O Big Ben está em obras e não se vai ouvir
Reino Unido

Brexit day. A guerra dos três anos entre o Reino Unido e a União Europeia

Chegou a hora B, de Brexit. Quando os relógios marcarem esta sexta-feira as 23h00 (hora de Londres e de Lisboa), o Reino Unido e a União Europeia (UE) põem fim a uma relação de 47 anos. Até esta separação histórica, foram muitos os avanços e os recuos. Foram três longos anos de conversações, depois de um referendo que dividiu os britânicos. Pelo meio, chegou a cair a primeira-ministra Theresa May, cuja sucessão foi assegurada por Boris Johnson, o polémico ex-mayor da capital.

Já esta sexta-feira, antes da hora mais esperada por pouco mais de 50% dos britânicos, o primeiro-ministro Boris Johnson vai falar ao país, num discurso a partir da residência oficial, em Downing Street (Londres), onde um relógio projetado na fachada fará a contagem decrescente até à hora certa. Ao mesmo tempo, os correligionários de Nigel Farage - um dos políticos que mais se bateu pelo Brexit - devem estar a terminar a festa marcada para Westminster. O icónico Big Ben continuará sem tocar e, subitamente, a UE vai ficar mais idosa e vai perder 14% do Produto Interno Bruto (PIB). Mas o défice público vai descer muito.

Durante o dia, o Governo vai reunir-se fora de Londres, no Norte de Inglaterra, e as moedas comemorativas da data vão entrar em circulação.

Para trás, ficam 47 anos de uma união que nem sempre foi fácil. A 3 de agosto de 1961, Harolld Macmilam, o então chefe do Executivo britânico, apresentou um pedido de adesão do Reino Unido à antiga Comunidade Económica Europeia (CEE). De Gaulle, o Presidente francês, vetou a integração britânica. Em 1967, um novo pedido e um novo veto de Paris. Finalmente, a 1 de janeiro de 1973, já com o velho general francês fora de cena, o Reino Unido aderiu à CEE.

Mas (quase) tudo terminou depois de um referendo convocado pelo então primeiro-ministro David Cameron. A 23 de junho de 2016, 51,9% dos eleitores escolheram a saída do Reino Unido da UE - a Europa e o mundo ficaram estupefactos.

Moedas, bandeiras, humoristas. As celebrações do Brexit

Para assinalar a data, o Conselho de Ministros vai reunir-se no Norte de Inglaterra, onde a conquista de muitos eleitores ao Partido Trabalhista por parte dos conservadores garantiu a maioria absoluta nas eleições Legislativas de 12 de dezembro passado. O gesto sublinha a mensagem que o chefe de Governo tem passado para as regiões tradicionalmente trabalhistas: "Nós preocupamo-nos."

O primeiro-ministro já prometeu que o Reino Unido "aumentará" os gastos com segurança, hospitais e infraestruturas nas zonas mais desfavorecidas do país. À noite, Boris Johnson vai dirigir-se à nação a partir do número 10 de Downing Street. Fontes próximas do Governo, citadas pela imprensa inglesa, adiantam que a mensagem deste discurso será simples: "O país avança como um só." No fundo, vai procurar sanar as divisões criadas pelo Brexit e será tempo de "virar a página".

Em Westminster, no centro da capital, o Brexit vai ser celebrado com bandeiras nacionais em redor da Praça do Parlamento, palco de tantas manifestações, ao longo dos últimos anos, a favor e contra o Brexit. Na fachada da residência oficial do primeiro-ministro, será projetado um relógio com a contagem decrescente para a hora B. Está ainda previsto um espetáculo de luzes para sublinhar a união de quatro nações - Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte.

Do programa das celebrações não constam, porém, as badaladas do Big Ben, o sino da torre do relógio que faz parte dos edifícios do Parlamento, uma vez que está em obras desde 2017. Uma campanha de financiamento coletivo foi lançada pelo deputado eurocético Mark Francois para recolher os fundos necessários para deixar o Big Ben pronto a tempo da "festa".

Por seu lado, apesar de ter sido Boris Johnson a sugerir aos cidadãos, durante uma entrevista à BBC, para "darem uma moeda para o 'bong' do Big Ben", o primeiro-ministro acabou por se afastar da campanha. Embora se tenha escudado no elevado custo da operação, muitos veem nesta atitude uma tentativa de apaziguamento da sociedade britânica.

Já Iain Duncan Smith - um dos grandes impulsionadores do Brexit, deputado e ex-líder do Partido Conservador - disse à BBC que era "bizarro que a Grã-Bretanha" não pudesse ouvir o Big Ben, cujo "bong" descreveu como "sonoro e profundo".

As cerimónias oficiais merecerem também duras críticas de Nigel Farage, o líder do movimento "Leave Means Leave", que fez campanha pelo Brexit. "Se o Governo quisesse celebrar o Brexit, o Big Ben estaria pronto, mas o Governo parece estar envergonhado com o Brexit, em vez de querer celebrá-lo", considerou. "É quase como se disséssemos ao eleitorado que não acreditamos no Brexit, que a decisão não é tão boa como pensávamos - é patético", afirmou Farage à BBC.

Nigel Farage promete comediantes, discursos jubilosos, música, agitar bandeiras e uma gravação do Big Ben. À margem das comemorações oficiais, o seu movimento foi autorizado a fazer uma festa junto ao Parlamento, entre as 21h00 e 23h15 de 31 de janeiro.

O presidente do Partido do Brexit, Richard Tice, sugeriu o uso de fogo de artifício e disse na rádio LBC que, "de uma maneira ou de outra, o som do Big Ben vai ouvir-se naquela noite", acrescentando: "Temos um plano B, que será tocar muito alto através de uma aparelhagem de som."

Para celebrar a saída da UE, a Real Casa da Moeda britânica vai lançar três milhões de moedas de meia libra, com as palavras "Paz, prosperidade e amizade com todas as nações".

Mas afinal o que muda no imediato?

A partir de 1 de fevereiro, Londres deixará de enviar representantes para Bruxelas, mas continuará a reger-se pela legislação comum até ao final do ano. A principal mudança é legal e institucional. O processo do artigo 50.º está encerrado e não é reversível. Sexta-feira é o ponto de não-retorno à UE e inicia-se um período de transição de 11 meses, a fase mais dura.

As negociações formais só poderão começar depois de os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE aprovarem o mandato do negociador-chefe, Michel Barnier, o que deve acontecer a 25 de fevereiro.

As conversações vão incluir temas como comércio, segurança, relações internacionais, proteção de dados, pesca, cultura ou educação. Mas, com apenas 11 meses para negociar, o cenário mais provável é que se atinja apenas um acordo "básico", sobre comércio, pescas e segurança. Nas palavras da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyer, "é basicamente impossível negociar tudo".

O ministro britânico da Economia, Sajid Javid, já avisou que as empresas devem preparar-se para a possibilidade de não haver harmonização normativa com a União Europeia. "Não haverá harmonização, não acataremos ordens, não estaremos no mercado único e não estaremos na união aduaneira. E faremos isso até ao final do ano", referiu o governante, em entrevista ao Financial Times.

O ministro quer que as empresas dos setores farmacêutico, automóvel, aeroespacial ou alimentar "se ajustem" à nova realidade e lembrou que tiveram tempo para o fazer, desde que os britânicos foram chamados a escolher se queriam permanecer ou sair da União. Sajid Javid acredita que "algumas empresas beneficiarão e outras não" com o Brexit.

Outra data chave deste período é 1 de julho. Até este dia deve haver acordo sobre as pescas e o Reino Unido pode pedir o prolongamento do período de transição. No entanto, o acordo de saída aprovado pelo Parlamento britânico proíbe o prolongamento do período de implementação para lá de 31 de dezembro de 2020.

As garantias sobre direitos laborais e legislação ambiental estão fora do acordo de saída aprovado no Parlamento britânico, mas o Governo de Johnson assumiu o "compromisso de continuar com os mais altos níveis de direitos dos trabalhadores, normas ambientais e proteção ao consumidor" em legislação à parte. No fundo os britânicos comprometem-se a não fazer "dumping", uma das exigências dos 27.

O Reino Unido vai continuar, no entanto, a seguir 40 anos de legislação comum sobre tudo, desde financiamento a subsídios agrícolas, até ao final do ano.

Cidadania britânica na Europa

Os portadores de passaporte britânico continuarão a viajar e a trabalhar na UE, porque o país permanece no mercado único durante o período de transição, e a liberdade de circulação de mercadorias, pessoas e capitais se mantém até lá.

Depois poderão viajar no espaço Schengen sem visto por um máximo de 90 dias. Contudo, Bruxelas já esclareceu que, caso Londres introduza no futuro a obrigação de visto para os cidadãos de pelo menos um Estado-Membro, a Comissão Europeia, o Conselho, o Parlamento Europeu e os 27 atuarão "imediatamente" para exigir o mesmo documento aos britânicos.

Portugal e o Reino Unido assinaram em junho um acordo sobre as eleições Autárquicas. O acordo permite aos 23 mil britânicos residentes em Portugal participarem nestes sufrágios. Tiveram até 29 de março para se registarem nas autarquias.

Europeus no Reino Unido

Até 16 de janeiro, 231 mil dos 400 mil portugueses que o Governo de Lisboa estima que vivam no Reino Unido pediram residência.

No mês de dezembro, 10.700 portugueses apresentaram as candidaturas, tal como 139.500 outros europeus, ascendendo a quase 2,6 milhões o número de europeus que já completaram este processo.

De acordo com um relatório publicado pelas autoridades britânicas, até agora, 58% dos candidatos receberam um título permanente e 41% um título provisório, sendo que apenas seis candidaturas em quase três milhões terão sido recusadas devido à falta de elegibilidade, nomeadamente por terem cometido crimes graves.

O estatuto de residente permanente ("settled status") é atribuído aos que têm cinco anos consecutivos a viver no Reino Unido, enquanto os que estão há menos de cinco anos no país terão um título provisório ("pre-settled status") até completarem o tempo necessário.

Portugal continua a ser o país com o quarto maior número de migrantes registados no sistema de regularização para os europeus, intitulado EU Settlement Scheme, atrás da Polónia, Roménia e Itália.

O direito a pedir residência no âmbito deste sistema termina a 31 de dezembro de 2020, quando acaba o período de transição previsto no acordo de saída negociado entre Boris Johnson e a UE, em outubro passado.

Quem não se candidatar dentro do prazo pode ser acusado de imigração ilegal no Reino Unido e poderá mesmo ser deportado.

Numa entrevista ao jornal alemão Die Welt, em outubro, o ministro do Interior britânico, Brandon Lewis, afirmou que, "se os cidadãos da UE ainda não se tiverem registado e não tiverem motivos suficientes para isso, as regras de imigração relevantes serão aplicadas".

União mais velha e mais pobre, mas com menos défice

Com a saída do Reino Unido, a União Europeia fica mais idosa, perde 14% do PIB e 32 milhões de empregados, mas o défice público vai descer substancialmente, segundo uma simulação da Pordata. Segundo o mesmo estudo, com base em dados do Eurostat, o Brexit vai fazer com que o PIB per capita da UE desça.

Em termos populacionais, a saída dos 66 milhões de habitantes do Reino Unido retira das estatísticas comunitárias 32 milhões de empregados e 1,5 milhões de desempregados do país com a quinta taxa de desemprego mais baixa da União.

Com o Brexit, o saldo positivo da balança comercial europeia reforça-se, ao mesmo tempo que o consumo privado diminui, sendo que ambos os fatores contribuem para uma diminuição do défice público da União Europeia a 27, de 147 mil milhões de poder de compra padrão para 102 mil milhões. O poder de compra padrão é uma unidade de moeda fictícia de referência, que elimina as diferenças nos níveis de preços nacionais entre países e é utilizada para comparações de volume entre os indicadores económicos de diversos países.

O que aumenta é o índice de envelhecimento, com o número de idosos por cada cem jovens a passar de 126 para 130, enquanto a população da União crescerá a um ritmo mais lento do que o atual: em vez de um crescimento de um milhão de habitantes registado em 2017 teria crescido menos 35%.

Reino Unido nas instituições europeias

Os 73 eurodeputados do Reino Unido regressam a casa e o último comissário britânico, Julian King, já se despediu de Bruxelas. Na capital belga ficará apenas uma bandeira na Casa da História, o museu da UE.

Portugal não entra na lista dos Estados-membro que vão ocupar 27 destes mandatos. França e Espanha verão a sua representação parlamentar aumentar cinco deputados, Holanda e Itália ganham mais três votos no parlamento e a Irlanda dois. Os restantes mandatos serão distribuídos por Suécia, Áustria, Dinamarca, Finlândia, Eslováquia, Croácia, Estónia, Polónia e Roménia.

Os restantes 46 ficam disponíveis para futuros alargamentos ou mesmo para a criação de listas transnacionais. No final, o número de deputados no Parlamento Europeu desce de 751 para 705.

No Parlamento Europeu, os deputados agrupam-se por afinidades políticas, e não por nacionalidade, em sete grupos parlamentares. Este tipo de alinhamento pode levar a pequenas alterações na relação entre as forças parlamentares.

Instituições europeias no Reino Unido

A partir de 1 de fevereiro, o Reino Unido passa a ser um país terceiro. Por isso, a representação da Comissão Europeia no país encerra a 31 de janeiro, tal como nas restantes capitais - Edimburgo, Cardiff e Belfast. Depois começa a funcionar a Delegação da União Europeia.

A missão diplomática será encabeçada pelo português João Vale de Almeida e ficará sob a tutela do Serviço Europeu de Ação Externa, o corpo diplomático da União liderado pelo alto representante Josep Borrell, que é também vice-presidente da Comissão Europeia.

Além dos tradicionais deveres das Delegações da União Europeia em países terceiros, os 26 membros da delegação londrina vão ajudar na implementação do Acordo de Saída e nas negociações sobre o futuro das relações entre britânicos e UE.

Quem é João Vale de Almeida?

Com mais de três décadas de experiência em cargos europeus, João Vale de Almeida, 62 anos, já desempenhou diversos cargos de topo. Foi porta-voz da Comissão Europeia e diretor-geral antes de se tornar chefe de gabinete e principal conselheiro de José Manuel Durão Barroso durante o seu primeiro mandato como presidente da Comissão Europeia (2004-2009).

Vale de Almeida tornou-se de seguida embaixador da União Europeia nos Estados Unidos (2010-2014), à frente da primeira delegação europeia em Washington com poderes reforçados (em representação de toda a União e não somente da Comissão Europeia), à luz da entrada em vigor do Tratado de Lisboa. De 2015 até ao final do ano passado foi o embaixador da UE junto das Nações Unidas.

Regressado a Bruxelas em dezembro último após dez anos em Washington e Nova Iorque, o seu nome já era apontado como um dos favoritos para representar a UE em Londres, depois de o Reino Unido deixar de ser Estado-membro.

Com o Brexit "vamos perder todos, cada um deve avaliar as suas perdas", disse à TSF Vale de Almeida, em março de 2019.

"É preciso encontrar um modelo de saída que tenha um impacto o menos negativo possível sobre a relação bilateral e que, a partir daí, possamos construir uma relação futura", comentou numa altura em que ainda era embaixador da UE junto das Nações Unidas.

"O que me parece óbvio hoje, e visto de Nova Iorque ainda mais, é que há uma necessidade absoluta e uma vontade comum de ter uma relação muito próxima e muito sólida entre a UE a 27 e o Reino Unido. Isso faz parte dos nossos interesses e corresponde aos nossos valores comuns", assegurava.

O que pensa o rosto da União em terras de sua majestade?

"A minha prioridade vai ser [dar] atenção aos direitos dos cidadãos europeus que vivem no Reino Unido, mas também, naturalmente, aos cidadãos do Reino Unido que vivem nos 27" Estados-membros da UE, admitiu João Vale de Almeida, citado pela Lusa.

"O acordo de saída contém medidas que foram acordadas entre o Reino Unido e os Estados da UE. Trata-se agora de aplicar no terreno essas medidas, de garantir aos cidadãos todos os direitos, de ajudar os cidadãos europeus no Reino Unido a preencher os requisitos que lhes permitam ficar", explicou, lembrando que existem "muitos milhares, se não milhões, de cidadãos europeus no Reino Unido".

As negociações sobre os direitos e a forma de os aplicar no terreno serão realizadas em conjunto com as embaixadas dos 27 Estados-membros, acrescentou. Agora, apontou João Vale de Almeida, "começa uma nova etapa".

"Temos de construir uma relação futura e eu vejo, quer do nosso lado - da União Europeia -, quer do lado do Reino Unido, um grande empenhamento em construir algo ambicioso, algo que corresponda aos interesses da UE e do Reino Unido", disse.

"O mundo está em transição, nalguns aspetos em rotura, os nossos valores estão, em alguns casos, a ser postos em causa. É fundamental que países que têm tanto em comum como os 27 e o Reino Unido consigam chegar a plataformas de entendimento ambiciosas e substanciais", defendeu o embaixador.

A nova relação que será construída é, aliás, a segunda prioridade da agenda de João Vale de Almeida. "A segunda prioridade é começar a construir a relação futura. Vamos iniciar negociações, provavelmente em março, com vista a essa negociação futura, um acordo entre os 27 da UE e os britânicos e aí vamos ver o que podemos pôr em cima da mesa", referiu, adiantando apenas que a atitude da União Europeia é de "grande disponibilidade" e de "vontade de chegar a acordos substanciais e ambiciosos".

Essencial na relação futura é, para o embaixador, "ter um acordo comercial". "Vamos ver qual é a dimensão desse acordo, quais são as modalidades desse acordo, vamos ver em quanto tempo seremos capazes de o alcançar, mas agora vamos começar e daqui a uns meses veremos em que situação estaremos", referiu.

João Vale de Almeida sublinhou ainda que este ano não será marcado por nenhuma mudança essencial, além de o Reino Unido deixar de estar presente no processo de decisão da União Europeia.

"Tudo o resto mantém-se inalterado", garantiu, referindo que "as grandes alterações vão acontecer a partir de 1 de janeiro de 2021".

Backstop, o estatuto da Irlanda

O Reino Unido queria impor controlos alfandegários no interior da ilha irlandesa, o que na prática se traduziria numa fronteira física entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda, sendo que a ideia foi sempre rejeitada por irlandeses e UE.

Em outubro de 2019, um acordo alcançado entre Boris Johnson e o primeiro-ministro irlandês, Leo Varadkar, não pôs fim aos controlos alfandegário. Mas em vez de terem lugar na fronteira entre Irlanda do Norte e República da Irlanda, foram deixados para uma fronteira no Mar da Irlanda, a leste da ilha.

A nova "cláusula" determina que a Irlanda Norte continuará alinhada com o quadro regulatório da UE, respeitando as regras do mercado único e aplicando as taxas europeias para as exportações e importações. Mas, ao mesmo tempo, assegura que o Reino Unido pode negociar os seus futuros tratados comerciais sem constrangimentos, uma vez que o território da Irlanda do Norte permanece exclusivamente integrado na união aduaneira britânica.

"Todos os controlos serão efetuados à entrada da Irlanda do Norte e não na ilha. A Irlanda do Norte permanecerá no território alfandegário britânico e o Reino Unido pode aplicar tarifas a produtos de países terceiros desde que esses produtos não corram o risco de entrar no nosso mercado único. Para aqueles que correm o risco de entrar, aplicarão as nossas tarifas", explicou Michel Barnier, negociador da UE para o Brexit.

Desunião no Reino

Uma análise à distribuição geográfica dos votos no referendo e nas eleições de dezembro de 2019 mostra que o Brexit foi uma decisão sobretudo inglesa. Por isso, outra questão regressa à mesa britânica: um novo referendo sobre a independência escocesa. O país votou contra o Brexit no referendo de junho de 2016, mas é obrigado a abandonar a UE.

A independência da Escócia já foi referendada em 2014. Na altura foi dito aos escoceses que sair do Reino Unido era sair da UE e muitos independentistas dizem agora que só aceitaram continuar ligados a Londres para permanecerem na Europa.

A questão promete marcar os próximos anos, tendo em conta que a primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, já afirmou que a oposição do país ao Brexit reforçou a vontade de ser independente e quer um referendo já em 2020 ou 2021. A primeira-ministra escocesa escreveu a Boris Johnson, poucos dias depois das eleições de dezembro, em que conseguiu 47 dos 59 representantes da Escócia no parlamento britânico.

No documento de 38 páginas, intitulado "O direito de escolha da Escócia", Sturgeon pedia ao primeiro-ministro britânico poderes para realizar legalmente outro referendo e exigia também que fossem dados ao parlamento escocês poderes permanentes para realizar referendos sobre independência do Reino Unido. Quando Sturgeon confirmou à imprensa ter feito o pedido acrescentou que "esperava obter um não rotundo".

A resposta de Boris Johnson foi clara. Para o líder conservador, "outro referendo à independência só serve para continuar com a estagnação política que a Escócia viu na última década, com escolas, hospitais e a economia novamente deixados para trás por causa de uma campanha para dividir o Reino Unido. Não pode concordar com nenhum pedido de transferência de poder que levaria a novos referendos de independência", declarou Johnson categoricamente.

De resto, a bandeira azul com 12 estrelas amarelas vai continuar hasteada em frente ao parlamento de Edimburgo, em "sinal de apoio e solidariedade aos cidadãos" da União Europeia que "fizeram da Escócia o seu local de residência", lê-se na moção aprovada pelos deputados escoceses.

Também na Irlanda pode haver um referendo: o acordo negociado por Boris Johnson implementa uma fronteira entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido. A solução não agrada aos nacionalistas irlandeses. Por isso, já vários pediram um referendo à unificação das Irlandas.

O Acordo de Sexta-feira Santa - o tratado de paz assinado em 1998 entre os Governos da Irlanda e Reino Unido, em Belfast - diz que "quando a maioria do povo irlandês desejar", poder haver um referendo para decidir se a Irlanda do Norte é integrada na República da Irlanda ou continua a fazer parte do Reino Unido.

Até agora não tem havido muita pressão para haver referendo, mas a verdade é que os nacionalistas irlandeses têm vindo a crescer em número. Nas últimas eleições, os partidos nacionalistas tiveram mais votos do que os partidos unionistas.

E depois do Brexit?

Como vão decorrer as negociações durante o período de transição? Esta é uma das grandes incógnitas dos próximos meses. À TSF, o editor da revista London Brexit Monthly Digest , Bernardo Ivo Cruz, explica que "pela primeira vez na História um acordo comercial não vai procurar a convergência, mas antes gerir a divergência. A UE e Reino Unido partem da convergência absoluta e agora vão ter que decidir em que é que divergem". O prazo dado para as negociações está longe dos sete anos que demorou a conseguir o acordo comercial entre a UE e o Canadá, o que para este doutorado em Ciência Política pela Universidade de Bristol torna "o resultado ainda mais imprevisível".

Bernardo Ivo Cruz lembra que "há mais de quarenta anos que o Reino Unido não negoceia acordos comerciais". De facto, tem sido a UE a negociar em nome dos britânicos. Prevê-se que Londres espalhe 600 negociadores por todo mundo na procura de novos acordos comerciais, mas o editor levanta uma dúvida para dissipar nos próximos tempos: "Vamos ver qual é a capacidade política e técnica, que existe no Reino Unido, para negociar este tipo de acordos."

Um dos primeiros acordos que o Governo de Johnson estabeleceu foi com os chineses da Huawei. O Reino Unido vai permitir à fabricante chinesa Huawei participar no desenvolvimento da rede 5G no país. A decisão foi tomada contra a vontade dos Estados Unidos e, para Bernardo Ivo Cruz, "está já relacionada com a necessidade britânica de procurar já novos parceiros comerciais". No fundo é já um sinal dado à China (e ao mundo) que "os interesses do Reino Unido por vezes vão divergir" dos norte-americanos.

Com a saída do Reino Unido, "o eixo Paris-Berlim continuará a ser um pilar fundamental da UE, mas o Leste tem vindo a ganhar protagonismo", explica o investigador, acrescentando que "o centro da UE avança mais para leste, o que deixa Portugal mais isolado na ponta ocidental da Europa. Os Estados Unidos estão muito focados nos assuntos internos, o que não ajuda a contrariar a perda de peso do atlântico na UE". "Com o Brexit, a Europa torna-se mais continental. O Reino Unido é a grande potência atlântica do lado europeu, com esta saída deixa de haver uma mega região económica na Europa, o Atlântico perde relevância e isso é preocupante para Portugal", conclui.

O próximo Orçamento Plurianual entra em vigor em 2021 e prolonga-se até 2027. Ao perder um dos seus maiores contribuintes líquidos, o impacto é claro. Mas Bernardo Ivo Cruz garante que os efeitos "já se notam no Orçamento em execução este ano. Alguns programas foram diminuídos ou repensados e no futuro veremos o que acontece, por exemplo, com a Agenda Verde". Até porque não "não há vontade dos países contribuintes líquidos" para reforçar o Orçamento da UE.

Certo parece ser que os próximos anos vão depender muito do que for a negociação ao longo destes 11 meses e qual será o tipo de relação que se vai estabelecer entre o Reino unido e a União Europeia.

A saída do Reino Unido da União Europeia foi consumada 1317 dias depois do referendo do Brexit e 308 dias depois da data inicialmente prevista, mas muito fica ainda em aberto.

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