TSF em Chernobyl. Onde um cão com quatro anos já é considerado avô

Os lobos são hoje uma das maiores ameaças para os cães de Chernobyl, descendentes dos que foram forçadamente deixadas para trás quando o desastre nuclear obrigou a evacuar milhares de habitantes.

Os olhos de Lena brilham quando fala dos quatro cães que alimenta cada vez que guia algum grupo de turistas durante algumas horas pela zona de exclusão de Chernobyl criada depois do desastre nuclear, em 1986, por causa dos altos níveis de radiação.

Lena não é a única a ajudar estes cães que têm sorte pois também foram 'apadrinhados' por quem guarda os postos de controlo (check points) que existem a meio de uma enorme zona de exclusão com o tamanho da Área Metropolitana de Lisboa - só na Ucrânia pois na Bielorrússia, do outro lado da fronteira, é outro tanto.

Num saco que tem na mala a guia traz a comida que faz em casa pois não confia na ração para animais que se vende nos supermercados de Kiev, a capital da Ucrânia.

Um dos cães reconhece Lena e segue-a por entre as ruas de Pripyat, a cidade abandonada há 33 anos que foi quase totalmente ocupada por enormes árvores e arbustos.

Falta de contacto humano

Estes quatro cães são apenas uma pequena parte dos cerca de 700 que existem em toda a zona de exclusão, descendentes dos animais forçadamente deixados para trás e que o governo soviético tentou aniquilar, por completo, com homens armados.

Lucas Hixson, um norte-americano que criou a fundação Clean Futures para ajudar as vítimas de Chernobyl, explica que perceberam, depois de alguns anos no terreno, que os cães eram um problema pelo risco para as pessoas que entram na zona (a raiva era endémica) e pelo sofrimento que passavam devido às muitas doenças que têm e aos ataques dos lobos.

Hoje os cães são cerca de 700, mas há 3 anos, quando arrancou o projeto, eram perto de 1.000.

A aposta é a esterilização dos animais, apesar de já terem existido campanhas de adoção no estrangeiro, nomeadamente nos EUA, que envolvem uma logística muito complicada que tornou o processo muito complicado de pôr em prática.

Lucas explica que os animais sentem falta do contacto humano e procuram os muitos trabalhadores e turistas que diariamente entram na zona de exclusão.

Os cães são todos grandes. E não é por causa da radiação

Mais do que as muitas doenças que desenvolvem ou que a radiação, Lucas explica que o maior risco para os cães são os lobos que existem na zona - alguns dos animais selvagens que nas últimas décadas ocuparam uma área quase abandonada pelo homem.

Os gatos que também ficaram para trás depois das ordens de evacuação em 1986 praticamente não têm descendência porque não conseguiram sobreviver a este ambiente selvagem, tal como os cães de porte pequeno e médio.

Lucas Hixson explica que só os cães grandes sobrevivem a este ambiente - dias depois da nossa visita, Dragão, um dos cães ajudados por Lena, morreu num ataque de um lobo.

"Quando iniciámos o programa de apoio aos cães nasciam 200 a 300 cachorros por ano. Ao terceiro ano nove em cada dez já tinham morrido", conta Lucas, que acrescenta: "Se víamos um cão com três ou quatro anos dizíamos que era um avô".

A história dos cães de Chernobyl é parte da reportagem "Chernobyl hoje" que pode encontrar neste link.

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