Bielorrússia. "Medo? Claro que sim. Todos podemos ser presos a qualquer momento"

Melitina Stanoiuta, ex-ginasta, mais de dez medalhas em mundiais pela Bielorrússia. Tem 26 anos e só conheceu um presidente: o ditador Lukashenko. Assinou um manifesto de desportistas a favor da liberdade no país.

Ouça aqui a entrevista n'O Estado do Sítio de 21 de novembro de 2020

O que é que pensa sobre a atual situação no seu país?

Já mostrei o meu ponto de vista em julho, quando fiz no Instagram uma publicação sobre as detenções a que assistia na rua. Lembro-me como se fosse hoje, estava a passear na cidade, a passear no parque com uns amigos quando vi uns tipos vestidos de negro, que se dizem uma espécie de polícia. Estavam a prender um estrangeiro, com ar de asiático, que não parava de gritar em inglês: "Eu sou estrangeiro". Depois de tudo isto decidi descrever o que assisti nas minhas redes sociais, acrescentando que era injusto, que vivíamos numa democracia. Isso valeu-me ser despedida do meu trabalho na televisão do estado. Era um programa semanal de entretenimento, não tinha nada que ver com informação. Eu entendo, eu sou uma ginasta, não sou política ou jornalista e posso fazer o meu trabalho. Depois de 20 anos de carreira na ginástica rítmica, era engraçado levar o desporto para a televisão

Quando é que decidiu que devia falar, que não podia mais ficar em silêncio?

Honestamente? Eu nunca conheci outro Presidente. Tenho 26 anos de idade e o Lukashenko está no poder há 26 anos. Infelizmente o desporto de alta competição é uma espécie de círculo restrito e não temos muito tempo para aprofundarmos outras áreas. Mas eu sei como vive a minha avó, lembro-me de nas eleições de 2010 uma amiga muito chegada me ter mostrado as nódoas negras. Pouco a pouco, fui percebendo as coisas e fica muito óbvio que quando acabamos a carreira como atletas de alta competição somo dispensados, já não precisam de ti. Para mim, a gota que fez transbordar o copo foram os discursos do Presidente na televisão e as muitas detenções. Não podia dormir, pura e simplesmente não conseguia; sentia uma ansiedade tão grande... E depois, tudo foi piorando.

Sente que há uma solidariedade internacional no desporto em relação à situação na Bielorrússia ou nem por isso?

Sabe... diria que é 50/50. Eu recebo muitas mensagens de apoio de muita gente no mundo do desporto. Na Bielorrússia é diferente, eu sou a única ginasta que falou, ao contrário dos basquetebolistas ou de algum pugilista, talvez porque sejam uma equipa ou talvez porque as ginastas sejam todas muito jovens.

Sei que uma coisa que a afetou muito foi a forma como o Presidente Lukashenko tem vindo a classificar os manifestantes: são prostitutas, gado, alcoólicos... Qual é o seu comentário perante isso?

É um pouco como numa relação amorosa, amam-se e tudo corre bem, mas se um lado está todo o tempo a dizer que és uma cabra, uma prostituta, o amor quebra. Se não há respeito mútuo, o amor acaba. Conheço muita gente que adorava o Lukashenko antes destas eleições, votavam nele. E depois, este ano, mudaram de ideias com os discursos em que ele insultava todos os opositores. Muitos jovens votavam nele e este ano mudaram ainda antes das detenções em massa, em Abril ou maio, com todas as detenções feitas após os discursos dele. Ele estragou esse amor com os discursos.

Uma vez que se junta a esta campanha, e que foi despedida da TV estatal, pessoalmente sente receio pela sua segurança?

Claro que sim. Saí da Bielorrússia a 7 de agosto. Fui em trabalho à Rússia. Planeava regressar à Bielorrússia a 26 de agosto, mas por causa das publicações que fiz nas minhas redes sociais, mudei de ideias. Percebi que não era seguro. Nessa altura, Lukashenko começou a dizer que era preciso encontrar os líderes dos protestos, mesmo no estrangeiro. Eu, apesar de todas as minhas medalhas, fui despedida da TV estatal. Eu estava fora do país e percebi que devia permanecer no estrangeiro mais um pouco. Senti-me como uma espécie de refugiado. Saí do país em agosto sem roupas de inverno. De repente vi-me em Moscovo, em setembro já é bastante frio e eu tinha apenas umas roupas de desporto, e fiquei sem saber o que fazer nem para onde ir.

Felizmente que tenho bons amigos que estavam a viajar de carro de Minsk para Moscovo e pude pedir-lhes que metessem uns blusões numa mala. Por outro lado, hoje em dia os meus pais ficam mais calmos quando eu estou fora do país. Acabei por ficar na Rússia quase três meses. Quando regressei a Minsk senti uma grande tensão, estava muito nervosa. As primeiras 24 horas foram horríveis. Fiquei no meu país dez dias, pensava ficar apenas três ou quatro, mas a pessoa com quem estava a trabalhar foi presa. Agora estou na Ucrânia.

Portanto, nesta altura sente que não é seguro estar na Bielorrússia, nem para a sua família...

Sim, na verdade todos podemos ser presos a qualquer momento. Há muitas estórias, de pessoas que estavam apenas a fazer exercício físico ou a visitar amigos e acabaram detidas porque nas proximidades havia protestos. Sinto medo porque não me calo.

Svetlana Thikanowskaya é uma boa solução para o país?

O programa dela é fazer novas eleições e libertar os presos. Novas eleições livres é uma boa solução. Por isso o programa dela, para mim, é um bom programa.

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