Barnier: acordo do Brexit "é difícil, mas possível"

A afirmação de Michel Barnier afasta os rumores que circularam em Londres, que davam conta da rutura das negociações.

O negociador chefe da União Europeia para o Brexit, Michel Barnier, classificou esta quarta-feira como "muito difícil" a possibilidade de ser alcançado um acordo para a saída do Reino Unido da União Europeia, embora considere que "ainda é possível".

Questionado no Parlamento Europeu, antes da sessão plenária em que apresenta um ponto da situação sobre o andamento das "negociações sobre o Brexit", na antecâmara da reunião do Conselho Europeu, Michel Barnier considerou "difícil, mas sempre possível, embora difícil", enquanto decorrem as negociações.

"[Mantemos] o mesmo procedimento todas as semanas, (...) em qualquer caso a União Europeia permanecerá calma, vigilante, respeitadora e construtiva", afirmou, prosseguindo - sem responder se considera respeitadora a atitude do Reino Unido -, para dizer que as "discussões técnicas continuam e eu convidei o, [secretário britânico para o Brexit] Steve Barclay para um almoço de trabalho amanhã".

A afirmação de Michel Barnier afasta os rumores que circularam em Londres, que davam conta da rutura das negociações, após um telefonema entre os governos de Londres e Berlim. Ainda ontem, a porta-voz da Comissão Europeia, Mina Andreeva também negou uma tal rutura, uma vez que havia "negociações técnicas marcadas e a acontecer". Mas, agora, a declaração de Barnier evidencia que as conversações prosseguem, incluindo ao nível político.

Já na sala do plenário, Barnier admitiu, porém que "no momento em que estou a falar com vocês [os eurodeputados], não estou a ver como encontrar um acordo. O tempo está a esgotar-se".

"Continuaremos a trabalhar e acho que posso dizer hoje que, mesmo que seja muito difícil, - muito difícil -, se houver boa vontade de ambos os lados, um acordo ainda é possível com o britânico", frisou.

Avisos

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker iniciou o discurso perante o plenário, a falar dos progressos, em matéria de integração, realizados pela Macedónia e pela Albânia, admitindo que a porta do alargamento deve abrir-se a estes dois países.

Porém, "à medida que a União Europeia avança, devemos também lidar com a saída de um estado membro", já que "essa foi a escolha do povo britânico, não a escolha da União Europeia, embora estejamos a respeitar essa escolha".

"Continuamos em discussões com o Reino Unido sobre os termos da saída", afirmou Juncker, descartando as responsabilidades do bloco, no caso de uma saída abrupta, uma vez que ele "pessoalmente não exclui um acordo".

Mas, a declaração veio acompanhada de um aviso expresso com raro dramatismo: "Gostaria de repetir, à atenção dos nossos amigos britânicos que não é apenas um parlamento em Westminster que precisa concordar com as regras", remetendo para as responsabilidades que o Parlamento Europeu também terá na decisão.

Extensão ou nenhum acordo

Na abertura da sessão plenária, o presidente do Parlamento Europeu, David Sassoli relatou as preocupações que expressou ontem ao primeiro-ministro britânico, no encontro que ambos mantiveram em Londres, na sequência do convite de Boris Johnson.

"Apesar de alguma confiança e esperança, vi que não há muito progresso no momento", lamentou Sassoli, frisando que "qualquer acordo alcançado entre a União Europeia e o Reino Unido deve obter não apenas o voto da Câmara dos Comuns, mas também a aprovação do Parlamento Europeu".

David Sassoli deu conta da sua apreciação sobre a mais recente proposta apresentada pelo Reino Unido como uma alternativa ao backstop original, considerando que elas "não constituem atualmente uma base para chegar a um acordo" e são apenas "ideias".

"Não são propostas que possam ser implementadas imediatamente", considera Sassoli, avisando que neste momento identifica apenas "duas alternativas: a extensão ou nenhum acordo".

"É claro, que o Parlamento está aberto à possibilidade de uma extensão", confirmou, apontando para a necessidade de "haver razões válidas ou objetivos precisos" para que uma tal extensão seja concedida, mas "solicitar a extensão é uma responsabilidade e uma prerrogativa do Reino Unido".

Extensão longa

Em Bruxelas circulou esta quarta-feira a informação sobre uma ideia que aponta para a possibilidade do prazo de uma extensão poder vir a ser amplamente maior do que os três meses inicialmente discutidos, apesar das resistências do primeiro-ministro Boris Johnson em assumir a necessidade de uma extensão.

O jornal britânico The Guardian cita fontes diplomáticas da União Europeia, as quais admitem a manutenção do Reino Unido na União Europeia, durante todo o primeiro semestre de 2020, até junho.

A discussão sobre esta possibilidade ganhou força depois de ter ficado quase como um ponto assente, após o telefonema entre a Boris Johnson e chanceler alemã, Angela Merkel, que o acordo entre Londres e o bloco europeu seria praticamente impossível.

Ontem, numa chamada entre Berlim e o número 10 da Downing Street, Merkel terá dito da Jonhson que achava "extremamente improvável" um acordo, que não incluísse a manutenção permanente da Irlanda do Norte na União Aduaneira.

A ideia é inaceitável para Londres, e Boris Johnson colocou de imediato um porta-voz do seu governo a dizer que se a afirmação da chanceler "representar uma nova posição estabelecida", tal significará que "o acordo é virtualmente impossível (...) para sempre".

Com a ironia que o caracteriza, Donald Tusk não perdeu tempo a criticar Johnson, lembrando-se que o que está em causa "não é um jogo de culpas", mas sim "o futuro da Europa e do Reino Unido, assim como a segurança e os interesses do nosso povo".

"Não queres um acordo, não queres uma extensão, não queres revogar... quo vadis? [Para onde vais?, em latim]", questionou o presidente do Parlamento Europeu.

Proposta de Londres

Na semana passada, Boris Johnson fez chegar a Bruxelas uma proposta, que do seu ponto de vista, constituiria uma alternativa, ao backstop para Irlanda, através de controlos múltiplos, no mar e em dois pontos diferentes, distantes da fronteira, entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda.

Porém, Bruxelas considera que os modelos apresentados não são uma alternativa credível. De um modo geral, o plano passa por "recauchutar ideias antigas" que eles próprios tinham apresentado, e que já se tinha verificado que "não funcionam", comentou com a TSF uma fonte próxima das negociações.

Na Comissão Europeia o plano de Boris Johnson foi amplamente descredibilizado. A análise feita por Bruxelas chega a uma lista de pontos críticos, sobre o texto da proposta em que consta, por exemplo, o alerta sobre a possibilidade das pequenas e médias empresas beneficiarem de isenções aduaneiras inaceitáveis, além de não apresentar propostas concretizáveis sobre a forma de evitar o contrabando.

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