Como células fetais dos anos 70 ajudam a medicina de hoje e qual a relação com a Covid-19

O que são linhas celulares imortalizadas e como podem contribuir na luta contra a pandemia de Covid-19? A HEK293 é usada há mais de 50 anos, mas volta a ser alvo de polémica.

Nunca foi segredo que milhares de laboratórios em todo o mundo usam linhas celulares derivadas de células de fetos abortados na década de 1970 para desenvolver medicamentos essenciais à evolução da medicina.

A questão voltou, no entanto, a estar na ordem do dia, principalmente nos Estados Unidos, com a investigação de potenciais terapêuticas e vacinas contra a Covid-19. Por exemplo, a investigação que levou à criação do Regeneron, o tratamento com anticorpos administrado a Donald Trump, que o próprio presidente dos Estados Unidos apelidou de "cura", recorreu a este método.

O tópico torna-se controverso a partir do momento em que se práticas científicas desafiam ideologias morais e religiosas. Se todas as mentiras têm um fundo de verdade, esta é a verdade por detrás das fake news veiculadas por conservadores e ativistas antiaborto ou antivacinação, que distorcem ou ocultam parte da realidade associada a esta prática.

"Está a tornar-se irritante", lamenta Andrea Gambotto, professora da Universidade de Pittsburgh, citada pela AFP.

Há mais de 25 anos que a cientista usa na sua investigação células apelidadas HEK293, as mesmas usadas na investigação do Regeneron, pelo que não percebe o motivo da polémica.

"Seria um crime proibir o uso destas células", defende Andrea Gambotto. "Nunca fez mal a ninguém - era um embrião morto, então naquela altura as células, em vez de serem descartadas, foram usadas para investigação."

A própria investigadora está neste momento a desenvolver a vacina contra a Covid-19. Se for bem sucedida, será graças à HEK293 desenvolvida na década de 1970.

E para quem fala no desenvolvimento de teorias alternativas a esta prática, Andrea Gambotto compara: seria o mesmo que ter o trabalho de voltar 30 anos atrás no tempo para "reinventar a roda", uma ferramenta que funciona sem problemas.

A origem das células fetais
Afinal, de onde vêm estas células fetais? As originais foram transformadas e "imortalizadas" em janeiro de 1973, pelo médico originário do Canadá Frank Graham, que à época se encontrava a trabalhar no laboratório Alex van der Eb, em Leiden, na Holanda.

Normalmente, uma célula tem um número finito de divisões, mas à 293.ª tentativa Frank Graham conseguiu modificar estas células para que se dividissem ad infinitum - conseguiu imortalizá-las. Daí o nome HEK293, Human Embryonic Kidney Cells (células renais embrionárias humanas) 293, e a explicação sobre como podem ser usadas hoje em dia, apesar de terem sido retiradas do rim de um feto abortado há décadas.

"O uso de tecido fetal não era incomum naquele período", explica à AFP o médico Frank Graham, neste momento reformado e a viver em Itália. Não é possível saber ao certo em que contexto foram originalmente recolhidas estas células, o que alimenta a polémica.

"O aborto foi considerado ilegal na Holanda até 1984, exceto para salvar a vida da mãe, por isso sempre assumi que as células HEK usadas pelo laboratório de Leiden devem ter tido origem num aborto terapêutico."

"Fico muito satisfeito com o facto de células que criei há quase 50 anos terem desempenhado um papel importante em inúmeros avanços na investigação biomédica e na produção de vacinas e medicamentos", destaca Frank Graham.

Usar a HEK293 contra a Covid-19

As linhas celulares HEK293 são 'ouro' para a industria farmacêutica, especialmente para laboratórios dedicados ao desenvolvimento de vacinas, porque são maleáveis ​​e transformáveis ​​em 'minifábricas' de vírus.

Para cultivar um vírus é sempre preciso uma célula hospedeira. Pode ser um ovo de galinha, mas as células humanas são preferíveis quando o que se pretende é desenvolver uma resposta imunitária tão em linha com a realidade de um contágio quanto possível.

Apenas neste processo de descoberta é usada a HEK293. Não faz parte da composição de qualquer medicamento ou vacina e nenhum feto tem de ser abortado intencionalmente para criar esta linha celular, como é sugerido por alguns grupos antiaborto ou antivacinas.

Há três potenciais vacinas contra a Covid-19 que usam a linha celular HEK293 - a de Oxford em parceria com a AstraZeneca, a chinesa da CanSino Biologics e a russa do instituto Gamaleya. Já a Johnson & Johnson usa outra linha celular com origem fetal, a PER.C6.

Tanto as farmacêuticas Moderna como a Pfizer usaram no passado a HEK293 para desenvolver "pseudovirus" e assim testar os seus medicamentos. E as vacinas contra o ébola e a tuberculose também foram criadas com ajuda destas células.

LEIA AQUI TUDO SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

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