Bielorrússia: a última peça da viagem inacabada de tornar a Europa una e livre

Foi embaixador britânico na Bielorrússia e é investigador sénior do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais. Diz que é uma "falsificação escandalosa" o resultado das eleições no país. A entrevista de Nigel Gould-Davies na TSF.

Prof. Nigel Gould-Davies, o senhor é especialista em Rússia e Eurásia, foi diplomata em Minsk; qual é o seu comentário sobre os eventos mais recentes na Bielorrússia com três mortes, no mínimo, mais de três mil pessoas detidas, repressão de protestos após a declaração de vitória de Lukashenko? Qual é a sua opinião sobre o que está a acontecer?

Os resultados são assustadoramente e escandalosamente falsificados e isso enfureceu as pessoas mais uma vez, fazendo-as sair às ruas. As autoridades estão a responder com a força, vimos forças de segurança interna a comportarem-se de forma brutal, a disparar balas de borracha e a espancar seriamente as pessoas. A escala destes protestos, não apenas no tamanho mas na dimensão geográfica, em termos de abrangência do território, é algo absolutamente sem precedentes. Na Europa não vemos nada assim desde 1989, quando os regimes do bloco soviético caíram, um a um. A questão é: o que acontece a seguir? A oposição apelou a uma greve geral por tempo indeterminado, as autoridades podem assustar as pessoas mas não as podem obrigar a trabalhar. E algumas empresas e fábricas principais já anunciaram que vão aderir a essa greve.

Temos então uma sociedade mobilizada cuja única exigência é a de eleições livres e justas, contra o poder de um estado autoritário. O que realmente vai importar ver nos próximos dias é a atuação de figuras-chave em torno de Lukashenko, perceber o que fazem. Continuarão a fazer o que ele diz e a seguir as ordens dele ou há massa crítica para entender que já chega, é demais, e não querem ser mais cúmplices desta repressão. Em particular, o que vão fazer os militares. Os militares foram destacados para Minsk, ainda não foram diretamente envolvidos na repressão mas claramente Lukashenko quer poder usá-los, se as forças de segurança interna não se revelarem suficientes. Os militares não se podem comprometer com este tipo de atuação, são profissionais, devotados a defender o país de uma ameaça externa e não para reprimir os próprios cidadãos. Têm então de perceber onde reside a sua lealdade.

Nenhuma das eleições anteriores vencidas por Lukashenko foi considerada livre, justa e transparente pela OSCE e outros organismos internacionais e ainda assim ele permaneceu no poder. Pensa que é Moscovo, apesar de disputas ocasionais relacionadas com a energia ou do desejo russo de aprofundar os laços políticos após o Acordo de 2009, mas é Moscovo que mantém Lukashenko no poder?

Sim. Lukashenko tem basicamente governado um país sem reformas, e porque não fez reformas, porque não fez essa transição, depende de subsídios através de energia barata da Rússia. A Rússia já deixou bem claro que vai acabar com esses subsídios, a Bielorrússia vai ter de pagar mais, a Rússia está também a tentar construir condutas que vão levar o gás ao redor da Bielorrússia em vez de passarem por território bielorrusso, portanto a posição de Lukashenko torna-se cada vez mais vulnerável. Mas para já sim, tem sido Moscovo a manter o poder bielorrusso à tona, mas tudo se deve à falta de reformas da economia que faz com que o país não seja economicamente independente, ao contrário de todos na vizinhança. É portanto uma relação estranha e disfuncional e, em último caso, insustentável.

Apesar do caso de dezenas de seguranças russos detidos em Minsk na semana passada, Moscovo - além de Pequim - reconheceu a vitória de Lukashenko...

Putin foi um dos primeiros líderes a congratulá-lo. O que Putin quer é um Lukashenko enfraquecido, isolado do ocidente, mas que ele possa trazer para uma qualquer relação de ainda maior dependência com a Rússia. Não atua nos interesses de Lukashenko, querem sim um líder vulnerável e enfraquecido que possam controlar.

Porque qualquer outra alternativa a Lukashenko seria pior para Moscovo?

Isso pode ser a visão de Moscovo mas não é necessariamente verdade. De todos os candidatos nestas eleições, aqueles que foram autorizados a concorrer e os que foram banidos, aquele que tem pior relação com a Rússia é o próprio Lukashenko. Ele tem sido muito rude com a Rússia, e com o Kremlin em particular, fez declarações muito anti-Rússia sempre que isso lhe podia servir. A líder da oposição, Svetlana Tchikanovska já disse que quer ter boas relações com a Rússia. Não há nada de anti-Rússia, no que quer que seja, em toda a oposição. Eles só querem saber de eleições livres e justas no seu país, não há nada de agenda de política externa envolvida. Penso que uma política russa mais criativa, poderia ver que uma alternativa a Lukashenko seria melhor, mas eles não têm essa visão no momento.

E qual deve ser o papel da União Europeia (UE) nesta crise?

A união Europeia deve ser muito clara em dizer que a contínua repressão de bielorrussos pacíficos é inaceitável e que não faz acordos com o regime de Lukashenko. Em particular, deve dizer aos militares bielorrussos que qualquer envolvimento na repressão doméstica, terá como consequência o fim de qualquer ligação, acordos, intercâmbios, e esse tipo de cooperação. Quanto a Lukashenko e os que estão ao seu redor, a União Europeia precisa de dizer muito claramente que haverá mais sanções severas, se este situação se deteriorar.

Podemos comparar o que está a acontecer com a Sérvia em 2000? O poder de Milosevic a roubar nas eleições, protestos, apelos à greve geral e, por fim, a queda do regime...

Concordo. E vou mais longe: a Bielorrússia é a última peça da viagem inacabada de tornar a Europa una e livre. Começou em 1989, o ano milagroso; dois anos depois, o fim da União Soviética. Nos anos noventa, tivemos as guerras sangrentas nos Balcãs, muito devido aos esforços de Milosevic em permanecer no poder, foi um processo horrível que gerou sete novos estados livres ou parcialmente livres que daí emergiram. Depois tivemos a Ucrânia em 2004 e 2014. Protestos em massa e pacíficos de pessoas que querem poder controlar o seu próprio futuro; o país que resta é a Bielorrússia, podemos colocar o que está a acontecer nesse contexto mais vasto.

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