Bolsonaristas passam do WhatsApp para a rua a pedir intervenção militar
Eleições no Brasil

Bolsonaristas passam do WhatsApp para a rua a pedir intervenção militar

Apoiantes do presidente Jair Bolsonaro, derrotado nas eleições de domingo, não acreditam na veracidade dos resultados eleitorais e pedem intervenção das Forças Armadas, algo que é ilegal. Foram centenas em São Paulo e que se multiplicam um pouco por todo o país.

16h24. Foi a esta hora que a primeira mensagem chegou, reencaminhada, a um grupo de Whatsapp de apoio a Jair Bolsonaro. A missiva pedia para que "todo o mundo" se dirigisse para "a frente dos quartéis". Aí, eram apresentadas várias moradas, entre elas, a do Comando Militar do Sudeste, na cidade de São Paulo.

Mais detalhes foram sendo dados e, em vários grupos, entre as habituais considerações sobre todo o processo eleitoral e seus protagonistas, seguia o apoio aos camionistas que estão a bloquear estradas pelo país todo, bem como apelos na necessidade de sair para a rua em protesto. E saíram mesmo.

Combinado para as 19h, um grupo de bolsonaristas começou a juntar-se e a crescer junto destas instalações militares com o objetivo de lhes pedir "ajuda" para intervirem. E porquê? Não acreditam que o processo eleitoral tenha sido justo.

"Acho que os militares têm de tomar o poder temporariamente para uma nova eleição dentro daquilo que a gente possa entender que é uma eleição legítima e real, a gente não reconhece essa eleição", diz à TSF Rafael Quirós enquanto, em fundo, se vai gritando "142".

E o que significa "142"? É o artigo da Constituição do Brasil que baliza a atuação das Forças Armadas: "As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem".

É com base neste artigo que estes manifestantes já há muito tempo defendem a possibilidade de as Forças Armadas agirem na mediação de conflitos entre poderes, algo que é manifestamente ilegal à luz de um parecer da Câmara dos Deputados e de diversos juristas citados pela imprensa brasileira.

No entanto, o próprio Bolsonaro, no passado, já deu gás à ideia numa reunião ministerial que foi vazada na internet onde, por outro tema, falava no artigo 142 a afirmar que, "havendo necessidade, qualquer dos poderes, pode pedir às Forças Armadas que intervenham para restabelecer a ordem no Brasil".

A "certeza" de fraude eleitoral

Na base desta vontade de intervenção militar - e que, por ser ilegal, seria um golpe -, está o facto de os apoiantes do atual Presidente do Brasil não acreditarem nos resultados expressos pelas urnas, falando numa "fraude" que "não pode ser legitimada".

"Tenho certeza de que foi roubado, tenho certeza de que tem muita coisa por trás disso e eu vou lutar todos os dias da minha vida para deixar um país decente para os meus filhos", diz a manifestante Critina Macu. Acrescenta José Roberto, confrontado com a posição do Tribunal Superior Eleitoral que validou os resultados, que "o papel da justiça eleitoral é esse: falar que correu tudo bem". "Mas a população sabe que não foi por aí", nota em seguida.

Também à porta deste comando militar, três senhoras que preferiram não se identificar, relatavam que "os mortos votam" em cidades onde, alegadamente, o número de votantes foi superior ao de eleitores registados. No entanto, essa foi uma das notícias falsas mais desmontadas por órgãos de comunicação social como a Lupa, Estadão, UOL ou a própria AFP, conforme citado no portal da Justiça Eleitoral.

Há até quem use o argumento estatístico, como é o caso do influencer Paulo Kogos: "Tendo em vista a maneira como a apuração das urnas se comportou, de forma estatisticamente anómala, isso evidencia fraude, logo não faz sentido um sujeito desses tomar o poder".

Mas onde foi buscar esses dados? "Isso um estudante de estatística de primeiro ano poderia aferir... Temos a abertura da apuração das urnas com vantagem de 6 pontos percentuais para Bolsonaro e aí ele começa a cair linearmente sem nenhuma oscilação. Então, de onde veio essa vantagem de seis pontos e porque é que ela não se repetiu no resto dos 94% da apuração? Isso é um comportamento de algoritmo e não um comportamento natural de uma eleição normal".

De resto, estes manifestantes são defensores do sistema de voto em papel e querem que a eleição seja feita nesses moldes porque, além de considerarem ser mais "fácil de auditar", fica "menos sujeito a fraude".

O silêncio de Bolsonaro

Mais de 24 horas depois dos resultados fechados, Jair Bolsonaro permaneceu mudo e quieto em Brasília, mesmo quando os protestos dos camionistas começaram a ganhar escala no país e a perturbar a ordem pública.

De resto, das figuras próximas ao Presidente, ninguém falou sobre o tema, apenas a deputada Carla Zambelli felicitou os camionistas e pediu para que eles "permaneçam" e "não esmoreçam". Num vídeo colocado entretanto, ao pedir "serenidade" à população, a parlamentar que protagonizou uma das cenas da campanha, ao puxar de uma arma na rua, diz que a eleição "não reflete o sentimento da maioria da população", parecendo também negar o resultado das urnas.

Ainda assim, um pedido: "aguardar o pronunciamento do presidente e apoiá-lo sobre todas as coisas".

Ora, nesta manifestação no Comando Militar do Sudeste, os manifestantes não veem problema na demora. "Ele é um cara muito estratégico, é um cara militar, ele sabe o que faz e deve ter uma carta na manga porque a população não está a aceitar isto, um ex-presidiário na liderança do Brasil", diz José Roberto.

Já Rafael Quirós tem duas hipóteses: "ou ele está esperando alguma coisa, talvez alguma análise mais profunda da parte técnica ou de empresas técnicas que possam avaliar se a eleição foi idónea ou não; ou, por outro lado, está bem chateado com o que está a acontecer e está resguardando o sentimento dele em relação a não ter sido, teoricamente, reeleito".

Certo é que, tantas horas passadas, a imprensa brasileira avança que o silêncio pode ser quebrado esta terça-feira. No caso, é esperar para ver, mas com a promessa dos bolsonaristas em continuar na rua todos os dias: "Aqui, amanhã é outra vez às 19h".

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