centro de Vacinação de Oxford, não vê como uma "possibilidade" a meta da imunidade de grupo, com a variante Delta do coronavírus em circulação e a dominar os contágios. O investigador, que esteve à frente dos estudos para a vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19, afirma agora que os planos de vacinação devem orientar-se para outros objetivos que não sejam a imunidade de grupo.

Isto porque, segundo afirmou o responsável em declarações frente aos deputados britânicos no Parlamento, a variante Delta faz com que "o vírus continue a infetar pessoas, mesmo as vacinadas, por isso os não-vacinados poderão ser infetados a qualquer altura", conta esta quarta-feira o jornal The Guardian.

Andrew Pollard também argumenta que pode surgir uma nova variante, "talvez ainda mais transmissível entre as populações vacinadas", pelo que esse objetivo da imunidade de grupo se tornou obsoleto. No entanto, nas declarações no Parlamento britânico, o investigador explicou que a doença poderá passar, após uma fase de consolidação, de "epidémica" a "endémica", no Reino Unido.

Dados de um estudo da Imperial College London sugerem que é agora possível que o "nível do vírus nas pessoas vacinadas que estão infetadas com a variante Delta pode ser semelhante ao encontrado em pessoas não vacinadas". No Reino Unido, num universo de 1500 pacientes internados com a variante Delta desde 19 de julho, 55% não tinham sido vacinados, contra 35% que apresentavam a vacinação completa.

Rowland Kao, epidemiologista da Universidade de Edimburgo e investigador que contribui para o SPI-M, um modelo do Department of Health and Social Care criado por cientistas que aconselham o Governo acerca da transmissão do vírus, explica à TSF que "a combinação da imunidade natural com a vacinação pode ter o efeito de imunidade de grupo, mas a vacinação por si só pode não ser suficiente com a ocorrência de um número significativo de casos".

Para o especialista, a resposta não é avançar para mais doses da vacina, já que, "além da segunda injeção, não há muito impacto".

"Os reforços são uma questão diferente, que têm como objetivo aumentar a imunidade quando houver evidências de que esta está a diminuir, provavelmente mais de seis meses após a segunda injeção. Também podem ser usados ​​para introduzir novos elementos nas vacinas para combater variantes, mas resta uma grande questão: se essa é a forma mais útil de usar as doses de vacina, em oposição a dar mais doses a países com baixas taxas de vacinação até agora."

Rowland Kao também admite que o maior problema reside em as pessoas ficarem gravemente doentes, serem hospitalizadas e morrerem. "Há algumas evidências - números baixos - de que as pessoas vacinadas que são infetadas têm tanto vírus quanto as não vacinadas, mas livram-se mais rapidamente dele. Por isso, contribuem para a transmissão, mas não ficam realmente doentes."

"Se pudermos reduzir os casos graves, provavelmente poderemos permitir níveis mais normais de atividade. A questão é se essa estratégia é ou não mais ou menos provável de gerar o que são chamados 'mutantes de fuga', isto é, vírus que fogem das vacinas. Se isso acontecer, e também estiverem na origem de doenças graves, pode implicar que as coisas retrocedam em termos de restrições."

Ravindra Gupta, investigador da Universidade de Cambridge e membro do New and Emerging Respiratory Virus Threats Advisory Group, que aconselha o Governo britânico, reforça, em resposta à TSF, que "continuamos a poder ser infetados apesar da vacinação, por isso as vacinas devem ser avaliadas pela proteção que fornecem em relação à doença severa e à morte".

Com a métrica da imunidade de grupo a distanciar-se do campo das possibilidades, o professor de Microbiologia sugere que se monitorize o número de novas infeções e de casos graves de Covid-19. "Podem surgir novas variantes entretanto; é por isso que devemos manter o número de infeções o mais baixo possível. É também possível que precisemos de mais reforços vacinais, depois da segunda dose."

Também em Portugal a variante Delta é a dominante, com uma frequência relativa de 98,9%, segundo os dados mais recentes. Esta variante é mais contagiosa, segundo o epidemiologista Rowland Kao, porque "parece resultar em cargas virais mais altas, o que se traduz em mais vírus quando alguém espira ou tosse; significa que, para cada contacto, há uma maior probabilidade de que pelo menos algum vírus seja inalado". Ravindra Gupta analisa que tal se deve à maturação mais elevada da proteína spike.

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