Continente africano em estado de emergência

Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e Moçambique decretaram estado de emergência para enfrentar a crise sanitária.

A União Africana estima que no final de abril países do continente ultrapassarão os dez mil casos de Covid-19, assinalando que as infecções estão a crescer de forma "brusca" e "consistente".

Angola regista quatro casos de coronavírus. Segundo João Bernardo de Miranda, embaixador de Angola em França, "o governo [angolano] tem estado a fazer do seu melhor para enfrentar dias piores, que esperamos que não venham a acontecer".

O isolamento social é aconselhado, mas nem sempre respeitado, como nos diz o diplomata, "há uma rebeldia dos cidadãos mas o estado faz o seu melhor para impor a ordem e, claro, na medida do possível, os cidadãos vão tendo consciência do que se tem estado a fazer, que é para o seu melhor".

O embaixador de Angola em França justifica em parte a dificuldade de imposição de isolamento o contexto social e económico do país, pelo facto de se tratar de um país "que vive quase exclusivamente de exportações", mas também onde "as famílias para sobreviverem têm de ir ao mercado todos os dias, que vendem à sua porta uma gasosa, uma garrafa de água, e o dinheiro que recebem vai diretamente para o mercado, para comprar o que precisam, para dar de que comer aos seus filhos... portanto isolamento social como tal é uma medida feliz, porque resulta em poupar vidas humanas, mas pode ser perversa no caso de países como o nosso, com uma pobreza relativamente severa", explica João Bernardo de Miranda.

Em França, a comunidade angolana regista quatro óbitos, "tivemos durante o mês de março três óbitos e este é o quarto. Temos ainda três angolanos hospitalizados, entre eles uma jovem de vinte e cinco anos em estado grave", afirma o diplomata angolano.

Cabo Verde tem seis casos confirmados no arquipélago. "O primeiro foco começou na ilha da Boa Vista", começa por contar o embaixador cabo-verdiano em França, Hércules Cruz, "começou com um turista inglês, depois todo o hotel ficou em quarentena".

O embaixador confirma as dificuldades que o país enfrenta face à crise sanitária, considerando que são dificuldades globais, "ninguém está preparado. O facto de ser mais rico, desenvolvido, cientifico e tecnologicamente, não significa que tenham os sistemas de saúde com cobertura mais performante. Naturalmente que Cabo Verde está longe de estar nos países minimamente desenvolvidos, pelo facto de ser uma ilha, mas agirmos atempadamente, de acordo com o que têm feito Portugal e outros países que vieram depois do caso da China e da Itália... Cabo Verde faz um esforço muito grande e temos casos limitados".

O arquipélago tenta, apesar de uma certa resistência, pôr em prática os mesmos protocolos que são adaptados na Europa. Segundo Hércules Cruz, as dificuldades de isolamento não são específicas a Cabo Verde, "os hábitos de se abraçarem, de beijarem, de manifestarem um certo calor, podemos dizer são hábitos de todos os países de língua portuguesa em África, mas igualmente de Portugal, do Brasil... Estamos no mesmo local cultural, na mesma maneira de ser e estar..."

Cabo Verde declarou dois óbitos em território francês. Segundo o embaixador, "nestes momentos, a incineração é o que mais se recomenda", o que lhes é duplamente problemático, visto que não se trata "de uma prática que não é aceite, pela tradição católica" e por outro lado pelo facto de "familiares não poderem estar nos funerais, nessas cerimónias que são de grande importância para nós em termos culturais, que são momentos de prestar homenagem".

Apesar do pesadelo, o embaixador acredita que "muitas coisas positivas também estão a acontecer neste momento, entre elas a possibilidade das famílias estarem mais juntas, mas também para as próprias pessoas se conhecerem melhor. É uma viagem no interior de cada um de nós".

Moçambique tem registo de dez pessoas infetadas no país. O estado de emergência foi decretado pelo Presidente moçambicano, Filipe Nyusi por questão de prevenção "governo terá de fazer tudo o que está ao seu alcance para que as pessoas estejam confinadas", contou à TSF o embaixador de Moçambique em França, Alberto Maverengue Augusto.

Por agora, as instituições continuam a funcionar, assim como os ministérios, "o comércio está a funcionar normalmente, mas certamente quando chegar o nível de lockdown, tem de ser lockdown para todos", afirma.

Considerando a realidade social e económica de Moçambique, o embaixador acredita que a realidade moçambicana é diferente da europeia; "temos uma pequena vantagem que são os distritos, onde a densidade populacional estende-se a duas casas por cada quilómetro quadrado, o que é diferente da Europa ou das cidades. Fico mais preocupado com as cidades do que com os distritos".

Segundo Maverengue Augusto, "felizmente até este momento nenhum moçambicano está infetado em França". Nove casos foram assinalados na Guiné-Bissau.

Atualmente, 49 dos 54 países africanos registam casos de Covid-19. São Tomé e Príncipe é dos poucos países que não regista nenhum caso do novo coronavirus.

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