"A cor que interessa é a do dinheiro." As gigantes das matérias-primas que pagam guerras na sombra, até
Entrevista TSF

"A cor que interessa é a do dinheiro." As gigantes das matérias-primas que pagam guerras na sombra, até a de Putin

São empresas que estão no nosso bolso através dos telemóveis, que nos ajudam a encher o depósito do carro ou até a pôr o pão na mesa. Vivem na sombra e são a balança entre a paz e a guerra em vários lugares do mundo.

"O Mundo à venda", foi o livro do ano em 2021 para o Financial Times e para a revista The Economist. Escrito pelos jornalistas Javier Blas e Jack Farchy da Bloomberg News, é uma viagem pelo mundo desconhecido das empresas que compram e vendas matérias-primas em todo o mundo. Em entrevista à TSF, Javier confessa que "é um mistério não se conhecer praticamente nada sobre estas empresas", uma vez que "estão presentes no nosso dia-a-dia".

A Glencore, a maior no setor das matérias-primas, ou a Vitol, líder no mercado do petróleo, são exemplos de empresas que compram e vender um pouco de tudo: "Nos referimos a carregamentos inteiros de petróleo, de trigo, de arroz, de café, algodão, metal". Têm sede na Suíça ou em Singapura, e os seus líderes têm o poder de mudar guerras, uma vez que "passam de meros compradores de matérias-primas para financiadores de regimes".

Pouco se sabe sobre os donos destas empresas, mas se tivesse de definir, Javier diria que "são uma mistura entre o James Bond e o Pirata das Caraíbas". O livro, que chegou às bancas em português neste mês de setembro, quer alertar os governos mundiais para a fuga de impostos e falta de regulação que o setor "beneficia" há anos.

O mundo das matérias-primas é desconhecido para muitos de nós. Como é que chegaram ao tema que resultou neste livro?

Partimos do ponto de que este é um setor económico muito importante para os negócios. Todos utilizamos matérias-primas, todos consumimo-las. Ao mesmo tempo, têm um impacto político muito importante. Matérias-primas são dinheiro e dinheiro é poder. Damos conta de que os empresários destas firmas têm um papel político muito relevante. Terão ajudado ditadores a sobreviver a sanções económicas e vemos que se conhece muito pouco sobre eles. Praticamente ninguém fora do setor das matérias-primas as conhece, pouco se sabe do dinheiro fazem e do poder político e económico que têm. Começamos a escrever o livro em 2011, quando a guerra civil eclodiu na Líbia. Eu estava a escrever sobre o conflito em Bengasi e descobri que um comerciante de matérias-primas conseguiu lucrar ajudando os rebeldes. Fez um empréstimo de 1000 milhões de dólares e compra o petróleo. Pareceu-me estranho que um empresário europeu viajando no meio de uma guerra civil e fazendo negócios de guerra. Acabou por me parecer fascinante.

São negociantes que abastecem o mundo de energia, alimentos e metais. Como funciona o negócio?

A imagem destas empresas é muito diferente daquelas que temos dos traders de Wall Street, que estão à frente de um computador a comprar e a vender ações. Estes senhores dedicam-se ao negócio de matérias-primas físicas. Estamos a falar de carregamentos inteiros de petróleo, trigo, arroz, café, algodão e metal.

Essas empresas têm mesmo embarcações para fazer o transporte ou alugam?

Sim, eles têm mesmo as embarcações. Não são os produtores, compram a um produtor e vendem a um consumidor. São intermediários. Se imaginarmos que a economia mundial fosse uma espécie de caixa de engrenagens, os comerciantes de matérias-primas seriam o óleo que lubrifica as engrenagens, e que permitem que tudo funcione com facilidade. É um negócio simples. Comprar num sítio e vender noutro. Mas, como compram e vendem muito, ganham imenso dinheiro. Como as matérias-primas são muito importantes para a política económica de muitos países, convertem-se em aliados de países produtores dessas matérias e, portanto, aliados de muitos ditadores.

Quem está à frente dessas empresas? Que características têm os negociantes?

A primeira é que são homens de negócios. O único objetivo é ganhar dinheiro e estão motivados para isso e com essa ânsia. Lutam ferozmente por isso, seja qual for o país. Muitos destes empresários são quase como políticos. São encantadores, queremos jantar com eles, são fascinantes de conhecer, encantadores, recordam a data do teu aniversário, o nome da tua namorada. Se não lhes interessasse tanto o dinheiro, podiam dedicar-se à política e ganhar umas eleições, sem dúvida. Depois, estes empresários têm um apetite pela adrenalina e pela aventura que não se encontra em nenhum outro setor económico do mundo. São senhores que apanham um avião e vão a um país em guerra civil fazer negócios como quem apanha um avião e vai a Nova Iorque fechar um acordo comercial. Chegam a ir ao Iraque, Líbia, ou até a países em vias de desenvolvimento aceitando o risco. Se eu pensasse em filmes de Hollywood, definiria um comerciante de matérias-primas como uma mistura entre James Bond e o Pirata das Caraíbas.

E como é que começaram o negócio?

O negócio é tão antigo como a humanidade. Começámos a trocar bronze e ferro desde o nascimento dos humanos. A história que contamos no livro é, sobretudo, nos últimos 70 anos da indústria - desde o final da Segunda Guerra Mundial, o início dos anos 70, com a nacionalização do petróleo, a queda da União Soviética, o crescimento da China, o financiamento dos mercados, muitos conflitos mundiais. Diria que os últimos 25 anos têm sido a idade de ouro das empresas de matérias-primas. Ganharam muito dinheiro no princípio dos anos 70, durante a crise do petróleo, mas terão sido os últimos 20 anos, com o auge da China como a grande economia e consumidor mundial, a época dourada da indústria.

Nas investigações que fizeram que tipo de ilegalidades é que encontraram?

Uma das coisas que mais nos surpreenderam foi a naturalidade com que alguns empresários do setor falavam de pagar comissões, que é a palavra politicamente correta para definir os subornos. Falavam de pagar comissões como quem fala de qualquer outro tipo de despesa empresarial. O que vimos é que não é algo que a indústria tenha deixado no passado, não é uma prática apenas dos anos 70 ou 80, onde era mais generalizado o pagamento de subornos em países em desenvolvimento. Acontece que algumas empresas do setor, não todas, recentemente admitiram ter pagado esses subornos porque o Departamento de Justiça dos Estados Unidos as descobriu com as mãos na massa.

Estamos a falar de que empresas?

Por exemplo, a Vitol e a Glencore. Duas das maiores empresas do setor: Glencore a maior na área de matérias-primas, Vitol a maior na área do comércio de petróleo. Ambas admitiram ter pagado subornos em vários países latino-americanos, em África. E, em alguns casos, admitiram o pagamento de subornos tão recentemente, por exemplo, 2020.

Qual era o real objetivo de pagar esses subornos?

Era, sobretudo, conseguir carregamentos de petróleo, matérias-primas. Era conseguir que alguém lhes vendesse por um preço abaixo do praticado no mercado, um carregamento que não podiam vender noutro sítio. Estamos a falar de subornos em países como Nigéria, República Democrática do Congo, México, Brasil, Venezuela, Equador. Ou seja, países que são grandes produtores de matérias-primas e para quem receber subornos é muito rentável.

Países que acabam por ser vulneráveis, porque, se por um lado têm matérias-primas em abundância, por outro, a regulação é frágil e a corrupção grande, o que torna o sistema mais permeável a subornos.

Sem dúvida. É um problema muito habitual. São países ricos em matérias-primas, mas com regimes políticos frágeis, com funcionários mal pagos. Pessoas para quem o dinheiro pode conseguir que mudem. Estamos a falar de empresas que pagam dezenas de milhões de dólares a alguns funcionários para que lhes desses carregamentos de matérias-primas, de petróleo. O que mais me surpreendeu é que isto tem acontecido, praticamente, até ontem. Pagar subornos não é algo que possa justificar nos anos 60 ou 70, mas o mundo era diferente, havia mais permissividade, não havia as leis contra a corrupção que temos hoje. Acontece que isto [pagamento de subornos] estava a acontecer no ano de 2020.

E hoje, dois anos depois, ainda acontece?

Contamos parte disso no livro e outros episódios idênticos, com alguns empresários do setor a contarem-nos isso. Por exemplo, há um empresário, que não revelamos quem, que viajava habitualmente desde Zurique, na Suíça, até Londres, no avião com meio milhão de libras esterlinas numa mala. Isto nos anos 90. O objetivo era pagar subornos.

O acesso a essa matérias-primas era ou é feito exclusivamente através dos subornos ou há outras formas que podermos considerar lícitas?

Por princípio, a indústria tem um negócio de acordo com as leis. Nem tudo é suborno. Até diria que os subornos são a parte menos relevante, já que muitas empresas ganham dinheiro tendo um papel importante na economia mundial. Precisamos desta indústria, porque sem ela a economia mundial não funcionaria. A questão é que é preciso vigiar para evitar que as práticas ilegais sejam comuns.

Tem faltado essa vigilância?

É uma das razões pelas quais escrevemos o livro. Para que as pessoas conheçam o que está a acontecer porque, um dos grandes mistérios do setor para mim, é que se conheça tão pouco fora da indústria. São poucos os que sabem da existência destes intermediários de matérias-primas.

Como é que chegaram até ao poder político? Já estão, de alguma forma, referenciados ou têm facilitadores para lá chegarem?

Conseguiam com facilidade porque os países precisavam de alguém que os ajude a vender as suas matérias-primas. Eles não têm acesso ao mercado internacional. Estes comerciantes se passam a ser o canal em que os países em desenvolvimento podem vender os produtos. Às vezes também precisam de comprar e também são os comerciantes que facilitam todo este comércio. E, por isso, também passam a ser aliados políticos.

Com que países mais negoceiam?

Por exemplo, a Argentina e o Brasil, no caso das matérias-primas agrícolas, ou Angola, com o petróleo. Neste caso, os comerciantes criaram uma relação de proximidade com várias empresas. Uma delas, criou uma empresa comum com um algo dirigente de Angola para vender petróleo e importar para o país produtos refinados. Há também o exemplo da Nigéria e até da China. Um país comprador que necessita destas empresas de matérias-primas para que estas cheguem ao destino.

Portugal surge no radar destes comerciantes?

É um pequeno importador de matérias-primas e, portanto, usa também os serviços destas empresas. Mas é um pequeno ator dentro da economia mundial.

Mas o governo português, até pelo que disse há pouco, acaba por vigiar pouco.

Eu acho que o mais importante, não só para o governo português como para o espanhol, entre outros europeus, é começar a prestar atenção ao que estas empresas fazem. E ver se há uma necessidade de maior regulação. O primeiro que têm de fazer é ter consciência do setor económico que está à frente deles, de como as matérias-primas se movem. E, depois, decidir se é preciso fazer algo ou não. Para mim, uma das coisas mais fascinantes é que muitas destas empresas são europeias e o único polícia da indústria é o Departamento de Justiça dos Estados Unidos. Os crimes cometem-se na Europa, mas quem vigia são os norte-americanos. A Europa devia estar mais atenta.

No passado estas empresas influenciaram e até mudaram a vida política de alguns países. Isso ainda acontece? Pode dar exemplos?

Quando se pensa, por exemplo, em Cuba, nos anos 90, estava feita em cacos. A União Soviética tinha colapsado e Cuba precisava de dinheiro. A determinado momento Fidel Castro está desesperado. A Economia tinha entrado em rutura, havia pobreza, e Cuba chama as empresas de matérias-primas e propõe-lhes um acordo - Precisamos de comprar petróleo, e queremos pagar com açúcar -, elas acabam por aceitar, com a ajuda de um empréstimo. Isto aconteceu não só em Cuba, como na África do Sul, durante o Apartheid, com Sadam Hussein depois da Guerra do Golfo, nos anos 80. As empresas com esta ajuda, provavelmente terão mudado o rumo da história política destes países. Se não houvesse esta ajuda, as economias e os governos desses países não se tinham aguentado.

A partir de certa altura estas empresas deixaram de ser apenas corretoras de matérias-primas para se tornarem financiadoras, por exemplo, de países mais vulneráveis. Sabe se esse tipo de situações, como aconteceu na Jamaica ou no Chade, ainda são uma opção?

Atualmente algumas destas empresas são como bancos para alguns países. Por exemplo, o maior credor do Chade, em África, é a Glencore. A região semi-independente do norte do Iraque, o Curdistão, é financiada não pelos bancos, mas por estas empresas. Em países em desenvolvimento, mais pobres, que não têm nenhuma opção, as empresas de matérias-primas são como bancos.

No caso dos países em guerra, chegam a financiar os dois lados do conflito?

Habitualmente financiam um lado do conflito, sempre tendo em vista o dinheiro. Mas o que temos visto é que são empresas interessam-se pouco pela política, no sentido em que podem financiar um regime de esquerda ou de direita. As mesmas empresas que faziam negócios com Fidel Castro em Cuba, estavam a fazer, ao mesmo tempo, negócio com Augusto Pinochet, no Chile. Um executivo da indústria contou-me que as cores políticas lhes interessavam pouco, o que interessava era a cor do dólar.

Como já disse, este tipo de contrabando já havia. A diferença nestes dias está no volume de negócio e no impacto que tem sobre todos nós, até pela Guerra na Ucrânia?

Todos somos clientes destas empresas de matérias-primas. Tudo o que fazem afeta-nos. Durante muitos anos ajudaram Vladimir Putin a vender o seu petróleo no mercado internacional. E ajudaram-no, sobretudo, a partir de 2014 quando a União Europeia e os Estados Unidos começam a impor sanções pela invasão da Crimeia. Atualmente, isso continua a ser legal porque as sanções europeias não entraram em vigor. Estas empresas continuam a vender matérias-primas russas no mercado internacional.

Estão a conseguir contornar as sanções?

As sanções mais importantes, que são a proibição da venda de petróleo russo na União Europeia - não está em vigor até dezembro - e a proibição da venda de produtos refinados, como gasolina e gasóleo da Rússia, só [entra em vigor] em fevereiro do próximo ano. É incrível que umas sanções só entrem em vigor um ano depois do início da guerra. Até lá, estas empresas continuam a ajudar a Rússia a vender para a Europa e resto do mundo. E prosseguem, desta forma, o envio de dinheiro para o Kremlin, connosco a irmos às compras na Rússia. A única coisa que estas empresas estão a fazer é satisfazer a necessidade dos clientes e consumidores.

Muito se tem falado dos cereais ucranianos, tem conhecimento se neste caso específico estes negociantes têm-nos usado?

Sim, estas empresas negoceiam não só os cereais ucranianos, como os russos. O que os governos ocidentais têm feito é diferenciar as matérias-primas: as que estão sancionadas, como o petróleo e o carbono, e as que não estão, como os bens essenciais, sobretudo os cereais dos dois países. Pensou-se que a segurança alimentar era mais importante do que apertar as clavículas a Vladimir Putin.

Deixe-me só voltar um pouco atrás, é possível termos receio da forma como estas empresas estão a ajudar a contornar as sanções?

Há uma luta muito importante agora que é, de um lado os que defendem sanções mais dura, do outro quem receia o impacto das mesmas, sobretudo nos preços do petróleo. É um debate importante, como por exemplo, por um teto às importações do petróleo russo, o país a ameaçar deixar de produzir e os comerciantes de matérias-primas um pouco no meio destas opções. Mas uma coisa é certa, seja qual for a escolha, vão tentar beneficiar ao máximo. Há uma especial preocupação, acho que nos Estados Unidos de que as sanções às matérias-primas russas tenham um custo muito importante porque aumentam o preço da energia.

Estas empresas podem estar a ajudar a Rússia a "lavar o petróleo", contornando as sanções? Podes-nos explicar o que significa este conceito?

É uma das ironias das sanções europeias. A Europa está a comprar cada vez menos petróleo à Rússia, e o país liderado por Vladimir Putin tem exportado cada vez mais para a Índia, que antes comprava uns 100 mil barris de petróleo russo por dia, agora comprando uns 800 mil. Significa oito vezes mais. E, por sua vez, a Índia está a exportar cada vez mais gasolina e gasóleo, que em parte vem para a Europa, feito a partir do petróleo russo. Mas, uma vez que são refinados na Índia, em vez de se chamar gasolina ou gasóleo da Rússia, passa a ser gasolina ou gasóleo da Índia. Isto é parte do negócio dos comerciantes de matérias-primas: comprar petróleo russo, vendê-lo à Índia e de novo ir à Índia comprar os produtos refinados, de origem russa, mas com outro nome. E, depois, vender de volta à Europa. A ideia é ganhar dinheiro, e muito, em cada transporte destes.

O quanto faturam por ano está contabilizado?

São empresas que ganham muito dinheiro e como a maior parte não estão em bolsa, não publicam os seus relatórios financeiros, mas no livro contamos os resultados de algumas. Por exemplo, a Vitol ganhava milhares de milhões de dólares todos os anos. Neste último ano ganhou mais de quatro mil milhões e talvez em 2022 ganhe até mais. Entre janeiro e julho deste ano, ganharam quase 4500 milhões de dólares. São resultados superiores aos de empresas da Península Ibérica. Chegam a ganhar mais dinheiro que alguns bancos que temos em Espanha ou Portugal. O mais surpreendente é que como são empresas privadas, que estão controladas por alguma família ou empresários, o dinheiro dos benefícios não vai para os acionistas, mas para só alguns que se contam pelos dedos das mãos.

E a perspetiva é que venham a ganhar mais pela dependência do mundo das matérias-primas e da sua escassez?

As empresas, uma vez mais, não são produtoras, ou seja, não beneficiam se os preços forem baixos ou altos. O que lhe interessa é a volatilidade, que os preços subam e desçam, que se movam muito. É o que habitualmente gera mais benefícios para eles. Neste momento, com os preços instáveis, estas empresas estão a beneficiar muito.

Quanto aos Estados, tem conseguido monitorizar este dinheiro e taxá-lo, ou os chamados "paraísos fiscais" tem sido um expediente?

Estas empresas têm os seus quartéis-generais em lugares onde a regulação é bastante baixa, como por exemplo, Suíça ou Singapura, e a sua estrutura em países onde se pagam poucos impostos. E, em alguns casos, em paraísos fiscais. Uma das coisas mais surpreendentes é que estas empresas não só ganham muito dinheiro, como pagam poucos impostos. Os bancos de Wall Street, por exemplo, faturam menos e pagam muito mais impostos.

O que é que a Europa, no seu entender, deveria fazer?

Deveríamos ter mais interesse no que estão a fazer estas empresas e em saber quanto dinheiro ganham na União Europeia, porque fazem os negócios desde a União Europeia e não pagam muitos impostos. Claro que os governos europeus deviam ter mais atenção a isso, mas é um setor que muitos executivos desconhecem.

Qual a razão para isso?

Por um lado, porque não prestaram a atenção devida, por outro, estas empresas sempre se movimentaram na sombra. Este é um dos poucos setores da economia mundial que, sobretudo depois da crise de 2008, permanece praticamente não só sem regulação, como ninguém o vigia, nem observa.

Porque têm demasiado poder e estamos muito dependentes dessas empresas?

Os países, sobretudo os produtores de petróleo, dependem muito dessas empresas. E, como o setor se tem concentrado mais, há um menor número de empresas, esses países estão mais dependentes de um número mais pequeno de empresas. Isto fez com que o poder de negociação dos países tenha baixado e a dependência aumentado.

É possível encontrar alguma forma para travar tamanho poder?

Acho que a primeira coisa que os governos têm de fazer é perceber o poder destas empresas, saber que existem. Depois, pedir que sejam mais transparentes, que revelem mais informação. E ainda começar a decidir se precisam de mais regulação ou não, a começar pela fiscalidade.

Está com esperança de que isso venha a acontecer?

Foi um pouco por isso que escrevemos o livro. Queremos que todos conheçam estas empresas, desde logo os políticos europeus. Penso que no último ano, quando publicámos o livro em inglês e agora em português, o conhecimento das empresas aumentou. Vimos que alguns bancos centrais na Europa estão a escrever informação sobre elas, algo que não tinham feito até agora. Vamos ver mais? Não sei. É demasiado cedo. Mas, pela primeira vez, houve políticos americanos e europeus a tomarem consciência da importância do setor.

À medida que foi escrevendo o livro, e depois quando foi publicado, surgiram problemas para si?

[Risos]. A resposta do setor foi contraditória. Houve empresários que reagiram como se recebe um livro crítico, aceitaram a crítica. Já outros não gostaram tanto e deixaram de me falar. São ossos do ofício.

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