"Como Salvar Um Mundo Doente": Eduardo Paz Ferreira põe-nos a pensar

É urgente acabar com a injustiça, indiferença e iniquidade no mundo, mas isso não acontecerá com "respostas individuais". O livro de Eduardo Paz Ferreira é apresentado esta 4.ª feira, em Lisboa. O autor veio à TSF.

É professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, decano do Grupo de Ciências Jurídico-Económicas, presidente do Instituto Europeu e coordenador do Centro Europeu, Económico, Financeiro e Fiscal da Faculdade de Direito. Foi administrador não executivo da Caixa Geral de Depósitos, há muitos anos foi chefe de gabinete do ministro dos negócios estrangeiros José Medeiros Ferreira. Começou a atividade profissional como jornalista no jornal República e na então Emissora Nacional. Veio à TSF na véspera da apresentação do seu novo livro: "Como salvar um Mundo Doente".

Longe de ter uma receita milagrosa ou soluções definitivas, Paz Ferreira quis recensear os problemas, analisar e propor sugestões de resposta: "Por um lado, quis perceber o que é que realmente permite qualificar este mundo como doente; e depois ver, chamemos lhe realismo reformista, como é que podemos alterar a situação atual. Obviamente poder-se-ia pensar em soluções absolutamente radicais de alteração global do mundo, mas isso não seria realista; e portanto temos de trabalhar num quadro de conseguir ir avançando em várias áreas naquelas que são identificadas como realmente áreas doentes."

Paz ferreira já admite que já teve mais certezas de que a questão da Covid viesse a ser resolvida, mas acredita que tudo será "contido um pouco pelas vacinas, mas mantendo uma situação que é muito difícil para as pessoas e difícil para a economia".

O professor de direito, ex-administrador de um banco público e jornalista no início da carreira profissional, recorda que questões que estão agora sobre a mesa e no centro dos debates políticos, já se colocaram em anteriores pandemias, ao longo dos séculos, como "questões de confronto, racismo e xenofobia, tratar mal os nossos vizinhos e os não vizinhos ainda mais".

Cita a diretora da London School of Economics, Minouche Shafik, quando no livro "What We Owe Each Other - A New Social Contract" (na tradução: O que devemos Uns aos outros, um novo contrato social ou "revisitado", como ficou na edição brasileira, já disponível), quando a economista e baronesa e origem egípcia insiste na urgência de se "identificar como é que podemos colaborar em torno do combate às doenças, injustiça, indiferença e iniquidade". O diretor do Instituto Europeu não se cansa de explicar o importante papel que o Papa Francisco tem tido nos alertas que tem lançado. "É o meu líder político de eleição", costuma dizer, assumindo a brincadeira, mas nunca menosprezando o papel importantíssimo que tem tido o atual líder da igreja católica.

"É preciso partir para um novo modelo de capitalismo mais equitativo e mais atento às questões da desigualdade, à distribuição da riqueza", recomenda. Assume que "uma questão fundamental que é a desigualdade entre continentes. Quando pensamos na diferença entre países ricos e países pobres, é assustador e é no melhor dos interesses dos países ricos resolver o problema da pobreza nesses países. Mesmo que não seja por bons sentimentos, embora prefira pensar que seja também por bons sentimentos". Mas há razões de ordem lógica, entende, que levam a que os países mais desenvolvidos mudem de postura e reconhece que a última cimeira do G20 já terá sido um passo dado nesse sentido.

O autor diz-se preocupado com a legitimação e "banalização da violência e de desprezo pela igual dignidade do outro", dando igualmente conta do "afastamento de muitos cidadãos dos valores democráticos em que assentam as nossas sociedades, aumentando o grau de desconfiança e de insatisfação em relação às instituições e conduzindo-os a estados de zanga e raiva".

Sempre tivemos epidemias e os micróbios e vírus fazem parte da natureza, mas no livro também nos recorda que "a vasta maioria dos últimos surtos epidémicos ficou a dever-se a alterações do ecossistema". Na penúltima parte do livro, sobre a reação à crise pandémica fala na prudência da Europa. Excessiva? "Totalmente", afirma. "A Europa é assim, muito burocrática", lenta e com "uma grande dificuldade em entender-se. Basta olhar para o conjunto tão diverso de estados e de orientações políticas que lá estão para perceber isto". A resposta à pandemia foi, para Paz Ferreira, uma evidência disto mesmo: "quando nos lembramos que a Europa precisou de um ano para - uma vez celebrado um acordo que não é um acordo extremamente ambicioso, mas que teve aspetos muito positivos - começar agora a chegar os fundos de que os estados precisam para responder à pandemia. E se tivessem vindo antes teria sido seguramente muito melhor solução da pandemia".

Para Biden, de momento, só elogios, vendo o presidente dos Estados Unidos "como inesperado agente de mudança". Afirma que Biden "era identificado como centrista, digamos, na melhor das hipóteses, no âmbito do Partido Democrata, tem conseguido fazer muito mais e com muito mais determinação do que fez, por exemplo, Barack Obama que toda a gente considerava que era o grande progressista, mas no fim já ninguém acreditava nisso". Biden era "considerado o moderado que por ali andava. E no entanto, ele sabe fazer essa coisa extraordinária quer no plano interno quer no plano externo". Destaca o combate à evasão fiscal com "uma tributação mais efetiva entre as empresas que trabalham internacionalmente", mas também do ponto de vista interno, com o dinheiro para as famílias ou os grandes projetos de infraestruturas, admitindo contudo Paz Ferreira não saber "até que ponto conseguirá (Biden) fazer passar, dado que o equilíbrio político no Congresso". Mas, conclui, "foi uma grande surpresa. Viva Biden".

Sempre tivemos epidemias e micróbios e vírus. Tudo faz parte da natureza mas no livro, o homem nascido nos Açores há 68 anos, recorda que "a vasta maioria dos últimos surtos epidémico ficou a dever se a alterações do ecossistema".

Eduardo Paz Ferreira sente que é hora de "pensarmos e agirmos", perguntando "o que podemos fazer pelo mundo, dando o melhor de nós". O catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa apela à contribuição coletiva "para um mundo de mais justiça, maior equidade, menor indiferença e uma nova solidariedade". Sem repor "o padrão de sociedade que nos conduziu à pandemia, mas de criar um modelo em que todos se sintam protegidos".

O livro "Como Salvar Um Mundo Doente" de Eduardo Paz Ferreira é apresentado, com as limitações presenciais próprias deste tempo que vivemos, esta quarta-feira no Cinema São Jorge em Lisboa, por António Costa e Silva, Constantino Sakellarides, Maria do Carmo Fonseca, Maria Inácia Rezola e Pedro Vieira.

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