Comunidade internacional deve ajudar taliban? "O novo Governo vai precisar de ajuda económica"

Pedro Neto, da Amnistia Internacional, alerta que "os taliban não vão garantir a sua parte do acordo, que é não permitir que o terrorismo floresça" no Afeganistão. O major Carlos Branco, que foi porta-voz da NATO no Afeganistão, acredita que "a comunidade internacional tem de intervir rapidamente no sentido de ajudar o novo Governo".

Os ministros europeus do Interior querem definir uma estratégia comum para evitar uma nova crise migratória, como a que aconteceu em 2015, quando a guerra na Síria foi agravada e mais de um milhão de refugiados e migrantes rumaram à Europa. É este o objetivo da reunião desta terça-feira, em Bruxelas, mas, na agenda, fixa-se ainda a preocupação com a nova realidade do Afeganistão, que pode representar novas ameaças à segurança.

Pedro Neto, da secção portuguesa da Amnistia Portugal, antecipa graves problemas no que toca ao respeito dos direitos humanos. "Temos poucas dúvidas de que o trabalho de defesa dos direitos humanos, o trabalho da imprensa livre, do escrutínio público da sociedade civil vá ser mais difícil nos tempos que se avizinham no Afeganistão", considera.

Em declarações à TSF, Pedro Neto lembra que o acordo com os taliban "foi feito de forma unilateral, não teve em conta, de forma suficiente, a sociedade civil afegã, nem o próprio Governo, nem outros países da comunidade internacional, e isso deita tudo a perder".

"Como já se percebeu, os taliban não vão garantir a sua parte do acordo, que é não permitir que o terrorismo floresça e que não haja incidentes provocados pelo terrorismo, isso já aconteceu nos últimos dias", assinala. Para a Amnistia Internacional, esta foi uma retirada "apressada, confusa e desastrosa" deixou "muita gente para trás, que fica naturalmente em perigo".

Na segunda-feira, no aeroporto de Cabul, "houve já um sentimento muito grande de resignação por parte de algumas pessoas, mesmo com vistos para os Estados Unidos, para outros países, a perceberem que não iriam conseguir sair", defende Pedro Neto. "É preciso saber como estarão presentes as Nações Unidas, as várias agências das Nações Unidas, como é que estão presentes as ONG, que liberdade é que terão no terreno. Muita da expectativa que temos de ter é: se a escuridão vai tomar conta do Afeganistão ou se conseguiremos ainda ter algumas luzes a operar no país, para dar esperança a estas pessoas, porque abandonadas já elas se sentem."

"Vamos ver se haverá luz que ilumine estas pessoas e lhes dê a esperança, e se a comunidade internacional não as esqueça e se torne indiferente a este sofrimento", exorta.

Na perspetiva de Pedro Neto, os governos também não se podem demitir desta responsabilidade. "Agora a resposta que se impõe é o que é que o Governo fará e como operará para resgatar estas pessoas, mesmo para lá do prazo."

Com os taliban a irem porta a porta e a avançarem para ações que prometeram que não iriam ter, e com a proibição de saída de mais pessoas a partir de 1 de setembro, tudo se complicará no terreno, alerta a Amnistia Internacional.

Já o major Carlos Branco, que foi porta-voz da NATO no Afeganistão, declara que, "já de seguida, é importante perceber quando vamos ter um Governo e como é que esse Governo vai ser constituído, quão inclusivo é, que grupos é que vão estar representados nesse Governo". Será ainda importante perceber qual a capacidade técnica de quem ocupa os cargos.

De acordo com Carlos Branco, esta questão permitirá "medir o pulso", isto é, "perceber até que ponto os taliban são fiáveis e até que ponto estão disponíveis para cumprir as suas promessas".

No entanto, uma crise económica será inevitável, diz o major. "Estima-se que cerca de 40% das colheitas deste ano estejam perdidas", o que significa que "a comunidade internacional tem de intervir rapidamente no sentido de ajudar o novo Governo".

"O novo Governo vai precisar de ajuda económica e de ajuda técnica. Para colocar o aeroporto de Cabul em condições de operacionalidade, os taliban vão precisar seguramente de apoio internacional."

Carlos Branco esclarece que não se trata de financiar diretamente os taliban, mas as Nações Unidas, porque é impossível ignorar que haja ""um problema humanitário grave".

"Os Estados Unidos estão a bloquear o processo ao nível do banco mundial, ao nível do FMI. Seria conveniente a libertação desses fundos, de forma gradual, conforme os taliban cumprissem, ou não, as suas promessas."

Quanto à iminência do avanço do terrorismo, o major comenta que ameaça deve ser medida e pode ser contida "com alguma facilidade", até porque, até ao momento, está focada em determinadas regiões do país.

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